Mundo ficciónIniciar sesiónHelena não dormiu naquela noite, mesmo depois de colocar Matteo na cama do hotel, mesmo depois de Clara insistir que tudo estava sob controle, mesmo depois de repetir para si mesma que cinco anos eram suficientes para apagar rastros.
"Não eram." Ela viu nos olhos de Lorenzo, ele sentiu, talvez não soubesse ainda, mas sentiu. E quando Lorenzo Bianchi sentia algo, ele investigava até o fim. Helena caminhava de um lado para o outro no quarto, enquanto a cidade brilhava pela janela. Matteo dormia profundamente, abraçado ao pequeno dinossauro de pelúcia que levava para todo lugar. Tão inocente, tão alheio ao furacão que poderia se formar. — Eu não vou deixar ninguém tirar você de mim — ela sussurrou. Mas o destino não pede permissão. Na manhã seguinte, o saguão do hotel estava movimentado com os participantes da conferência. Helena precisava chegar cedo para revisar sua apresentação. Clara se ofereceu para buscar Matteo mais tarde e levá-lo ao parque próximo. — Você precisa focar — Clara disse. — Ele vai ficar bem comigo. Helena se ajoelhou diante do filho. — Fica com a tia Clara, tá? Eu volto antes do jantar. — Promete? — Prometo. Ele beijou o rosto dela e Helena saiu, mas algo dentro dela ficou soando como alerta. Horas depois, Matteo segurava a mão de Clara enquanto atravessavam o lobby do prédio da conferência. Ele havia insistido em ver “onde a mamãe trabalha hoje”. Clara hesitou, mas o saguão era público e seguro, ou pelo menos parecia. — Só vamos passar rápido — ela avisou. Matteo observava tudo com olhos atentos, homens de terno, mulheres elegantes, telões exibindo gráficos. Ele gostava de observar adultos sérios. Sempre dizia que queria “entender o que eles estavam pensando”. E então viu. Lorenzo estava sozinho perto de uma mesa alta, analisando algo no tablet, com sua postura imponente, os pensamentos distantes, mas menos frio do que na noite anterior. Matteo parou e Clara percebeu tarde demais. — Matteo… Mas ele já havia soltado a mão dela, as crianças não carregam medo social, apenas curiosidade. Ele caminhou até Lorenzo com passos pequenos e firmes, parou na frente dele e esperou. Lorenzo sentiu a presença antes de ouvir a voz. — Oi de novo. Ele levantou os olhos e encontrou o mesmo olhar da noite anterior. De perto, era ainda mais desconcertante. O menino parecia… familiar demais. — Olá — respondeu, abaixando o tablet. — Você trabalha aqui? — Trabalho. — É o chefe? A pergunta fez Lorenzo quase sorrir. — De certa forma. Matteo assentiu como se tivesse confirmado uma teoria importante. — Minha mãe também é chefe. O coração de Lorenzo apertou de leve. — É mesmo? — Ela manda em muita gente. Mas é boazinha. Algo na maneira como ele dizia “minha mãe” carregava orgulho e proteção. Lorenzo sentiu um estranho calor no peito. — E você? — ele perguntou. — Quer ser chefe também? Matteo pensou por alguns segundos. — Quero ser importante. A resposta o pegou desprevenido. — Importante como? — Importante pra alguém. O ar ficou diferente, Lorenzo não soube por que aquilo o atingiu, talvez porque, apesar de todo o império que construiu, aquela palavra nunca teve significado claro para ele. "Importante." Ele se agachou novamente, ficando na altura do menino. — Você já é importante. Matteo inclinou a cabeça. — Você nem me conhece. Lorenzo sustentou o olhar. — Às vezes não precisa conhecer muito para saber. Clara finalmente chegou perto, nervosa. — Desculpa, ele é curioso demais. Lorenzo se levantou lentamente. — Não precisa se desculpar. Os olhos dele voltaram para o menino, algo estava acontecendo ali, algo irracional e instintivo. Ele estendeu a mão. — Qual é o seu nome? Clara hesitou, mas Matteo respondeu antes. — Matteo. O nome caiu entre eles como uma pedra em água parada, Lorenzo sentiu o impacto. "Matteo." Italiano, clássico, familiar. Ele repetiu mentalmente. "Cinco anos. Helena desapareceu grávida? Não." Ele nunca viu sinal algum, nunca suspeitou ou nunca quis suspeitar? — Você tem sobrenome? — Lorenzo perguntou com cuidado. Clara quase interferiu, mas Matteo respondeu com naturalidade: — Duarte, igual da mamãe. Duarte, não Bianchi, o alívio veio rápido demais. Claro, Helena não faria isso, ela não esconderia um filho, ela o odiava, mas não seria cruel. Ainda assim… Os olhos, o jeito, o nome. — Senhor Bianchi? — chamou uma voz atrás. Ele se levantou, mas não tirou os olhos do menino. — Eu preciso ir. Matteo assentiu, mas antes que Lorenzo desse dois passos, o menino falou: — Você vai estar aqui amanhã? Ele parou. — Vou. — Então eu volto. Lorenzo não soube porque respondeu: — Eu espero. Clara segurou a mão de Matteo e se afastou rapidamente, o coração dela estava acelerado, aquilo estava ficando perigoso demais. Do outro lado do prédio, Helena finalizava sua palestra sob aplausos, segura, brilhante e impecável. Ela desceu do palco com postura firme, mas ao ligar o celular e ver várias mensagens de Clara, o mundo voltou a oscilar. “Ele falou com Matteo.” “Eles conversaram.” “Foi… estranho.” O sangue dela gelou, ela saiu rapidamente para o corredor e ligou rapidamente para Clara. — O que aconteceu? Clara contou tudo, cada palavra, cada pergunta, cada resposta. Quando desligou, Helena ficou encostada na parede por alguns segundos. "Ele sentiu." Ela tinha certeza agora, não era lógica, era instinto, o mesmo que a fez fugir cinco anos atrás. O mesmo que agora dizia: "Você não controla mais essa situação." Naquela noite, Lorenzo estava sozinho no escritório, mas não conseguia trabalhar, o nome MATTEO ecoava, os olhos, a frase “Importante pra alguém.” Ele abriu o arquivo pessoal de Helena novamente, nada indicava casamento, nenhum registro público de relacionamento, nenhuma foto com homem algum. Apenas ela e o menino. Ele ampliou uma foto casual que encontrou em uma rede social profissional. Helena segurando Matteo no colo em um evento menor, o ângulo não ajudava, mas os olhos… Ele fechou o notebook de repente, irritado consigo mesmo, isso era absurdo, ele não podia criar fantasmas por causa de coincidências, mas coincidências não costumavam bater à porta dele com tanta força. Pela primeira vez em anos, Lorenzo sentiu algo que não era controle, era dúvida e dúvida o incomodava profundamente. Do outro lado da cidade, Matteo já dormia novamente, mas antes de fechar os olhos, perguntou: — Mamãe? Helena sentou ao lado dele. — Sim? — O moço do prédio é legal. O coração dela apertou. — Ele é só um homem que trabalha muito. Matteo pensou por um instante. — Ele parece… sozinho. Helena não respondeu, porque pela primeira vez desde que voltou, algo inesperado estava acontecendo. Não era apenas Lorenzo se aproximando da verdade, era Matteo se aproximando do pai sem saber e talvez, no fundo, Lorenzo também estivesse se aproximando do filho sem saber. Mas destino não precisa de apresentação formal, ele apenas conecta e, quando conecta, dificilmente permite fuga.






