Capítulo 5

Eu nunca estive tão ansiosa com a volta para casa. Nunca senti meus sentimentos tão a flor da pele como estava naquele dia. Mas uma coisa estava certa; eu precisava ardentemente de um abraço e eu não sabia a falta que isso me fazia, especialmente naquele dia.

Tive um dia cheio no trabalho e tudo que eu queria era correr para os braços do meu marido porque eu já não tinha tanta vontade assim para lutar e fingir que estava tudo bem.

Abandonei os meus sapatos no início da escada e sai correndo entre os degraus. Encontrei Anderson na beira da cama e ele se levantou quando me viu. Corri e o abracei. Senti minhas energias sendo carregadas de pouquinho a pouquinho enquanto ele passava a mão lentamente pelas minhas costas.

— O que foi, gatinha? – ele sussurrou sobre os meus cabelos. – Aliás, feliz dois anos.

Eu sorri sobre os seus ombros e me afastei.

— Feliz dois anos. – Eu respondi de volta e beijei de leve os seus lábios. – Eu tive um dia tão cheio, só precisava encontrar você.

Anderson sorriu para mim e colocou um cacho que caía nos meus olhos atrás da orelha.

— E o que houve em seu trabalho? – ele quis saber.

Eu soltei a respiração e comecei a abrir os botões da minha blusa.

— Lembra do novo projeto que venho planejando nos últimos dois anos e que pode mudar totalmente o futuro da Caccini’s Style? Bom, aparentemente não vai acontecer. – dei de ombros.

Anderson apenas ficou calado e enfiou as mãos no bolso da calça e foi quando prestei atenção atentamente nele. Ele estava vestido formalmente, uma calça escura, com um terno azul marinho. Os cabelos negros penteados para trás e a barba cheia enfeitando o seu rosto.

— Você está me parecendo a própria personificação de tentação. – Eu sussurrei baixinho e me aproximei lentamente dele.

— Fico agradecido por esse elogio, mas você só tem trinta minutos. – Ele sussurrou sobre os meus lábios.

— Dá pra fazer três vezes então. – Sorri e Anderson gargalhou.

— Temos uma reserva no seu restaurante italiano preferido em trinta minutos. Mais tarde da noite iremos para o motel mais caro da cidade. E se tudo der certo, você pode liberar o que negociamos há alguns dias. – Ele me lançou o seu sorriso mais sacana.

— Só se eu quiser. – Pisquei os olhos e me afastei.

Estava seguindo até o banheiro quando Anderson me chamou, antes de atravessar as portas do quarto.

— Aliás, recebi o seu book com aquelas fotos irresistíveis. Estou até com calo na mão esquerda. – Eu gargalhei enquanto ele ia embora e eu segui até o banheiro.

É, talvez os fins justificassem os meios. Eu comecei aquele dia estressada o suficiente para só querer passar o resto da noite deitada na minha cama, mas aquela noite havia começado a fazer todas as últimas horas serem insignificantes.

Eu estava de baixo do chuveiro e eu sentia a água quente queimar cada pedaço da minha pele e isso me fazia sentir viva. Em seguida, coloquei a água mais fria possível. Eu adorava aquele contraste de temperatura, era como levar um choque e eu tinha a necessidade de sentir sensações que podiam me queimar na mesma intensidade que me deixariam fria.

Saí daquele banheiro com a toalha envolta ao meu corpo e segui para o meu closet. Encarei as infinidades de roupas na minha frente em seus cabides, a maioria ainda com etiquetas e eu não sabia qual usar. Corri as mãos sobre os vestidos de todos modelos e cor tentando escolher, mas os últimos cabides chamaram minha atenção.

Decidi pegar o vestido que usei em nosso primeiro encontro. O vestido branco, um pouco acima dos joelhos, onde continha uma fenda na perna esquerda e era justo o suficiente para marcar todas as curvas que deviam ser apreciadas. O vestido não possuía decote, mas o design do busto dava um ar de sensualidade juntamente com as alças fininhas que o prendiam em meu corpo.

Enquanto me vestia e cravava outra luta sobre qual sapato iria usar, ouvi um celular tocando de dentro do meu quarto. Terminei de me vestir e encontrei o celular de Anderson em cima da cama. A ligação já havia sido encerrada e só restava uma mensagem de texto. Atravessei o quarto e abri a mensagem; era do número do seu escritório.

Sei que eu não deveria fuçar o seu celular assim, por respeito a sua privacidade. Mas não era como se ele tivesse algo a esconder e nós tivéssemos segredo entre nós. Principalmente na área de trabalho. Comecei a ler a mensagem:

Escritório Anderson Baker:

Adorei todo o trabalho que realizamos hoje. Apesar de eu ter as minhas partes preferidas. Xoxo, Iz.

Encarei aquela mensagem repetidas vezes tentando encontrar alguma explicação ou palavrachave que indicasse que aquilo era assunto de trabalho. Mas eu não encontrei nada e eu não era idiota a esse ponto. Então fiz o que minha inteligência e estratégia pediu; respondi aquela mensagem.

Negoc. Anderson Baker:

Estou curioso, quais partes foram as suas preferidas?

Esperei aquela mensagem chegar enquanto soltava o meu cabelo e deixava a tranquilidade voltar a correr em minhas veias. Não precisava de pressa, nem de surtos inúteis. Ao decorrer dos anos eu percebi que abstrair e fingir demência era o segredo.

A mensagem chegou.

Escritório Anderson Baker:

A parte que você prendeu minhas mãos com sua gravata e lambeu o meu corpo todo.

Xo, Iz.

Senti o meu coração bater acelerado e deixei o celular escorregar da minha mão. O aparelho bateu na gaveta aberta do criado-mudo e em seguida a tela trincou quando encontrou o chão. Exatamente como eu podia sentir a droga do meu coração fazer.

E eu simplesmente não sabia o que pensar. Como reagir. Ou o que sentir. Eu estava em choque e tentava encontrar alguma explicação lógica porque nem em meus piores pesadelos aquilo poderia acontecer. Pensei se alguma vez eu fui cega e não notei os sinais. Pensei que o problema deveria ser eu. E droga, eu odiava o rumo que os meus pensamentos seguiam.

Deixei aquele celular jogado no chão e fui para frente da minha penteadeira. Sentei-me naquela cadeira e encarei o meu reflexo. Alinhei os meus cachos com os meus dedos e lembrava a mim mesma que estava tudo bem. Que eu podia acumular a raiva e que eu podia evitar o ódio por pelo menos cinco minutos.

Eu não chorava há o quê... Três anos? Não seria por isso que eu iria chorar ou me desesperar. Eu só precisava ser paciente e aceitar o tipo de decepção amorosa que o tempo nunca poderia concertar. Estava tudo bem, eu só estava me sentindo quebrada em mil pedaços.

Ouvi barulhos de passos se aproximando do quarto e o meu coração bateu acelerado. E eu só agi naturalmente. Quando Anderson pisou novamente no quarto, eu estava passando um batom vermelho em meus lábios, tranquila e pacificamente.

— Está pronta? – sua voz soava desconhecida para mim agora.

— Só preciso de alguns minutos. – Respondi e abri a minha gaveta de joias. – Como foi o seu dia no trabalho? Muito corrido?

Só ouvi o som pesado de sua respiração porque eu era incapaz de olhar para ele naquele momento.

— Foi um dia cheio. O único momento livre que tive dediquei todo as suas fotos.

Sorri para o meu próprio reflexo enquanto tirava minha aliança de casamento do dedo e joguei naquela gaveta.

— Me sinto tão lisonjeada. – Eu respondi me virando naquela cadeira para o encarar. – Mas não tanto quanto a Iz.

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