Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: AYLA
Parei no estacionamento da faculdade com o coração disparado, pulsando tão forte que latejava nos ouvidos. Minha respiração saía pesada, irregular. Ajustei o retrovisor, encarando meu reflexo: cabelos bagunçados, lábios vermelhos e inchados, olhos brilhando com um prazer que eu não queria admitir.
— Aquilo não foi real — murmurei para mim mesma, puxando a camiseta larga que ainda carregava o cheiro dele. Forte. Marcante. Irritantemente bom. Passei os dedos pela marca no ombro, bufando baixo. — Droga… Ele era real, não era?
Bati a testa no volante e dei alguns socos irritados.
— Argh, o que foi que eu fiz? — gemi, esfregando a pele já quente. — Como eu fui dormir com um estranho? O que ele era? Aquelas sensações… a dor…
Lembrei dos dentes dele na minha pele, do rosnado possessivo contra meu ouvido, do corpo dele me prendendo… e meu corpo traiu de novo, aquecendo em ondas traiçoeiras.
“Você me pertence, humana.” A memória ecoou, vibrando como se ele ainda estivesse ali.
— Já chega, Ayla! — gritei comigo mesma, saindo do carro e balançando a cabeça como se isso pudesse apagar tudo. — Aquilo não aconteceu… não vai acontecer de novo. Foi só uma noite louca, uma bebida suspeita e um péssimo julgamento. Só isso!
Atravessei o campo da faculdade tentando parecer normal, apertando a camisa contra a pele. Seu cheiro inundava minha mente, o corpo protestava com as lembranças de toques quentes, possessivos, apertando minha carne. Umedeci os lábios em reflexo, ainda sentindo seu gosto, me arrepiando dos pés à cabeça.
— Foi o melhor sexo da minha vida — confessei baixinho, com um sorriso tímido surgindo, sentindo a face corar. — Então… é isso que chamam de orgasmo?
Matt nunca havia me tocado daquele jeito, nunca tinha chegado ao ápice comigo. Ele dizia que eu era fria, que quase nunca demonstrava vontade. Com ele, tudo era morno, previsível, sem graça. Por muito tempo achei que a culpa fosse minha. E quando terminava antes, a desculpa era outra: “Você é gostosa demais”. Conveniente.
“Então não há motivo nenhum para chorar por esse tal Matt. Se não sabe satisfazer uma fêmea, problema dele.”
— Sim… — respondi por impulso, parando de repente e olhando em volta, alerta. — Quem disse isso?
Não havia ninguém. Só silêncio.
— Olá? — chamei, esperando alguma resposta. Nada. Mordi a parte interna da bochecha, nervosa. — Ótimo… agora estou ouvindo vozes e falando sozinha. Preciso dormir!
Eu sentia algo se agitando dentro de mim, como se a fera quisesse sair, esticando as garras por baixo da pele. Meu peito apertou, uma raiva surda subindo sem motivo. E então trombei com alguém.
Perdi o equilíbrio e caí sentada no chão, o impacto subindo direto pela coluna.
— Ai! Sua idiota, não olha por onde anda?
Ergui os olhos, já irritada. Natalie. A loira da foto. A amante do meu ex. Claro que era ela. Sempre ela.
— Ah, tinha que ser você — soltei, seca, me levantando devagar.
Natalie cruzou os braços, olhando de cima, atrás dela duas amigas observavam com aquele sorrisinho venenoso.
— Chegando de fininho? — ela cantarolou. — E ainda por cima com roupas masculinas? Estava tentando segurar um homem que nunca foi seu?
Torci o nariz, sacudindo a poeira da roupa com desdém.
— Relaxa, Natalie. Recebi sua foto. — Ergui o olhar, frio. — Não tenho interesse em disputar o Matt. Pode ficar com o que sobrou… não é exatamente disso que cadelas como você gostam? Das sobras?
Uma das amigas soltou um riso curto.
— Que foto? — Ela tentou recompor a postura, mas os lábios traíram um tremor nervoso. — Não faço ideia do que você está insinuando. E, se você satisfizesse o seu namorado, talvez ele não precisasse procurar algo melhor fora.
Revirei os olhos, lento, deliberado.
— Claro… — estalei a língua, sentindo a raiva eriçar cada fio sob a pele. — Então aproveite bem. Ele é todo seu… enquanto durar.
Ameacei me afastar.
— Por que não foi ao bar ontem? — Ela se colocou em meu caminho. — Você perdeu a nossa festinha de aniversário… — Continuou, sínica. — Devia ter aparecido!
Seu sorriso se esticou, satisfeito, inclinando o rosto perto do meu, sussurrando:
— Matt estava radiante, nos divertimos muito juntos!
Algo se agitou dentro de mim, quente e violento. A voz veio baixa, primal, como um rosnado distante na minha mente:
“Rasgue a garganta dela… ela ousou tocar o que é nosso.”
Respirei fundo pelo nariz, forçando controle.
— Sai da minha frente, Natalie — falei entre os dentes, os punhos cerrados. — Não tenho tempo para lidar com piriguete carente!
Passei por ela batendo o ombro enquanto as amigas riam, satisfeitas.
— Você me chamou do quê? — Natalie gritou, a voz estridente, agarrando meu braço e me puxando de volta. — Onde pensa que vai, sua vadia? Eu não terminei com você!
Não pensei. Meu corpo reagiu antes da minha paciência.
Ergui a mão e acertei um tapa forte no rosto dela, o estalo ecoou alto. Natalie girou com o impacto e caiu sentada no chão, atordoada.
— Natalie! — as amigas gritaram, correndo para ajudá-la. — Você está bem?
— Nat, sua boca está sangrando! — disse uma das amigas, em pânico.
— Você… você… sua mão… — Natalie soluçou, os olhos arregalados, presos aos meus dedos. — São… garras?
Baixei o olhar. As lâminas curvas haviam se projetado sem que eu percebesse, trêmulas, denunciando o que eu não compreendia. Em um gesto brusco, escondi as mãos às costas.
— Do que você está falando, Nat? — a outra amiga disse, me encarando como se buscasse uma lógica onde não havia. — A mão dela está normal.
— Eu vi! Eu sei o que vi! — Natalie gritou, levando a mão à boca. Quando a afastou, havia sangue. Tocou a gengiva ferida, cuspiu algo no chão. — Ela tinha garras…
— Nat… sua boca está cortada… e seu dente… — a amiga empalideceu, a voz falhando. — Meu Deus… essa maluca quebrou o seu dente!
Endireitei a postura, engolindo em seco, o controle por um fio.
— Nunca mais encoste em mim — rosnei baixo, ameaçadora. — Ou eu acabo com a sua vida!
Natalie se encolheu, puxando as amigas para perto, o grupo inteiro me olhava apavorada.
— Você enlouqueceu? — ela gaguejou, assustada.
— O que deu nela? — sussurrou outra, nervosa.
— Ela está parecendo uma selvagem! — disparou outra, com desprezo. — Vem, Nat. Vamos para a enfermaria.
Balancei a cabeça, tentando clarear a mente… só então percebi que estava avançando na direção delas. Parei na hora, apertando os olhos com força, travando o corpo.
— Só… fiquem longe de mim! — gritei, virando de costas e saindo rápido.
— Isso não vai ficar assim, Ayla! — a voz de Natalie veio atrás, furiosa. — Você vai pagar caro por isso!
Continuei andando sem olhar para trás. Depois, correndo. As lágrimas ardiam nos olhos, teimosas, borrando tudo.
— O que está acontecendo comigo? — mordi o lábio, nervosa, com medo, dobrando o corredor.
Esbarrei em algo sólido, mãos grandes agarraram meus quadris com firmeza antes que eu caísse no chão. Um choque atravessou minha coluna, vacilando minha respiração, o coração acelerou, quando nossos olhares se encontraram.
Era ele. O cara da ponte. Bem na minha frente.
Seu olhar era tempestuoso, marcado por uma linha selvagem que rasgava suas íris terrosas, perigosos.
— Então… — Estalou a língua. — Você me usa, abusa, passa a noite comigo…
Em um tranco, colou nossos corpos.
— E depois foge na ponta dos pés levando meu carro?
Abri e fechei a boca, com os olhos arregalados.
— O-o que você está fazendo aqui? — Eu gaguejei, sentindo as pernas fraquejarem. — Como me encontrou?
Um sorriso lento de canto surgiu em seus lábios. Ele se inclinou devagar, roçando a ponta do nariz por minha bochecha até o ouvido. Sua voz veio baixa, rouca, grave:
— Eu disse que te marcaria com o meu cheiro!







