No dia seguinte, Solange voltou a travar durante a atuação.
Desta vez, era uma cena de término de relacionamento. Ela chorava de maneira comovente. Os olhos estavam vermelhos, assim como a ponta do nariz.
Mas o diretor gritou "corta" sete vezes seguidas:
— Você não está sofrendo porque não quer abrir mão desse namoro. Você sabe que ele não ama você, mas ainda assim não tem coragem de ir embora.
Solange jogou o roteiro de lado:
— Eu nunca vivi um namoro assim. Como eu vou interpretar isso?
Ninguém no set disse nada.
Com os olhos vermelhos, ela olhou para Durval:
— Durval, eu sou burra demais?
Durval estava sentado atrás do monitor, com um cigarro apagado entre os dedos:
— Chamem Viviane.
Naquele momento, eu estava no estúdio ao lado, gravando uma propaganda de xampu. Meu cabelo estava coberto de espuma.
Quando o assistente de Durval veio me procurar, eu ainda estava com a cabeça cheia de espuma branca.
— Durval mandou você ir agora.
O diretor da propaganda ficou nervoso:
— Nós ainda não terminamos aqui.
O assistente pareceu constrangido:
— Durval disse que só vai esperar dez minutos.
Eu enxaguei a espuma às pressas e fui até lá com o cabelo molhado.
Quando Durval me viu, sua testa se franziu na mesma hora. Ele tirou o casaco e o colocou diretamente sobre a minha cabeça:
— Você não podia ter secado o cabelo antes de vir?
— Você só ia esperar dez minutos.
Ele ficou sem resposta por um instante. Depois, esfregou meu cabelo com um pouco mais de força:
— Eu mandei você vir rápido, não mandei você ficar doente.
Solange, sentada no centro do set, apressou-se a falar em voz baixa:
— Durval, todo mundo está esperando.
Durval jogou o casaco para o assistente:
— Leve ela para trocar de roupa.
Eu fiquei parada:
— O quê?
— Você vai interpretar no lugar dela, só uma vez.
A figurinista trouxe o figurino de Solange.
O vestido era apertado demais na cintura. Precisei prender a respiração para conseguir vesti-lo.
No set, deixaram apenas uma luz acesa.
Durval ficou fora do enquadramento, contracenando comigo.
Eu já havia decorado aquelas falas muitas vezes. No começo, elas eram minhas.
Quando ele disse que queria terminar, eu olhei nos olhos dele e, de repente, esqueci que aquilo era atuação:
— Se você realmente gosta dela, eu não vou mais esperar.
Durval não disse a fala seguinte.
O set ficou estranhamente silencioso.
Ele estava sentado na sombra, e eu não conseguia ver sua expressão.
O diretor lembrou em voz baixa:
— Durval, agora é a sua fala.
Só então Durval baixou os olhos:
— Vamos repetir.
Na segunda vez, ele também não conseguiu continuar.
Antes da terceira tentativa, Durval entrou no enquadramento e segurou minha nuca com força.
A ponta dos dedos dele pressionou a pele atrás do meu pescoço:
— Não olhe para mim desse jeito.
Eu não entendi.
— O diretor disse que eu preciso mostrar que não quero ir embora.
— Você chama isso de não querer ir embora? — Ele estava tão perto que só eu podia ouvir sua voz. — Viviane, você está se despedindo de mim.
Meu coração deu um salto.
Por instinto, desviei dos olhos dele:
— Eu não sei interpretar.
— É melhor que você realmente não saiba.
Durval me soltou e voltou para trás do monitor.
A quarta tentativa saiu sem problemas.
Assim que o diretor aprovou, Solange entrou imediatamente:
— Eu entendi.
Ela refez a cena seguindo minhas pausas e meus gestos.
Desta vez, o diretor finalmente assentiu:
— É essa a sensação.
Solange parou de chorar e sorriu.
A equipe também começou a aplaudir.
Eu fiquei do lado de fora do enquadramento, ainda vestida como a protagonista.
Mesmo assim, eu me sentia como uma dublê que havia entrado ali por engano.
Depois que as gravações terminaram, o diretor enviou a prévia dos bastidores no grupo da equipe.
No vídeo, só aparecia a interpretação final de Solange.
A legenda dizia:
[Nova atriz talentosa. Entra na cena em um segundo.]
Dalila me mandou três pontos de interrogação.
[Não foi você que ensinou essa cena para ela?]
Eu digitei uma frase e apaguei em seguida.
Durval não gostava que eu disputasse esse tipo de coisa.
Ele dizia que, quando um ator era realmente bom, não precisava ficar se gabando do próprio talento o tempo todo.
Eu respondi:
[Ela interpretou muito bem.]
De repente, o celular foi tirado da minha mão.
Durval leu a conversa, de cabeça baixa, com o rosto frio:
— Você quer crédito?
— Não.
— Solange está começando agora. Ela precisa desse tipo de divulgação.
Ele entrou no trailer e me puxou para sentar em seu colo.
Com medo de que alguém do lado de fora visse, eu tentei me afastar.
Durval apertou minha cintura na mesma hora:
— Não se mexa.
Ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço e respirou fundo.
Nos últimos dias, ele tinha dormido muito pouco. Havia olheiras sob seus olhos, e sua voz estava rouca.
Eu peguei uma pastilha para a garganta sobre a mesa, abri a embalagem e a levei até a boca dele.
Durval colocou a pastilha na boca e mordeu de leve a ponta do meu dedo:
— Se você está chateada, diga.
— Eu não estou chateada.
— Então por que você não olhou para mim hoje?
Eu respondi baixinho:
— Eu tive medo de olhar errado.
Durval ergueu a cabeça:
— O que isso quer dizer?
— Você disse que o jeito como eu olhava para você parecia uma despedida.
Ele me encarou por muito tempo.
De repente, me abraçou com mais força.
— Pare de imaginar coisas. Quando Solange terminar este filme, eu vou arrumar um roteiro melhor para você.
Ele sempre dizia "depois".
Antes, eu gostava muito de ouvir isso.
Porque sempre parecia haver muito tempo pela frente. Tempo o bastante para deixar tudo para depois.
O celular vibrou de novo.
Dalila enviou uma mensagem.
[A empresa aceitou a rescisão. Você assina amanhã.]
Eu não respondi de imediato.
Durval ainda me abraçava.
O coração dele batia contra meu ouvido, separado de mim apenas pela camisa.
Eu pensei:
"Eu vou esperar mais um dia. Se ele realmente ainda se lembrar de me dar um papel melhor, talvez eu não vá embora."