Mundo de ficçãoIniciar sessãoPromessas que não voltaram
O dia ainda não tinha nascido quando Clara Moretti abriu os olhos. A casa estava silenciosa, envolta pela respiração lenta das montanhas. Do lado de fora, o céu ainda guardava tons escuros, e o frio suave da madrugada entrava pelas frestas da janela. Clara permaneceu alguns segundos imóvel, observando o teto simples do quarto, como se precisasse se lembrar onde estava antes de se levantar. O primeiro pensamento foi o mesmo de todas as manhãs. Luna. Ela se virou de lado e encontrou a filha encolhida sob o cobertor, os cabelos espalhados sobre o travesseiro. Dormia profundamente, com a expressão tranquila de quem ainda não aprendeu a desconfiar do mundo. Clara estendeu a mão e tocou de leve a testa da menina, num gesto quase ritual. — Eu te amo, minha pequena. Ela sussurrou, sentindo o peito apertar com a mistura de gratidão e culpa que sempre a acompanhava. Levantou-se sem fazer barulho. A casa era simples, construída de madeira clara e pedra, com janelas largas voltadas para o vale. Não havia luxo ali. Havia silêncio, árvores, vento e a sensação constante de estar longe de tudo o que um dia a feriu. Na cozinha, preparou café sem acender todas as luzes. O cheiro quente se espalhou pelo ambiente, misturando-se ao aroma de terra úmida que vinha de fora. Pegou um suéter grosso e saiu pela porta da frente, com a xícara nas mãos. O caminho até a clareira era conhecido. Uma trilha curta entre árvores altas, folhas secas sob os pés, o som distante da água da cachoeira marcando o ritmo da caminhada. Era ali que Clara pensava melhor. Era ali que o passado aparecia sem pedir licença. Sentou-se na pedra grande que usava como banco, de frente para o horizonte ainda pálido. O céu começava a clarear em tons de rosa e laranja. A beleza do lugar nunca diminuía a dor que vinha junto com a lembrança. Fechou os olhos. O passado não vinha como imagem isolada. Vinha como sensação. O calor do sol na pele. O cheiro de grama. O peso de um braço ao redor de sua cintura. Miguel. Ela não dizia o nome em voz alta havia anos. Mesmo assim, ele existia em cada detalhe que tentava esquecer. A memória se abriu inteira, como se tivesse sido guardada para aquele momento. O piquenique no campo, o lençol estendido na grama, os dedos dele brincando com seus cabelos enquanto ela se deitava sobre o peito dele. O coração dele batendo forte contra sua orelha, como se quisesse ser ouvido. — Eu te amo, Clara. Ele disse, naquela tarde, com uma certeza que parecia maior do que os dois. Ela tinha erguido o rosto devagar, sentindo o mundo se resumir aos olhos dele. — Eu também te amo. Respondeu, acreditando que aquilo era suficiente para segurar o tempo. Ele a apertou mais forte, como se quisesse gravar aquele instante dentro do corpo. — Não importa onde você esteja. Ele disse, sério, quase solene. Eu sempre vou te encontrar. A frase tinha peso de promessa. Não era brincadeira. Não era impulso. Era juramento. Naquela noite, o amor deles deixou de ser apenas palavra. Tornou-se carne, medo, entrega e consequência. Tornou-se Luna. Clara abriu os olhos, sentindo a garganta arder. As lágrimas não caíam com pressa. Escorriam devagar, como quem já aprendeu a chorar sem fazer barulho. — Você não voltou. Ela murmurou, olhando o sol surgir atrás das montanhas. Você prometeu. O vento respondeu no lugar dele. Ela ficou ali até a xícara esfriar nas mãos. Quando voltou para casa, Luna já estava sentada na cama, esfregando os olhos. — Mamãe, eu sonhei que a gente tinha um castelo. A menina disse, animada, segurando o urso de pelúcia. Clara sorriu, ajoelhando-se diante dela. — Um castelo nas montanhas? — Sim. E tinha uma ponte e um lago. E você era rainha. Clara beijou o rosto da filha. — Então vamos nos arrumar para mais um dia no nosso reino. Enquanto ajudava Luna a se vestir, o telefone tocou na sala. O número era conhecido. Valentina. Clara respirou fundo antes de atender. — Bom dia. — Você sumiu. A irmã disse, sem rodeios. Faz semanas que eu não tenho notícias suas. — Eu não sumi. Eu só estou aqui. — Aí não é lugar para você se esconder para sempre. Clara fechou os olhos por um instante. — Não estou me escondendo. Estou vivendo. — Vivendo longe de tudo o que é seu. Valentina respondeu. A galeria vai abrir a nova exposição mês que vem. Eu preciso de você aqui. Clara caminhou até a janela, olhando o vale. — Eu não posso. — Você pode. Só não quer. A voz da irmã suavizou. Papai anda perguntando por você. O nome do pai ainda tinha peso. — Ele sempre pergunta quando quer algo. — Ele quer te ver. Clara ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu não vou voltar para aquele mundo. — Você não precisa ficar. Só aparecer. — Não é assim que funciona. Clara respondeu, mais dura. Eu não quero que minha filha cresça cercada por gente que vê tudo como negócio. — E você acha que aí ela não vai crescer com medo do mundo? Clara não respondeu. Valentina suspirou do outro lado da linha. — Só pensa. A exposição é sua. Não é do nosso pai. É sua história. Clara desligou sem prometer nada. Sentou-se à mesa da cozinha, observando Luna comer cereal como se nada estivesse em jogo. Aquela criança era a prova viva de uma promessa quebrada. E, mesmo assim, Clara nunca se permitiu odiar Miguel. Ela odiava o silêncio. Naquele mesmo momento, a quilômetros dali, Miguel acordava com a mesma sensação de vazio. O quarto do hotel ainda estava escuro. Ele levou a mão ao rosto, tentando lembrar do sonho que se desfazia rápido demais. Era sempre assim. Um campo. Um abraço. Uma promessa. E depois, nada. Ele se sentou na cama, sentindo o coração apertado sem motivo lógico. O nome dela não vinha. O rosto não vinha. Só vinha a certeza de que havia amado alguém mais do que tudo. Tomou banho sem pensar. Vestiu-se como quem se protege com tecido e rotina. No elevador, encarou o próprio reflexo. O homem que via ali parecia inteiro. Por dentro, era um quebra-cabeça sem imagem final. No escritório, os compromissos se acumulavam. Reuniões, contratos, números. O mundo confiava nele. Ele não confiava na própria cabeça. Durante a manhã, um cheiro atravessou o corredor. Café recém-passado. O mesmo aroma que surgia em seus sonhos. Miguel parou de andar. O peito apertou. Ele fechou os olhos por um instante, tentando capturar o que aquela sensação queria dizer. Não conseguiu. Mas soube, com clareza desconfortável, que aquela mulher sem rosto não estava no passado. Ela estava no caminho. E, enquanto Clara olhava para as montanhas e Miguel para janelas de vidro, os dois sentiam a mesma coisa. Uma promessa viva demais para ser esquecida.






