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Capítulo 5 — Rafa Monti

O treino termina melhor do que começou.

Sempre é assim.

Por mais que o dia comece meio torto… quando eu entro em campo, tudo se ajusta.

Mas hoje…

Nem tanto.

— Bora sair daqui? — Vini j**a a toalha no ombro, ainda respirando pesado. — Tô morrendo de fome.

— Tu vive com fome — respondo, pegando minha garrafa.

— E tu vive chato — ele rebate, rindo.

Reviro os olhos, mas acabo concordando.

— Bora.

Saímos juntos do centro de treinamento, ainda com aquele clima leve depois do treino. Do lado de fora, menos gente agora, menos barulho.

Entro no carro, e Vini já se j**a no banco do passageiro.

— Conheço uma cafeteria boa aqui perto — ele fala, mexendo no celular. — Perto de um lago… mó tranquilo.

Franzo a testa, ligando o carro.

— Lago?

— É, pô. Lugar bonito… cheio de gente fitness, correndo, essas paradas.

Dou um meio sorriso de canto.

— Então não é pra tu.

— Vai se ferrar — ele ri. — Dirige aí.

Saio com o carro, pegando a rua principal. O trânsito não tá pesado, o que já ajuda.

Por alguns segundos, fico em silêncio.

Mas Vini não aguenta.

— E aí… — ele me olha de lado. — Tu tá estranho hoje.

— Tô normal.

— Tá nada.

Solto um suspiro, passando a mão no volante.

— Acordei hoje com vinte pessoas dentro da minha casa.

— Quê? — ele arregala os olhos. — Como assim?

— Amigas da Taís.

— Ih… — ele já começa a rir.

— Não é engraçado.

— É sim — ele ri mais. — Tua cara agora…

— Tô falando sério, irmão — olho pra frente, focado. — Gente filmando tudo. Minha sala, minha cozinha… até meu quarto, quase.

— Caraca…

— Postando. Fazendo vídeo. Falando da minha vida como se fosse reality.

Vini balança a cabeça, ainda sorrindo de leve.

— Tu arrumou foi problema.

— Eu não arrumei nada.

— Arrumou sim — ele aponta. — Tá com uma influencer, pô. O que tu esperava?

Aperto o maxilar.

— Eu não ligo pro que ela faz.

— Liga sim.

Fico em silêncio por um segundo.

Dois.

— Eu só não gosto dentro da minha casa.

— Então fala com ela.

— Já falei.

— E?

Dou uma risada sem humor.

— Deu em nada.

Vini me encara de lado.

— Tu tá empurrando isso aí faz tempo, né?

— Não começa.

— Tô falando sério — ele insiste. — Tu não tá feliz, não.

Seguro o volante com mais força.

— Não é sobre estar feliz.

— É sobre o quê então?

Respiro fundo.

— É sobre não ter dor de cabeça.

Ele ri.

— Então já deu errado.

Não respondo.

Porque, no fundo…

Eu sei.

O silêncio toma conta do carro por alguns segundos.

O som do motor.

A cidade passando.

Minha cabeça cheia.

— Vira ali — Vini aponta. — É nessa rua.

Faço a curva sem pensar muito, ainda com a mente longe.

— Tu precisa resolver isso, irmão — ele continua. — Antes que dê merda.

— Já deu — murmuro baixo.

— Sempre pode piorar.

Solto o ar devagar.

— Não piora.

— Pior—

— Já falei, não piora.

Minha voz sai mais firme.

Mais seca.

Ele levanta as mãos, desistindo.

— Beleza… não vou falar mais nada.

O silêncio volta.

Mas não é o mesmo de antes.

Agora… pesa.

Olho pra frente.

A rua tá tranquila.

Pessoas caminhando.

Algumas correndo.

Um lago mais à frente.

— É ali — Vini fala.

Assinto de leve.

Mas minha cabeça ainda tá longe.

Na casa.

Na bagunça.

Na exposição.

Naquela sensação de não ter controle.

Aperto o volante.

Mais forte.

Mais do que deveria.

E é nesse momento…

Que acontece.

Uma sombra se move na minha frente.

Rápido.

Tarde demais.

— RAFA! — Vini grita.

Eu freio.

Mas não o suficiente.

O impacto vem seco.

Surdo.

O som ecoa dentro do carro.

Meu corpo trava.

Meu coração dispara.

E, por um segundo…

Tudo para.

— Caralho… — Vini sussurra.

Minhas mãos ainda estão no volante.

Mas eu não consigo me mexer.

Não consigo respirar direito.

Não consigo pensar.

— Tu… tu viu isso? — ele fala, já abrindo a porta.

É aí que eu volto.

— Merda…

Abro a porta com força, saindo do carro.

Meu coração batendo tão forte que parece que vai sair do peito.

Olho pra frente.

E vejo.

Uma garota.

Caída no chão.

Imóvel.

O mundo inteiro parece desaparecer ao redor.

Sem barulho.

Sem voz.

Sem nada.

Só aquela imagem.

E uma única certeza atravessando minha cabeça:

Eu acabei de atropelar alguém.

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