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Segundo Fragmento." Encontro Inevitável ".

Quando a memória sangra em público

Valentina aproximou-se com uma taça de espumante na mão, disfarçando o próprio nervosismo com eficiência.

— Está lotado. Ela disse, satisfeita e alerta ao mesmo tempo. Todo mundo importante veio.

Clara assentiu, mas não sorriu de verdade. O peito estava apertado desde o café. Desde o perfume. Desde o olhar rápido, como faca, que ela não se permitiu sustentar. Ela tinha passado o dia inteiro repetindo para si mesma que aquilo não significava nada. Que Miguel estar na mesma cidade era coincidência. Que ela não voltaria a ser a adolescente que acreditava em promessas.

Valentina inclinou-se um pouco, lendo a tensão no corpo da irmã.

— Você vai ficar bem. Ela disse baixo, como quem protege. É só uma exposição.

Clara respirou fundo.

— Para eles, sim. Para mim, não.

Luna puxou de leve a mão da mãe, apontando para uma foto com flores.

— Mamãe, olha essa. Parece o nosso caminho.

Clara se abaixou, beijou o topo da cabeça da filha e forçou um sorriso.

— Parece mesmo, minha pequena.

Ela tentou se convencer de que conseguiria atravessar aquela noite sem se quebrar. Só precisava manter o controle. Só precisava passar pelas pessoas, agradecer elogios, sorrir para fotos. Só precisava lembrar que era uma mulher adulta, mãe, dona de si.

Então a porta principal se abriu.

Clara não viu primeiro. Ela sentiu.

A mudança no ar, como se a sala tivesse puxado um fôlego coletivo. Um leve aumento no zumbido das conversas. Um perfume doce, caro, entrando como declaração de guerra.

Miguel Alencar apareceu ao lado de Cecília Monteiro.

Cecília vestia um vermelho tão intenso que parecia feito para ofender o resto do ambiente. O vestido colado realçava o corpo com precisão cirúrgica. Os brincos brilhavam como pequenos holofotes. E ela segurava o braço de Miguel de maneira possessiva, como se quisesse deixar claro para todos, inclusive para ele, que aquele homem tinha dono.

Miguel estava impecável, como sempre. Terno escuro, postura firme, olhar controlado. Só que havia algo diferente. Uma rigidez no maxilar. Um cansaço escondido no modo como ele varreu a sala, como se procurasse algo sem saber o quê.

Clara sentiu o estômago afundar.

Ver Miguel já era difícil. Ver Miguel acompanhado daquela maneira foi uma violência que ela não tinha previsto. O gesto íntimo, o riso de Cecília, a forma como ela se encostava nele, como se fosse natural. Clara não sabia nada sobre aquela mulher e, ainda assim, sentiu um ciúme antigo, infantil e desesperado, subir como uma onda. Não por achar que Miguel lhe pertencia. Mas por lembrar demais do que um dia foi.

Ela desviou o olhar rápido demais, como se tivesse sido pega em flagrante. O corpo inteiro ficou quente e frio ao mesmo tempo. A mão apertou a de Luna com força, e a menina reclamou baixinho.

— Mamãe, tá doendo.

Clara soltou um pouco, respirando.

— Desculpa, amor. Foi sem querer.

Valentina notou o impacto. A irmã conhecia Clara o suficiente para perceber que aquilo não era apenas desconforto. Era desmoronamento silencioso.

— Ele veio. Valentina murmurou, sem precisar perguntar.

Clara não respondeu. Só assentiu, encarando o chão por um segundo longo demais.

Miguel, do outro lado, atravessou os primeiros metros da galeria como quem cumpre um dever. Cecília parava a cada passo para cumprimentar alguém, fazer o sorriso certo, tocar o braço certo, garantir que o nome Monteiro continuasse brilhando ao lado do nome Alencar.

— Amor, olha quanta gente importante. Cecília disse, encantada consigo mesma. Essa exposição vai bombar.

Miguel respondeu com um som neutro, sem entusiasmo real. O olhar dele escapava. A mente dele escapava. Havia algo ali dentro, um incômodo que não se resolvia com champanhe nem com elogios.

Ele viu Clara.

Não viu como quem reconhece. Viu como quem é atingido.

Aquele rosto.

Aquele jeito de segurar a criança.

Aquela postura de quem está tentando não quebrar.

Miguel parou por uma fração de segundo, e Cecília percebeu. Percebeu porque ela estava vigiando desde o café. Percebeu porque o instinto dela era o de uma mulher que fareja ameaça antes de enxergar forma.

— O que foi? Ela perguntou, apertando mais o braço dele, sorriso ainda no rosto.

Miguel engoliu seco.

— Nada. Ele disse, mas o nada não convenceu nem a ele.

Cecília seguiu a direção do olhar e viu Clara. A mulher não estava chamando atenção. Ela não fazia escândalo. Ela não sorria demais. Ela simplesmente existia com uma calma que parecia esconder uma história inteira. Cecília sentiu o próprio sangue esquentar.

— Você está olhando de novo. Cecília sussurrou, doce demais, perto do ouvido dele.

Miguel se obrigou a piscar, a respirar.

— É só alguém que eu vi no café. Ele respondeu, controlado.

Cecília sorriu.

— Alguém que você desmaiaria por causa dela? Porque eu ainda não esqueci o jeito que você ficou.

Miguel não respondeu. O silêncio dele irritou Cecília como insulto. Ela puxou-o para mais perto, como se quisesse colá-lo ao próprio corpo e apagar qualquer possibilidade de passado.

— Vamos. Ela disse. Eu quero ver as fotos mais comentadas.

Miguel deixou-se conduzir, mas a atenção dele não estava nela. Não estava no vestido vermelho. Não estava nos elogios ao redor. Estava no impulso absurdo de ir até Clara e perguntar por que o coração dele batia como se a conhecesse.

Ele não foi até Clara. Ainda.

Mas os pés dele começaram a traçar um caminho próprio, por entre as paredes, como se o corpo soubesse o que a cabeça não alcançava.

E então ele parou diante de uma fotografia.

Preto e branco. Melancólica. Precisa. Uma escola antiga ao fundo, com um jardim pequeno e um portão simples. No centro, um banco de madeira. Sobre ele, duas silhuetas, um menino e uma menina sentados lado a lado. Não era uma foto espetacular pelo luxo. Era espetacular pelo que fazia sentir.

Miguel sentiu o peito apertar.

Não era emoção comum. Era memória tentando nascer.

A garganta dele secou. O som da galeria ficou distante. O foco de luz sobre a foto pareceu mais forte, quase agressivo. Ele enxergou o banco e teve a sensação física de que já tinha tocado aquela madeira, já tinha sentado ali, já tinha vivido algo naquele lugar. A cabeça latejou. Uma pontada rápida e depois outra, mais forte, como martelo por dentro.

Ele tentou recuar, mas as pernas falharam por um segundo.

A imagem da escola virou flash.

Um pátio. Gritos. Um empurrão. Um corpo no chão. Uma menina com olhos desafiadores e voz embargada. Uma mão pequena segurando a dele.

Miguel levou a palma à parede para se firmar. O suor começou a escorrer pela nuca, frio.

— Não… Ele murmurou, e a palavra saiu sem força, como se não fosse escolha.

Cecília apareceu ao lado dele, irritada por ter sido deixada para trás.

— Miguel, o que você está fazendo parado aqui?

Ele não respondeu. Ele não conseguiu.

A visão embaçou. A sala girou. O coração disparou com violência. A imagem do banco cresceu dentro dele, e junto dela veio algo pior que dor.

Veio uma promessa.

A certeza de que ele jurou algo para alguém, e o mundo o arrancou no meio.

Miguel caiu de joelhos, e o som do impacto no chão fez algumas pessoas virarem o rosto. Cecília soltou um grito curto, fino, alarmado e teatral.

— Miguel!

Clara ouviu o nome.

O corpo dela congelou no instante em que o som atravessou a galeria. Ela virou o rosto, e o que viu fez a respiração falhar.

Miguel no chão.

As pessoas em volta.

Cecília tentando segurá-lo, desesperada mais pela cena do que por ele.

Clara deu um passo instintivo à frente, mas parou. As pernas não obedeceram. A mão dela apertou a de Luna de novo, e dessa vez Luna apertou de volta, como se entendesse que a mãe precisava ser segurada.

— Mamãe? O que aconteceu? A menina perguntou baixo.

Clara engoliu o choro.

— Nada, meu amor. Fica comigo.

Miguel desmaiou.

O mundo ficou preto.

E, no preto, o sonho veio inteiro.

Ele estava à beira da adolescência, mais jovem, com as mãos segurando as mãos dela.

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