Mundo ficciónIniciar sesión"Ana"
— Ainda dá tempo de correr — Maya sussurrou, com a voz trêmula. — Minha moto está no estacionamento. Conseguimos chegar lá em cinco minutos.
Eu estava, mais uma vez, parada diante do espelho, encarando o reflexo de uma noiva perfeita. Já nem sabia quem era a mulher que me observava de volta.
As duas semanas tinham passado como um borrão. No dia anterior, eu havia enviado minhas malas para a casa de Diego, todas trancadas com senha e cadeado, como se aquilo pudesse proteger alguma parte da minha vida que ainda me pertencia.
Deveria entrar sozinha na cerimônia, mas o doutor Castillo estava ao meu lado, oferecendo o braço com os olhos marejados, cumprindo o papel de me entregar ao homem que comprara a minha ruína.
Eu não ia fugir. Agradeci à minha amiga pela oferta, mas não correria.
Maya, como minha única madrinha, me entregou o buquê. Segurei-o com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.
Ela entrou à frente, acompanhada de um homem que eu nunca tinha visto na vida, e eu fiquei ali, esperando, completamente alheia ao que acontecia à minha volta.
As portas se abriram.
O salão estava lotado, mas eu não consegui focar no rosto de ninguém. E, no fundo, também não me importava.
O fotógrafo surgiu na minha frente, registrando cada segundo da decadência da herdeira dos Figueira se unindo ao novo titã da tecnologia.
Então meus olhos foram atraídos, inevitavelmente, para o altar.
Lá estava ele. Diego Martins.
Era ainda mais alto do que parecia na televisão, vestindo um terno sob medida de corte impecável, escuro como a noite. O maxilar era rígido, perfeitamente desenhado, e os cabelos escuros estavam alinhados com precisão irritante.
Diego era um homem absurdamente bonito. Poderia facilmente ser ator, modelo ou qualquer coisa que quisesse, ter a mulher que quisesse. Mas estava ali, diante de um altar, prestes a se casar com uma mulher que mal conhecia.
Foi o olhar dele que me fez perder o passo. Meu corpo inteiro se arrepiou e, por um segundo, eu simplesmente travei, incapaz de colocar um pé à frente do outro.
Foquei em Caleb. No sorriso dele. Na promessa que fiz a mim mesma.
Era aquilo que me obrigava a continuar andando até o altar, mesmo quando cada instinto do meu corpo gritava para fugir.
Ao redor de Diego havia pessoas que eu não conhecia. Na plateia, homens importantes. Mulheres impecáveis. Gente poderosa — alguns que certamente me conheciam — e todos ali sabiam que nunca houve nada entre mim e o homem no altar.
E eu queria correr para bem longe dali.
Os segundos passaram, mas o olhar dele continuava preso ao meu, intenso e imóvel, como se me desafiasse a ter coragem de desistir. Diego poderia ter transformado aquilo em um simples contrato. Poderia ter exigido apenas assinaturas, cláusulas e silêncio.
Mas não. Ele queria um casamento de verdade. Queria que eu morasse na casa dele. Queria me colocar dentro da vida dele.
Por quê? Não podia ter certeza, mas podia imaginar e agora estava prestes a descobrir.
Quando comecei a andar pelo tapete vermelho, senti os olhos dele me percorrendo lentamente. Diego analisava o vestido fechado até o pescoço que ele mesmo escolhera, as esmeraldas no meu colo, meu rosto quase sem expressão.
Não havia calor naquele olhar. Não havia romance.
Doutor Castillo me entregou a ele com as mãos levemente trêmulas.
— Cuide dela — murmurou o advogado.
Diego não respondeu. Apenas estendeu a mão para que eu a segurasse.
E, quando meus dedos tocaram os dele, uma corrente elétrica de puro pânico percorreu meu corpo.
A mão dele era firme. Quente. Real demais.
Diego se inclinou discretamente na minha direção, e o perfume amadeirado, caro e marcante invadiu meus sentidos.
Antes que o juiz de paz começasse a cerimônia, ele sussurrou, tão baixo que apenas eu pude ouvir:
— Seu pai me tirou tudo. Pena que morreu antes de ver que eu fiquei com a única coisa que restou dele. Então sorria para as fotos, porque estou pagando caro por isso.
Continuei olhando para frente, encarando o cerimonialista que sorria como se aquele fosse um casamento normal.
Se em algum momento eu tivera dúvidas sobre as intenções de Diego, agora tinha certeza.
Aguentei até o fim. Foi rápido, protocolar, não houve votos, sorrisos, lágrimas. Não houve beijo. Apenas a troca de alianças.
Sustentei o olhar sem hesitar quando ele deslizou o anel pelo meu dedo. Fiz o mesmo, embora com um pouco mais de brutalidade.
Se ele esperava que eu abaixasse a cabeça, estava enganado.
Cumpri meu papel com perfeição. Sorri para alguns convidados, cumprimentei pessoas cujos nomes eu não fazia questão de decorar e permaneci ao lado dele como uma esposa impecável.
Durante a festa, não houve mais toque entre nós, nem sequer a dança que um casamento costuma ter. Permaneci ao lado dele, mas distante; um abismo emocional nos separava. Após os brindes, todos pareciam prontos para fugir daquele teatro.
Maya chorou ao me abraçar, insistindo mais uma vez para que eu fugisse.
— Não vou fazer isso. Mas obrigada... Você guardou minha bolsinha?
— Está naquela sala de espera. Coloquei embaixo do sofá, do lado esquerdo. E sua moto está na minha casa, pode buscar quando quiser. Qualquer coisa, me liga. Não importa a hora.
Sorri para a minha amiga, sabendo que ela falava sério.
— Pode deixar. Obrigada. E não se preocupa comigo, eu sei me cuidar.
— Eu sei que sabe. — Maya sorriu, me abraçando forte mais uma vez antes de ir embora com o pai.
Enquanto os convidados iam embora, eu sabia que precisava continuar ali, ao lado de Diego, me despedindo das pessoas como uma esposa recém-casada deveria fazer.
Ele não tinha dito uma palavra sobre isso.
Mas não precisava.







