Mundo de ficçãoIniciar sessão
Renata
Eu deveria ter ido embora. Essa foi a primeira coisa que pensei quando acordei entre lençóis que não eram meus, com o cheiro de Erick Monteiro grudado na minha pele como uma marca invisível. A cidade ainda dormia do outro lado da janela enorme do apartamento dele. Lá embaixo, os carros pareciam pontos de luz cortando a madrugada, mas ali dentro tudo estava parado. Pesado. Quente demais. Meu vestido estava jogado perto da porta. O salto, perdido ao lado do sofá. Minha bolsa, aberta sobre a mesa de centro, como se até ela tivesse sido arrancada da minha mão no meio daquela loucura. E Erick… Erick dormia de bruços, com o lençol cobrindo parte do corpo, o cabelo escuro bagunçado e a expressão menos cruel do que eu estava acostumada a ver no escritório. Sem terno, sem gravata, sem aquela postura de homem inalcançável, ele parecia quase humano. Quase. Meu coração apertou. A noite anterior voltou em pedaços: a festa da empresa, os olhares atravessados, a mão dele tocando minha cintura quando um investidor bêbado se aproximou demais. A voz baixa no meu ouvido: — Você quer ir embora, Renata? Eu deveria ter dito sim. Mas disse: — Com você? Foi ali que tudo desandou. No elevador, o silêncio entre nós tinha mais perigo do que qualquer palavra. Erick ficou parado na minha frente, olhos escuros presos nos meus, como se estivesse travando uma guerra interna. Eu também estava. Porque ele era meu chefe. Porque ele era frio. Porque homens como Erick Monteiro não pertenciam a mulheres como eu. Mas quando ele me beijou, todas as minhas razões morreram na minha boca. Foi um beijo de tirar o chão. Possessivo, faminto, desesperado. Como se ele tivesse guardado aquilo por tempo demais e agora não soubesse mais fingir indiferença. Suas mãos seguraram meu rosto com uma firmeza que me assustou e me fez desejar mais. — Diz que não quer — ele sussurrou contra meus lábios, a respiração pesada. — Diz agora, Renata, e eu paro. Eu tremi inteira. — Eu quero. A confissão pareceu quebrar alguma coisa dentro dele. Depois disso, a noite virou fogo. Erick me tocou como se eu fosse uma tentação e uma condenação ao mesmo tempo. Cada beijo dele tinha gosto de perigo. Cada vez que seu corpo se aproximava do meu, eu sentia que estava atravessando uma linha da qual nunca conseguiria voltar. Ele me levou para aquele quarto escuro, iluminado apenas pelas luzes da cidade, e ali deixou cair a máscara de chefe perfeito. Não houve frieza. Não houve controle. Só nós dois, a chuva batendo no vidro, a respiração se misturando, os dedos dele entrelaçados nos meus como se, por algumas horas, eu tivesse sido mais do que sua secretária. Mais do que uma funcionária invisível. Como se eu tivesse sido escolhida. E essa era a parte que doía. Porque agora, olhando para ele adormecido, eu sabia que a manhã cobraria o preço. Levantei devagar, tentando não acordá-lo. Meu corpo ainda guardava lembranças da intensidade dele, mas minha cabeça já gritava que aquilo tinha sido um erro. Um erro lindo. Um erro quente. Um erro capaz de me destruir. Peguei meu vestido do chão e o vesti com mãos trêmulas. Procurei meus brincos, prendi o cabelo de qualquer jeito e respirei fundo antes de olhar para trás. Erick se mexeu na cama. Meu coração disparou. — Vai fugir? — a voz dele saiu rouca, baixa, perigosa. Fechei os olhos por um segundo. — Vou embora. Ele se sentou devagar, o lençol caindo até a cintura. O olhar dele me alcançou como uma ordem silenciosa. — Sem dizer nada? Ri sem humor. — O que você quer que eu diga? Que foi um erro? A mandíbula dele endureceu. — Foi? A pergunta me atravessou. Eu queria ser forte. Queria dizer que sim, que aquilo não significava nada. Mas a verdade queimava na minha garganta. — Não sei. Erick levantou, vindo até mim com aquela presença que diminuía o espaço ao redor. Parei de respirar quando ele tocou meu queixo, obrigando-me a encará-lo. — No escritório, nada muda — ele disse. A frase caiu como gelo. Afastei o rosto. — Claro. Eu continuo sendo sua secretária. E você continua sendo meu chefe. Algo passou pelos olhos dele. Culpa? Medo? Arrependimento? Sumiu rápido demais para eu ter certeza. — Renata… — Não precisa explicar. Peguei minha bolsa e caminhei até a porta antes que minha coragem evaporasse. Mas, quando coloquei a mão na maçaneta, senti uma pontada estranha no peito. Como se parte de mim estivesse ficando ali, naquele apartamento, entre lençóis amassados e promessas que nunca foram feitas. — Isso não pode se repetir — falei sem olhar para trás. O silêncio dele respondeu por tudo. Saí antes que ele me impedisse. Horas depois, no banheiro da empresa, encarei meu reflexo no espelho. Batom retocado. Cabelo preso. Camisa alinhada. A Renata de sempre. Mas meus olhos estavam diferentes. E quando senti uma onda súbita de enjoo subir pela garganta, apoiei as mãos na pia fria, tentando respirar. Algo dentro de mim mudou naquela noite. Eu só ainda não sabia o quanto.






