Mundo ficciónIniciar sesión"Ana"
Dois dias depois, um entregador buzinou no portão trazendo uma caixa gigante, acompanhada de outras menores.
Era o meu vestido de noiva. No meu número exato.
Eu era como um rato preso em uma armadilha.
Diego Martins tinha me mandado a roupa que eu deveria vestir e as joias que deveria usar. Naquela mesma manhã, o doutor Castillo havia me ligado para avisar que o milionário aceitara todas as minhas condições, incluindo uma mesada generosa que seria transferida mensalmente para uma conta em meu nome — o suficiente para garantir o tratamento do Caleb sem sobressaltos.
Mas o preço daquela garantia vinha dentro daquelas caixas.
O vestido branco, impecável, de mangas longas e completamente rendado, era clássico e elegante. Ao olhar para ele, minha primeira vontade foi pegar uma tesoura, picotá-lo em pedaços e mandar tudo de volta para o dono.
Diego estava me enviando um recado claro, sem precisar dizer uma única palavra: dali em diante, quem mandava era ele.
E não tinha sido sempre assim na minha vida?
Primeiro meu pai, dando ordens através de babás. Agora, meu futuro marido.
O toque do celular me fez dar um salto. Meu peito apertou; toda vez que o aparelho tocava, meu estômago se contraía com o medo de ser o hospital.
Mas era apenas o doutor Castillo.
— Ele mandou o vestido — anunciei antes mesmo que ele pudesse me cumprimentar.
— Sério? Esse homem é estranho... O advogado dele acabou de me enviar a documentação final — Castillo suspirou do outro lado da linha, com a voz pesada. — Ana... ele quer o casamento daqui a duas semanas.
— Duas semanas?! — Minha voz ecoou pelas paredes vazias da mansão.
— Sim. Ele disse que já está tudo preparado e que você não precisa se preocupar com nada. “Ela só precisa aparecer”, foram as palavras exatas do advogado. Olha, minha querida... eu não estou gostando disso. A Maya está no meu pé, furiosa, e minha filha tem razão. Esse homem é perigoso. Pelo que ouvi nos bastidores do mercado, tudo o que aconteceu no passado ainda está muito vivo na mente dele.
Senti o silêncio esmagador da casa ao meu redor. Todos os empregados haviam sido dispensados desde o funeral do meu pai. O abandono e a poeira já começavam a tomar conta dos cantos da mansão que um dia ostentara tanta vida e poder.
Eu estava completamente sozinha.
— Vamos em frente, doutor — respondi, engolindo em seco.
— Ana...
— Tudo bem. Eu sei dos riscos. Não precisa se preocupar comigo, eu sei me cuidar. Se ele quer casar em duas semanas, que assim seja.
Castillo hesitou. Permaneceu em silêncio por alguns segundos e, antes de concordar, murmurou um adeus e desligou.
Encarei os próximos passos como uma missão a ser cumprida.
Levei as caixas para o quarto e experimentei o vestido. Para o meu absoluto espanto, ele ficou perfeito. O ajuste no busto, a cintura, até o comprimento da saia... tudo parecia moldado exatamente no meu corpo.
Como Diego Martins conseguira minhas medidas com tanta precisão era algo que eu preferia não tentar imaginar.
Olhei-me no espelho da penteadeira, não me reconheci, eu nunca tinha pensado em casamento, e agora, em duas semanas, usaria aquele vestido diante de dezenas de pessoas para me casar com um homem que nunca tinha visto na vida.
Na caixa menor, ele havia escolhido brincos e um colar de esmeraldas legítimas. Eu não queria admitir, mas eram lindos. Exatamente da cor dos meus olhos. Um verde profundo e intenso.
Ele sabia exatamente como eu era.
Ali, de pé no centro daquele quarto empoeirado, vestida de noiva e cercada pelo silêncio, eu finalmente desabei. Permiti-me chorar, derramando todas as lágrimas que vinha segurando desde a morte do meu pai.
Eu só tinha vinte anos e estava prestes a amarrar meu destino ao de um homem que me odiava por herança.
Eu, que nunca tivera um namorado de verdade. Que ainda era virgem. E cujo único beijo, aos dezesseis anos, com um amigo da escola, tinha sido um desastre completamente sem graça.
Passei anos dedicando minha vida ao Caleb, sem pensar em mais nada.
Sequei as lágrimas com cuidado para não manchar a renda cara do vestido. Depois, encarei meu reflexo no espelho, endireitei a postura e ergui o queixo.
Se Diego Martins achava que estava comprando uma vítima frágil para a sua vingança, teria uma surpresa.
Pelo Caleb, eu suportaria qualquer inferno.
Inclusive, precisava contar tudo ao meu irmão. Uma notícia como aquela seria impossível de esconder — e ainda mais difícil de explicar.
Durante o caminho até o hospital, tentei inventar uma desculpa convincente, mas nenhuma parecia boa o suficiente. Eu teria que mentir sobre meu relacionamento com Diego.
Cheguei ao quarto do Caleb e encontrei meu irmão melhor do que nos últimos dias. Estava estável, mais animado, com aquele brilho fraco, mas ainda presente, no olhar.
— Chegou cedo hoje... que bom, quero começar logo a assistir à série. Já estava quase vendo sem você.
Sorri de leve.
— Duvido que você cometeria essa traição. Mas, antes de assistirmos, tem uma coisa que eu preciso te contar.
Caleb me encarou imediatamente. Meu irmão sempre fora extremamente perceptivo. Bastava uma mudança no meu tom de voz para ele perceber que havia algo errado.
Por isso eu nunca conseguia mentir para ele, pelo menos até agora.
— Eu não vou conseguir mais ficar aqui com você o tempo todo — comecei devagar. — Claro que vou continuar vindo todos os dias. Talvez eu não consiga mais dormir aqui, mas você pode falar comigo a qualquer momento.
A expressão dele mudou na hora.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Nada disso. — Parei por um instante, procurando coragem. — Eu vou me casar em breve.
— Casar? Como assim casar? Você nunca disse que tinha namorado, muito menos um noivo.
— É complicado... recente. E, enfim... nós decidimos casar. Você até conhece ele. Vou me casar com Diego Martins. Sabe... o cara da televisão.
Caleb me olhou incrédulo e permaneceu em silêncio por alguns segundos, o que me deixou ainda mais nervosa.
Eu esperava qualquer reação, menos aquela.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou, por fim.
A pergunta me pegou desprevenida.
— Porque... somos namorados — Minha voz estava longe de parecer natural.
— Eu sei que vocês não são.
Meu coração travou.
— O quê?
— Eu pesquisei sobre ele. Li tudo. Sei o que o nosso pai fez no passado. Isso não faz sentido. Eu conheço você, Ana. — Os olhos dele se encheram de tristeza. — É por minha causa, não é?
Caleb era inteligente. E, às vezes, eu subestimava o quanto.
Ele sabia tudo o que a internet falava sobre a falência dos Figueira. Não apenas as notícias, mas também os processos. Associar Diego Martins ao nosso pai era fácil, com um pouco de habilidade era possível achar até o processo entre os dois.
Diante do olhar do meu irmão, não consegui mentir.
— Caleb...
— Ana, eu sei o quanto custa me manter aqui. O nosso pai já esfregou isso na minha cara várias vezes. Mas você não pode fazer isso. Você não está feliz. Eu consigo ver.
— Caleb, é complicado. Eu não quero que você se preocupe com isso. Você não pode ficar agitado. — Segurei as mãos dele. — Eu sei me cuidar, você sabe disso. Não precisa se preocupar comigo. Eu sei exatamente o que estou fazendo.
Ele abaixou os olhos por um instante antes de dizer, quase em um sussurro:
— Você não precisa se sacrificar por mim. Eu vou morrer de qualquer jeito. Você sabe disso.
As lágrimas escorreram imediatamente pelo meu rosto.
Eu odiava quando Caleb falava daquela forma. Não porque fosse pessimista — meu irmão era apenas pragmático. Ele aceitava o próprio diagnóstico, aceitava a possibilidade de um milagre e também a de que ele nunca acontecesse.
Eu não.
Eu me agarrava a qualquer mínima esperança, por menor que fosse. Lutaria até o fim.
— Não fala assim. Você é meu irmão, e eu vou lutar por você sempre, ouviu? — apertei suas mãos com mais força. — E sim, eu vou me casar com o Diego. Mesmo que eu não consiga dormir aqui todas as noites, eu vou continuar presente. Vamos assistir às nossas séries, ler nossos livros e conversar todos os dias.
Caleb ainda queria discutir, mas consegui convencê-lo a parar. Ele já estava agitado demais, e aquilo não lhe fazia bem.
Passei o resto do dia ao lado dele, assistindo à nossa série como sempre fazíamos.
Aquele pequeno quarto era o nosso mundo. E eu prometi, silenciosamente, que nada de ruim aconteceria com ele.







