Mundo de ficçãoIniciar sessãoO avião pousou sob um céu cinza, Helena fechou os olhos por alguns segundos antes que o aviso de desembarque fosse anunciado, seu coração batia em um ritmo controlado demais para ser natural. Ela não era mais a mulher que fugiu naquela madrugada com duas malas e um coração partido. Agora ela voltava como convidada, como palestrante, como nome respeitado no mercado financeiro, mas, ainda assim, a cidade tinha cheiro de memória.
— Mamãe, já chegamos? — Matteo perguntou, apertando a mão dela. Helena sorriu e afastou qualquer sombra do rosto. — Já sim, meu amor. Matteo tinha cinco anos. Inteligente demais para a idade, observador, silencioso quando precisava, tagarela quando se sentia seguro e tinha aqueles olhos que às vezes faziam o passado respirar dentro dela. O carro enviado pela organização da conferência os esperava no aeroporto. Helena não havia solicitado nada especial, mas o Grupo Bianchi era conhecido por tratar convidados estratégicos com extremo cuidado. Ironia do destino. Enquanto o carro cruzava as avenidas largas da cidade, Matteo colava o rosto no vidro. — É tudo muito grande! — Sim — ela respondeu, mantendo a voz firme. — Mas tamanho não significa força. Ele a olhou sem entender completamente, ela apertou sua mão. — A verdadeira força está aqui — tocou o peito dele. Matteo sorriu e ela também, mas seu estômago estava em guerra. No último andar da torre Bianchi, Lorenzo encarava a cidade através da parede de vidro. Cinco anos e o nome dela ainda tinha peso. Helena Duarte, consultora financeira premiada, especialista em reestruturação de empresas. Discreta, sem escândalos, sem histórico pessoal divulgado. Ele passou os dedos pelo relatório novamente, ela havia construído algo sólido, sozinha. O maxilar dele ficou rígido, ela não precisava dele, a constatação deveria ser indiferente, mas não era. — Senhor Bianchi, os palestrantes já começaram a chegar — informou sua assistente. Ele assentiu. — Quero o cronograma completo na minha mesa. Quando a porta fechou, ele respirou fundo, não sabia o que esperava sentir ao vê-la. Raiva? Orgulho? Indiferença? Talvez tudo misturado. O que ele não esperava era inquietação. O hotel onde Helena ficou hospedada era elegante, mas ela não se impressionava mais com luxo, já aprendera que brilho externo muitas vezes escondia rachaduras profundas. Matteo corria pelo quarto enquanto ela organizava os documentos da palestra. — Posso ir na piscina depois? — Se você se comportar na conferência amanhã. Ele fez uma careta dramática. — Conferência é chato. Ela riu. — Você só precisa ficar comigo na recepção até a tia Clara chegar. Clara, a única pessoa que sabia toda a verdade, a única que guardou seu segredo e que agora morava naquela cidade novamente. Helena olhou para o relógio, o evento de abertura seria naquela noite, ela não pisaria no prédio principal ainda, era apenas um coquetel informal para networking. Mesmo assim, o nome Bianchi estava estampado em todos os convites. Matteo puxou sua blusa. — Mamãe? — Sim? — Você está nervosa. Ela congelou por um segundo, crianças percebem tudo. Ela então se ajoelhou, para ficar na altura dele. — Só estou concentrada. Ele tocou o rosto dela com as duas mãos pequenas. — Você sempre fala que a gente não precisa ter medo. O coração dela apertou. — E a gente não precisa, mas coragem não é ausência de medo, é decisão apesar dele. O salão do hotel estava cheio quando Helena entrou, segurando Matteo pela mão. Conversas sofisticadas, taças de cristal, roupas sob medida, o mesmo tipo de ambiente onde sua vida desmoronou anos atrás. Ela ergueu o queixo. Matteo olhava tudo com curiosidade. — Fique perto de mim, tá? Ele assentiu. Helena começou a cumprimentar algumas pessoas do mercado que conhecia apenas virtualmente. Apertos de mão, sorrisos calculados, comentários sobre estratégias financeiras. Ela estava segura e controlada, até sentir a presença de Lorenzo. Não foi som, não foi toque, foi sensação, como se o ar tivesse mudado de temperatura. Ela virou o rosto lentamente e o viu, Lorenzo Bianchi estava do outro lado do salão. Impecável como sempre, terno escuro, postura dominante, mas os olhos… estavam fixos nela. O mundo ao redor ficou distante, cinco anos comprimidos em um segundo. Ele não sorriu, não franziu o cenho, apenas a observava, como se estivesse analisando uma peça rara que julgava perdida. Helena apertou discretamente a mão de Matteo, Lorenzo começou a caminhar na direção dela. Cada passo dele era firme, seguro, como um predador que reconhece território. Matteo puxou sua mão. — Mamãe, quero água. Ela abaixou o olhar. — Vamos ali pegar. Mas antes que pudesse sair, a voz dele a alcançou. — Helena. O nome saiu grave e controlado, ela virou. — Senhor Bianchi. Formal e distante. Os olhos dele percorreram seu rosto, ela estava diferente, mais madura, mais fria, ainda mais bonita. O vestido vinho marcava sua silhueta com elegância. O cabelo preso revelava um pescoço delicado que ele conhecia bem demais. — Não esperava que aceitasse o convite — ele disse. — Eu trabalho com números, não com passado. A resposta foi precisa, ele quase sorriu. Quase. Então percebeu a pequena mão segurando a dela. Lorenzo baixou o olhar e o mundo inclinou levemente, o menino o observava com curiosidade. Cabelos escuros, traços delicados e olhos que eram um espelho dos dele. O coração dele deu uma batida errada. — Seu filho? — ele perguntou com a voz mais baixa. Helena manteve a respiração estável. — Sim. Matteo soltou a mão dela e ficou levemente à frente, sem medo. — Oi. A voz infantil atravessou algo dentro de Lorenzo, ele não sabia por quê, mas sentiu ima conexão inexplicável. — Olá — respondeu automaticamente. Os olhos do menino sustentaram os dele por alguns segundos longos demais. Aqueles olhos eram familiares demais. Helena percebeu e um alerta silencioso disparou dentro dela. — Matteo, vamos pegar água. Mas Lorenzo falou antes. — Ele tem quantos anos? A pergunta pareceu casual, mas não era. — Cinco — ela respondeu. " Cinco." O cálculo foi involuntário. Cinco anos, o evento, a noite, o desaparecimento, o noivado cancelado meses depois. A mente dele fez contas que o coração ainda não ousava fazer. Impossível, Helena jamais esconderia algo assim ou esconderia? Ele se agachou levemente, ficando na altura da criança. — Você gosta dessa cidade? Matteo deu de ombros. — É grande. Lorenzo soltou um pequeno riso involuntário. O mesmo jeito, o mesmo olhar observador. Algo dentro dele se apertou. Helena percebeu a mudança quase imperceptível na expressão dele e sentiu o perigo. — Matteo, agora. O menino segurou a mão dela novamente, mas antes de sair, olhou para Lorenzo e disse: — Você tem olhos parecidos com os meus. O tempo parou, Helena sentiu o sangue gelar. Lorenzo ficou imóvel. Ela não esperou, apenas saiu, sem correr, mas sem permitir mais um segundo. Lorenzo permaneceu parado no meio do salão enquanto o som das conversas voltava ao normal ao redor. "Olhos parecidos. Cinco anos. Desaparecimento imediato. Ela nunca respondeu suas tentativas de contato no primeiro mês. Ela bloqueou tudo." Ele sempre interpretou como orgulho, ou ódio, mas e se fosse proteção? O peito dele ficou pesado, pela primeira vez em anos algo escapava completamente do seu controle. Do outro lado do salão, Helena respirava com dificuldade perto do bar. Clara se aproximou. — Eu vi. Helena fechou os olhos. — Ele percebeu alguma coisa. — Você acha que ele vai investigar? Helena olhou para Matteo, distraído com um copo de suco, os olhos escuros brilhavam sob a luz do salão. Tão iguais. Tão perigosamente iguais. — Lorenzo não deixa perguntas sem resposta. Do outro lado do salão, Lorenzo ainda observava, não Helena, mas o menino. Algo dentro dele havia despertado, não era certeza, era instinto e instinto raramente o enganava. Ele chamou discretamente seu assistente. — Quero um relatório completo sobre Helena Duarte. — Já enviamos o profissional. — Não profissional, pessoal. A assistente hesitou. — O que exatamente devo procurar? Lorenzo manteve os olhos fixos na criança que ria ao longe e com a mandíbula travada e o coração inquieto, respondeu. — Tudo. Porque, pela primeira vez em cinco anos, Lorenzo Bianchi sentia que o destino estava prestes a cobrar uma dívida e ele não tinha certeza se estava preparado para pagar.






