Mundo ficciónIniciar sesiónKATHERINE
O vento começou antes que pudéssemos entender o que estava acontecendo. Foi uma lufada violenta que arrancou os chapéus das senhoras e fez as toalhas de linho das mesas chicotearem como bandeiras em uma tempestade.
O rugido mecânico tornou-se ensurdecedor, abafando os gritos de protesto da minha mãe e calando o quarteto de cordas. Olhei para o céu, apertando os olhos contra a poeira que se levantava.
Um helicóptero preto, fosco e ameaçador, surgiu por cima das árvores centenárias. Ele não estava apenas passando; estava descendo. A aeronave inclinou-se com agressividade, ignorando que aquele gramado não era um heliporto, e pousou bem no meio do jardim, a menos de trinta metros de onde estávamos.
A força das hélices transformou o casamento perfeito de Amy em uma zona de guerra. Arranjos de flores voaram longe, cadeiras tombaram e Jeffrey teve que segurar a peruca do pai para que não voasse.
O helicóptero tocou o solo com um baque pesado. A porta lateral se abriu antes mesmo que as hélices parassem de girar.
Um par de sapatos de couro preto tocou a grama.
Nick saltou para fora.
Um suspiro coletivo varreu os convidados. Ele não estava com a aparência polida da noite anterior. Pelo contrário, parecia um deus do caos que tinha acabado de sair de uma batalha. A gravata estava frouxa, o colarinho da camisa aberto revelando a garganta, e as mangas dobradas nos antebraços expunham o relógio de ouro. O cabelo escuro estava selvagem, bagunçado pelo vento.
Ele exalava perigo, dinheiro e, o mais aterrorizante, fúria.
Nick caminhou pelo gramado com passadas largas, ignorando os seguranças que correram em sua direção. Ele nem sequer olhou para eles; apenas continuou andando, abrindo caminho entre os convidados que se afastavam assustados.
Os seus olhos, escuros e fixos, encontraram os meus.
Meu coração, que estava quebrado segundos atrás, voltou a bater com violência dolorosa. O que ele estava fazendo aqui? Veio cobrar uma taxa extra?
Jeffrey, que até aquele momento ostentava um sorriso vitorioso, recuou um passo. A cor tinha drenado do rosto dele.
Nick parou na minha frente, a respiração levemente acelerada. A intensidade da presença dele fez o ar ao meu redor crepitar.
— Desculpe o atraso, amor — disse ele. A voz era rouca, mas projetada com autoridade suficiente para ecoar no jardim silencioso. — Tive que fazer um desvio de emergência em Nova York.
— N-Nova York? — gaguejei, piscando, tentando entender se eu estava alucinando.
— O joalheiro estava demorando para ajustar a cravação — continuou ele, ignorando meu choque e passando a mão pelo cabelo. — E eu não sairia de lá sem isso. Eu disse a ele que, se não terminasse a tempo, eu compraria a joalheria e o demitiria.
Jeffrey abriu e fechou a boca, parecendo um peixe fora d'água. Amy finalmente desenrolou o véu do rosto, os olhos arregalados.
Nick não olhou para eles. A atenção estava cem por cento focada em mim. Enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma caixa de veludo azul-escuro, quadrada e pesada.
O silêncio no jardim tornou-se absoluto. Ninguém ousava respirar.
Nick se ajoelhou na grama, não se importando com a calça de alfaiataria cara manchando de verde. Ficou ali, aos meus pés, diante da família que me desprezava e do ex que me humilhava, e abriu a caixa na minha direção.
Um brilho amarelo intenso ofuscou minha visão.
Lá dentro, repousando no veludo como uma estrela capturada, estava um diamante canary yellow gigantesco. Era uma pedra retangular, cercada por um halo de diamantes brancos menores, tão grande e obscena que parecia ter gravidade própria.
Aquilo não era um anel de noivado. Aquilo era uma declaração de guerra. Valia mais do que a mansão dos meus pais. Valia mais do que a empresa de Jeffrey.
— Eu não podia deixar você entrar na minha família oficialmente sem isso — disse Nick, olhando nos meus olhos com uma seriedade que me assustou. — Sei que você disse que não precisávamos de formalidades, Kat, mas eu preciso que o mundo saiba a quem você pertence.
Minha mente gritava em pânico: É falso! É vidro! É um adereço de teatro e eu vou ter que vender meus rins para pagar o aluguel disso!
Mas ele não me deu tempo de protestar ou fugir. Pegou a minha mão esquerda, que estava trêmula e gelada, e deslizou o anel pelo meu dedo anelar.
Coube perfeitamente. O metal frio deslizou pela minha pele e o peso da pedra puxou minha mão para baixo. Era real. Assustadoramente real.
Nick se levantou, ainda segurando minha mão com firmeza, e se inclinou para perto. Muito perto.
Os convidados, hipnotizados pela cena, esperavam um beijo romântico. Jeffrey parecia prestes a ter um infarto. Minha mãe estava pálida. Mas Nick apenas roçou os lábios na minha orelha, escondendo o rosto da plateia.
O sussurro dele foi sombrio, possessivo e enviou um calafrio elétrico pela minha espinha:
— Agora você está presa a mim de verdade, Katherine.
Ele se afastou milímetros antes que eu pudesse responder e passou o braço pela minha cintura, colando-me ao seu corpo, virando-nos para enfrentar a multidão chocada.
Nick abriu um sorriso predador, mostrando os dentes brancos, e olhou diretamente para Jeffrey, que tremia de raiva.
— Agora — disse, com a arrogância de quem acabou de comprar o lugar inteiro. — Onde é o bar? Tive uma manhã infernal e preciso de um uísque duplo para aguentar os parentes da minha noiva.
Olhei para o anel pesando no meu dedo, brilhando sob o sol como uma promessa e uma maldição, e depois para o homem ao meu lado. Eu tinha vencido. Jeffrey estava destruído. Mas ao sentir o aperto de ferro de Nick na minha cintura, tive a terrível certeza de que tinha acabado de vender minha alma ao diabo em troca de um diamante.
E ele não parecia o tipo de homem que aceitava devoluções.







