A segunda-feira começou como qualquer outra.
Alarmes tocando.
Mensagens chegando.
Compromissos lotando a agenda.
A cidade despertava em ritmo acelerado, e as três amigas mergulhavam novamente em suas rotinas intensas.
Por trás da independência, da elegância e do sucesso profissional, existia algo que elas raramente admitiam.
O medo silencioso do tempo.
Lizzy
Lizzy Monteiro estacionou seu carro em frente ao tribunal e respirou fundo.
Vestindo um elegante conjunto azul-marinho e salto alto, caminhou pelos corredores transmitindo a imagem de uma mulher segura.
E ela era.
Pelo menos profissionalmente.
Aos trinta anos, era uma advogada reconhecida.
Tinha clientes importantes, um excelente apartamento e uma carreira invejável.
Mas havia perguntas que a perseguiam constantemente.
— Doutora Lizzy, quando vai casar?
— Ainda não apareceu ninguém?
— Já pensou em ter filhos?
Ela sempre sorria.
Mas, por dentro, aquelas perguntas começavam a cansá-la.
Na sala dos advogados, uma colega se aproximou.
— Lizzy, você precisa encontrar alguém.
— Preciso?
— Claro, Uma mulher bonita, inteligente e bem-sucedida como você não pode ficar sozinha.
Lizzy sorriu educadamente.
— Eu não estou sozinha.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
Lizzy apenas assentiu.
Mas a verdade era que ela estava cansada daquela cobrança invisível que a sociedade colocava sobre mulheres da sua idade.
****
Lisa
Do outro lado da cidade, Lisa usava capacete e observava uma grande obra.
Ela era respeitada por todos.
Determinada.
Competente.
Exigente.
Um dos engenheiros brincou:
— Lisa, você trabalha tanto porque não tem marido?
Ela cruzou os braços.
— Não, Eu não tenho marido porque trabalho muito.
Os homens riram.
Mas Lisa não.
Ela já estava cansada daquele discurso.
Como se o sucesso profissional e a vida amorosa fossem incompatíveis.
Como se uma mulher precisasse escolher entre carreira e amor.
Seu celular vibrou.
Era uma mensagem da mãe.
Filha, a filha da dona Helena acabou de casar. Quando será a tua vez?
Lisa fechou os olhos.
Respirou fundo.
E respondeu apenas.
Mãe, quando acontecer, acontecerá.
Guardou o celular e continuou trabalhando.
Mas a pergunta ficou ecoando dentro dela.
****
Beth
Enquanto isso, Beth estava em um dos seus hotéis.
O empreendimento luxuoso era fruto de anos de dedicação.
Ela caminhava pelo lobby cumprimentando funcionários.
Todos a admiravam.
Todos a respeitavam.
Todos a consideravam uma mulher inspiradora.
Mas ninguém conhecia a dor que ela carregava.
Na sua sala, seus olhos pararam sobre uma pequena caixa guardada numa gaveta.
Ela a abriu.
Lá dentro estava o anel de noivado.
O símbolo de uma vida que nunca aconteceria.
Beth ficou alguns segundos olhando para ele.
Depois fechou a caixa.
— Acabou.
Ela repetia isso diariamente para convencer a si mesma.
Mas algumas feridas ainda estavam abertas.
Seu celular tocou.
Era Lizzy.
— Almoço das três?
Beth sorriu.
— Sempre.
****
Ao meio-dia, elas estavam no restaurante favorito delas.
Uma mesa reservada.
Três amigas.
Três mulheres fortes.
Três corações cansados.
Lisa foi a primeira a falar.
— Vocês já perceberam que, depois dos trinta, as pessoas ficam obcecadas pela nossa vida amorosa?
Lizzy riu.
— Hoje me perguntaram quando vou casar.
— A minha mãe já perguntou pela décima vez essa semana. — respondeu Lisa.
Beth suspirou.
— Comigo é pior.
— Por causa do noivado? — perguntou Lizzy.
Beth assentiu.
— As pessoas olham para mim com pena.
Lisa segurou sua mão.
— Não sinta vergonha.
— Eu sei.
— Quem errou foi ele.
Beth sorriu.
— Obrigada.
Lizzy bebeu um gole de suco.
— Sabe o que é engraçado?
— O quê? — perguntaram as duas.
— Nós somos exatamente as mulheres que sonhávamos ser.
As duas ficaram pensativas.
Ela continuou.
— Independentes.
— Bem-sucedidas. — completou Lisa.
— Fortes. — acrescentou Beth.
— E mesmo assim sentimos que falta alguma coisa.
O silêncio tomou conta da mesa.
Não era um silêncio triste.
Era um silêncio verdadeiro.
A vida adulta era diferente do que elas imaginavam.
A felicidade não vinha pronta.
Era construída todos os dias.
Lisa abriu um sorriso travesso.
— Pensando bem.
Beth já reconheceu aquele olhar.
— Nem começa.
— Estou só dizendo…
— Lisa…
— A ideia dos maridos de aluguel continua sendo genial.
Lizzy tentou disfarçar, mas sorriu.
Beth apontou o dedo para as duas.
— Vocês ainda estão pensando nisso?
— Um pouquinho. — respondeu Lizzy.
— Muito. — confessou Lisa.
Beth começou a rir.
— Vocês são impossíveis.
Lisa abriu novamente o site da empresa no celular.
Dessa vez, Lizzy se inclinou para olhar melhor.
Beth tentou ignorar.
Tentou mesmo.
Mas seus olhos acabaram indo para a tela por alguns segundos.
Três fotografias apareciam em destaque.
Três homens.
Três perfis.
Três destinos que começavam a se aproximar.
E, sem perceber, o universo já havia começado a unir seis vidas que seriam transformadas para sempre.
A noite caiu lentamente sobre a cidade.
As luzes dos edifícios brilhavam como pequenas estrelas espalhadas pela escuridão, enquanto a movimentação das ruas diminuía aos poucos.
Na cobertura de Beth, um delicioso aroma de comida tomava conta do ambiente.