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ENCONTROS SILENCIOSOS

O perfume que acorda o que foi enterrado

Cecília Monteiro odiava duas coisas com a mesma intensidade: perder o controle e ser ignorada. E, desde a noite na galeria, Miguel Alencar tinha feito as duas coisas com ela sem dizer uma palavra.

Ela lembrava perfeitamente do olhar dele. Não tinha sido um olhar educado, nem um olhar curioso. Tinha sido um olhar longo, fixo, perigoso, como se a presença daquela mulher tivesse rasgado algo dentro dele que nem o próprio Miguel sabia que existia. Cecília não suportava a ideia de existir uma fresta na atenção do noivo que não fosse dela, ainda mais uma fresta causada por uma desconhecida com uma criança ao lado.

Sentada no próprio apartamento, com a luz da manhã entrando pelas janelas altas, Cecília observava o homem à sua frente com frieza calculada. O detetive particular parecia simples demais para lidar com gente como ela, mas isso não importava. O que importava era a eficiência.

— Eu quero tudo. Ela disse, com a voz doce demais para esconder a lâmina. Nome completo, endereço, rotina, ligações, passado. Quero saber quem ela é e por que Miguel olhou daquele jeito.

O homem abriu um bloco de notas.

— A senhora tem alguma informação inicial?

Cecília sorriu, impaciente.

— Mulher, morena, bonita, com uma criança de uns seis anos. Estava na galeria da Valentina Moretti. Se ela estava ali, é porque tem ligação. Arte, dinheiro ou os dois.

O detetive assentiu.

— Em quanto tempo a senhora quer uma resposta?

— Ontem. Cecília respondeu, e o humor não chegou nos olhos.

O homem disfarçou o desconforto e se levantou.

— Vou precisar de quarenta e oito horas para algo sólido.

Cecília inclinou a cabeça, avaliando-o como avaliava móveis caros, carros, vestidos.

— Você tem vinte e quatro. E não me traga fofoca de internet. Eu quero fatos.

Quando a porta se fechou, Cecília ficou alguns segundos parada no meio da sala, com as mãos apoiadas na cintura. O peito subia e descia devagar. Ela não admitiria em voz alta, mas havia uma sensação desconfortável crescendo. Medo. Não medo de perder Miguel, porque homens como ele não eram perdidos assim, de repente. Medo do motivo que poderia fazê-lo se afastar dela sem aviso.

O celular vibrou na mesa.

Um convite eletrônico, sofisticado, com letras douradas e assinatura de uma galeria internacional. Cecília abriu com interesse imediato. Exposição de fotografia contemporânea. Evento da elite. Entrada restrita. Coquetel exclusivo. Tudo o que ela gostava.

Ela leu o nome do artista sem dar importância, como se fosse mais um detalhe de decoração.

Clara Moretti.

O sobrenome chamou atenção por um segundo, mas Cecília não conectou o nome ao rosto. Não naquele instante. Apenas sorriu com a satisfação de quem encontrou um evento perfeito para reforçar sua imagem de noiva impecável.

Comprar algo para o apartamento deles. Fazer Miguel aparecer ao lado dela. Mostrar ao mundo o que já era dela.

Vestiu-se com pressa, escolheu um conjunto claro, acessórios discretos e o perfume que sabia que deixava marcas. Cecília não entrava em lugares, ela os dominava.

Na Alencar Holding, subiu direto para o andar do noivo. Não pediu permissão. Não esperou ser anunciada. Abriu a porta como se a sala fosse extensão do próprio nome.

Miguel estava em pé diante da janela, o celular na mão, olhando a cidade como se procurasse uma resposta que o horizonte não dava. Ao ouvir a porta, ele virou o rosto devagar. A expressão não era raiva. Era cansaço.

— Cecília. Ele disse, sem calor.

Ela sorriu, forçando alegria.

— Amor, eu tenho uma surpresa. Ela ergueu o celular. Convite para uma exposição maravilhosa. Eu quero ir com você. E eu quero comprar algo lindo para o nosso apartamento.

Miguel ficou em silêncio por um instante.

Nos últimos dias, a presença dela tinha se tornado estranha. Não porque ela fosse diferente, mas porque ele estava diferente. Havia momentos em que ele a olhava e sentia que estava diante de uma pessoa que conhecia apenas pelo contrato. Uma escolha feita por alguém que não era ele. Uma aliança assinada por conveniência, não por desejo.

Ele tentou lembrar quando tinha aceitado aquele noivado. Lembrava do pai falando de alianças entre famílias, de estabilidade, de futuro. Lembrava da morte do pai e do peso herdado. Lembrava de Cecília aparecendo em jantares, sorrindo, ocupando espaço. Mas não lembrava do momento em que disse sim com o coração.

Talvez nunca tivesse dito.

Miguel observou Cecília com atenção cruel, como se tentasse encontrar nela um motivo para sentir. Os olhos dela eram bonitos, bem delineados, treinados para encantar. A boca era perfeita, pintada com precisão. O corpo, escultural, encaixado em tecidos caros. Era o tipo de mulher que despertava desejo em homens comuns.

E nele, não despertava nada.

Nem um impulso.

Nem uma faísca.

Era como olhar um quadro caro e não sentir vontade de tocá-lo.

Ele percebeu o próprio vazio com uma incômoda nitidez, e aquilo o irritou. Não contra Cecília, mas contra si mesmo. Contra o que quer que estivesse quebrado por dentro.

— Eu vou. Ele disse, com a voz controlada, mais para encerrar o assunto do que por vontade real.

O rosto de Cecília se iluminou instantaneamente.

— Eu sabia. Ela soltou um gritinho satisfeito, infantil demais para a mulher sofisticada que fingia ser, e se aproximou para beijá-lo.

Miguel recuou meio passo, quase imperceptível, e fingiu que era apenas distração.

— Agora eu tenho uma reunião importante. Ele disse, apontando para a pasta sobre a mesa. Preciso que você saia.

Cecília fez um biquinho, mas não discutiu. O sim dele valia mais do que qualquer birra.

— Tá bom. Mas eu vou escolher a roupa perfeita para você. Ela disse, feliz. Você vai ficar lindo do meu lado.

Ela saiu com um salto leve, como se tivesse vencido uma guerra.

Quando a porta se fechou, Miguel soltou o ar lentamente. Sentiu um incômodo nos ombros, como se tivesse vestindo uma camisa apertada demais. Ele voltou a olhar pela janela. A sensação de estar preso numa vida que não era totalmente sua crescia, insistente, como uma dor que não tinha diagnóstico.

A reunião começou minutos depois.

O empresário do outro lado da mesa falava demais e prometia mais do que entregava. Miguel não tinha paciência para gente que tentava negociar com charme em vez de números.

— O senhor está me oferecendo fé. Miguel disse, frio, mantendo o olhar fixo. E eu não negocio com fé. Eu negocio com garantias.

O homem riu, tentando aliviar.

— Doutor Miguel, estamos falando de um mercado em expansão.

Miguel inclinou-se um pouco para frente.

— Então me mostre a expansão. Me mostre o contrato amarrado. Me mostre o risco calculado. Porque, até agora, o que eu vejo é um homem querendo usar meu nome para sustentar a própria insegurança.

O silêncio caiu pesado.

O empresário ficou vermelho. Tentou reagir, elevando o tom.

— O senhor não precisa me destratar.

Miguel sentiu o sangue subir, um calor rápido, um estalo por dentro. Não era só irritação. Era pressão. Uma pulsação na têmpora que começou pequena e, em segundos, virou uma dor latejante.

— Eu não estou destratando. Ele disse, prendendo a mão na borda da mesa para se firmar. Eu estou dizendo a verdade.

A dor subiu mais.

Miguel piscou devagar, respirando com cuidado. Não queria demonstrar fraqueza. Não ali. Não para aquele homem.

Encerraram a reunião com formalidades secas. Assim que ficou sozinho, Miguel abriu a gaveta e pegou um analgésico. Engoliu com água sem pensar, como quem apaga um incêndio pequeno antes que vire desastre.

A cabeça ainda doía.

Ele precisava de ar.

Saiu do prédio e caminhou até uma cafeteria próxima, tentando se misturar ao fluxo de gente comum. O cheiro de pão, café e açúcar queimado o atingiu como um golpe agradável. Ele respirou fundo, tentando acalmar o corpo.

E então aconteceu.

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