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Fragmentos de Nós
Fragmentos de Nós
Por: LynneFigueiredo
Primeiro Fragmentos.

Fragmentos que doem sem nome

Miguel Alencar tinha tudo o que um homem poderia desejar.

Dinheiro suficiente para nunca mais se preocupar com contas. Poder suficiente para ser obedecido sem elevar a voz. Respeito suficiente para entrar em qualquer sala sem precisar se apresentar. Um noivado perfeito aos olhos do mundo, construído com a precisão de quem sabia escolher alianças estratégicas.

Ainda assim, todas as noites ele acordava com o mesmo gosto amargo na boca.

— Não machuquem ela… por favor…

O pedido saiu fraco, preso na garganta, como se tivesse atravessado um deserto antes de alcançar o quarto escuro. Miguel abriu os olhos com um sobressalto. O teto alto do quarto luxuoso parecia distante demais, como se estivesse olhando para outra vida que não reconhecia completamente. O relógio digital sobre o criado-mudo marcava 3h12 da manhã.

Era sempre a mesma hora.

Era sempre o mesmo peso no peito.

Uma menina. Um pátio. Um grito.

E a certeza incômoda de que ele estava falhando com alguém que não sabia quem era.

Miguel sentou-se na beira da cama, passando a mão pelo rosto ainda úmido de suor. O coração batia rápido demais para um homem acostumado a controlar tudo. Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos como organizava contratos: linha por linha, cláusula por cláusula. Não funcionou.

Ele não lembrava do rosto dela.

Não lembrava do nome.

Mas lembrava da dor.

No banheiro, a luz fria refletiu um homem de trinta e poucos anos com olheiras discretas e mandíbula rígida. A água gelada escorreu sobre seu rosto, mas não levou embora a sensação de culpa que não tinha origem clara. Vestiu-se com a mesma precisão de sempre: camisa branca, paletó escuro, gravata escolhida sem pensar. Tudo era automático. O corpo sabia o caminho. A mente, não.

Desceu as escadas em silêncio.

A casa ainda dormia, exceto pela cozinha, onde a luz já estava acesa. Isabel Alencar estava sentada à mesa, segurando uma xícara de café como quem se ancora em algo concreto. O cabelo grisalho estava preso em um coque simples, e os olhos atentos se ergueram no instante em que Miguel apareceu.

— Você sonhou de novo. Ela disse antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, observando o jeito tenso com que ele segurava o corrimão.

Miguel congelou por meio segundo.

— Como você sabe? Perguntou, sentindo o estômago se contrair.

Isabel inclinou levemente a cabeça.

— Você fica diferente quando acorda assim. Sua voz não tinha acusação, mas havia cautela demais para ser apenas preocupação.

Ele se aproximou da mesa, puxando a cadeira sem fazer barulho.

— É sempre a mesma cena. Disse, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos. Uma garota sendo machucada. E eu tentando proteger.

Isabel respirou fundo antes de falar.

— Você lembra quem ela é?

Miguel balançou a cabeça.

— Não. E é isso que me enlouquece. Ele apoiou os cotovelos na mesa, sentindo o peso da madrugada ainda preso aos ombros. Eu acordo com a sensação de que traí alguém. Como se tivesse prometido algo e não tivesse cumprido.

Isabel apertou os lábios. A mão que segurava a xícara tremeu levemente antes de pousá-la sobre a mesa.

— Talvez algumas coisas só possam ser lembradas no tempo certo. Ela disse, evitando encará-lo diretamente.

Miguel a observou em silêncio por alguns segundos.

— Ou talvez alguém esteja escondendo isso de mim. A frase saiu mais dura do que ele pretendia.

Isabel levantou os olhos.

— Miguel…

— Você sabe mais do que diz. Ele completou, sentindo o peito apertar. Sempre soube. Quando eu falo desses sonhos, você muda o olhar. Quando eu pergunto, você responde pela metade.

Ela permaneceu em silêncio.

Esse silêncio pesava mais do que qualquer resposta.

Miguel se levantou.

— Eu vou trabalhar. Disse, pegando a chave sobre o balcão. Mas isso não vai ficar assim.

Isabel não respondeu. Apenas acompanhou o filho com o olhar até a porta se fechar.

No trajeto até a empresa, a cidade parecia seguir seu ritmo habitual. Pessoas atravessando ruas, ônibus parando, vitrines acesas cedo demais. Miguel dirigia sem realmente ver. O corpo obedecia aos sinais, mas a mente estava presa naquela menina sem rosto que gritava dentro de um pátio que ele não reconhecia.

O edifício da Alencar Holding surgia como uma muralha de vidro e aço. Ao entrar, foi recebido por cumprimentos rápidos, acenos formais, olhares que esperavam decisões.

— Bom dia, doutor Miguel. Disse a secretária, levantando-se.

— Bom dia. Respondeu, sem desacelerar o passo.

No elevador, encarou o próprio reflexo nas paredes espelhadas. O homem que via era alguém que sabia quem era: CEO, herdeiro, noivo, estrategista. Ainda assim, havia algo ausente naquele rosto. Algo que não aparecia em relatórios nem em reuniões.

Na sala de reuniões, os diretores já o aguardavam.

— Temos o parecer final da fusão. Disse um dos executivos, deslizando um tablet sobre a mesa. E precisamos da sua assinatura hoje.

Miguel sentou-se à cabeceira, lendo os números com rapidez.

— Está tudo conforme o previsto? Perguntou, mantendo a voz firme.

— Sim. Lucro garantido em seis meses.

Ele assentiu, mas a mente estava longe. Enquanto assinava os documentos, a imagem do pátio insistia em surgir entre uma cláusula e outra.

— Doutor Miguel? Chamou outro diretor, percebendo a pausa. Está tudo bem?

Miguel ergueu o olhar.

— Está. Apenas terminei. Disse, fechando a pasta. Pode encaminhar.

Quando ficou sozinho, apoiou as mãos na mesa de vidro.

Aquilo não era normal.

Ele não tinha histórico de sonhos recorrentes. Não tinha lapsos de memória conhecidos. Não tinha justificativa lógica para sentir falta de alguém que não sabia nomear.

Pegou o celular e digitou rapidamente o nome de um neurologista conhecido da família. Marcou uma consulta para os próximos dias. A decisão não veio da razão, mas do medo de continuar vivendo com um buraco dentro do peito.

No fim da manhã, Cecília Monteiro entrou sem bater, como sempre.

Vestia um conjunto claro e carregava o perfume doce que preenchia qualquer ambiente.

— Amor, você nem me respondeu as mensagens. Ela disse, sentando-se na poltrona à frente da mesa. Você vai mesmo jantar hoje com meus pais?

Miguel demorou meio segundo para responder.

— Vou. Ele disse, ajustando a gravata.

Cecília sorriu.

— Ótimo. Eles estão animados com o anúncio do noivado oficial.

Miguel assentiu, mas o estômago se contraiu.

— Cecília… Ele começou, mas parou.

— O quê? Ela perguntou, inclinando-se para frente.

Ele a observou. Era bonita, elegante, adequada. E absolutamente distante.

— Nada. Ele disse. Só estou cansado.

Ela se levantou, aproximando-se e tocando o braço dele.

— Você anda estranho. Desde a galeria.

Miguel sentiu o sangue gelar por um instante.

— Galeria?

— Sim. Aquela mulher com a criança. Você quase não piscou.

Ele franziu a testa.

— Não lembro.

Cecília o encarou, desconfiada.

— Pois eu lembro. Disse, cruzando os braços. E não gostei.

Miguel se afastou da mesa.

— Não era ninguém.

— Ninguém não causa aquele tipo de olhar. Ela respondeu, seca.

Ele não respondeu.

Quando Cecília saiu, Miguel ficou sozinho de novo.

E, pela primeira vez, assumiu para si mesmo:

Ele não estava apenas sonhando.

Ele estava sendo puxado para um passado que alguém havia trancado.

E, gostasse disso ou não, iria abrir essa porta.

O problema não era só a memória.

Era o que ninguém queria que ele lembrasse.

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