Capítulo 3 - A Solidão da Lua

As palavras de Theron ainda ecoavam em sua mente enquanto ela deixava os aposentos reais.

“Nunca carregue uma culpa que não pertence a você.”

Pela primeira vez desde a morte de Darian…

Ela sentia o peso sobre os ombros um pouco menor.

Não porque a dor tivesse desaparecido.

Jamais desapareceria.

Mas porque alguém finalmente havia dividido aquele fardo com ela.

Respirou fundo.

Talvez Elowin estivesse certa.

Talvez, um dia…

As coisas realmente pudessem melhorar.

Assim que atravessou o corredor principal da Mansão Alfa, passos firmes ecoaram na direção contrária.

Seu coração acelerou imediatamente.

Ian.

Vestido com as roupas escuras da cerimônia, ele caminhava acompanhado por dois guardas.

Falava baixo enquanto distribuía as últimas instruções.

Ao perceber sua presença, os guardas fizeram uma breve reverência e seguiram adiante.

Ian permaneceu.

Por um breve instante, os olhares dos dois se encontraram.

O coração de Mia apertou.

Havia dias que tudo se resumia àquilo.

Olhares rápidos.

Silêncio.

Distância.

Ele fez apenas um breve movimento de cabeça, como sempre fazia quando se cruzavam pelos corredores.

Preparava-se para seguir em frente.

— Ian…

A voz dela saiu baixa.

Ele parou.

Mas não se virou imediatamente.

Mia reuniu toda a coragem que ainda lhe restava.

— Podemos conversar?

O silêncio pareceu durar uma eternidade.

Quando finalmente se virou para encará-la, não havia raiva em seu rosto.

Havia cansaço.

E uma tristeza tão profunda que doía apenas de olhar.

— Não temos o que conversar.

As palavras atingiram Mia como uma lâmina.

Ela respirou fundo.

— Por favor…

Ele a interrompeu antes que pudesse continuar.

— Você sabe muito bem por que estamos fazendo isso.

A voz dele permanecia calma.

Fria.

Controlada.

— Estamos apenas cumprindo o dever que nos foi imposto antes mesmo de nascermos.

Mia sentiu os olhos arderem.

— Ian…

Ele desviou o olhar por um instante.

Como se sequer conseguisse sustentá-lo por muito tempo.

— A diferença é que você sempre soube.

Ela franziu a testa.

— Eu…

— Você sabia qual era o seu destino.

Sabia quem era.

Sabia da profecia.

Sabia muito mais do que eu.

Sua voz falhou por um breve instante antes de recuperar a firmeza.

— Quem nunca soube de nada fui eu.

Mia sentiu o peito apertar.

Ela queria explicar.

Queria dizer que também havia sido criada no escuro.

Que jamais escolhera carregar aquele segredo.

Mas nenhuma palavra parecia suficiente.

Ian respirou fundo.

Como se precisasse reunir forças para continuar.

— Então vamos evitar esse tipo de conversa.

É melhor para nós dois.

Ele voltou a encará-la.

O olhar parecia distante.

Quase vazio.

— Depois da cerimônia, vamos morar na ala leste da Mansão Alfa.

Não vou tirar meus pais dos aposentos deles.

Teremos nosso próprio espaço.

A informação foi dita com a mesma naturalidade de quem organizava uma reunião do conselho.

Não um casamento.

— Cada um terá sua privacidade.

Cumpriremos nossos deveres.

Isso será suficiente.

Mia sentiu o mundo ao seu redor perder o som.

Era aquilo.

Era assim que Ian enxergava o futuro dos dois.

Uma obrigação.

Nada além disso.

Ele fez menção de ir embora.

Mas parou mais uma vez.

Sem olhá-la.

— Agora preciso resolver os últimos detalhes da cerimônia.

Esteja pronta.

E faça uma cara feliz.

A alcateia precisa acreditar nesta união.

Mia permaneceu em silêncio.

Ian fechou os olhos por um breve instante.

Quando voltou a falar, sua voz saiu ainda mais baixa.

Mais cansada.

— Você escondeu a verdade durante anos.

Tenho certeza de que consegue esconder isso por mais algumas horas.

Por um instante, pareceu querer dizer mais alguma coisa.

Os lábios chegaram a se abrir.

Mas nenhuma palavra saiu.

Ele apenas assentiu de leve para si mesmo.

Como se desistisse da conversa antes mesmo de iniciá-la.

Então voltou a caminhar.

Mia permaneceu imóvel.

Sem conseguir respirar direito.

As palavras de Theron ainda aqueciam uma pequena parte do seu coração.

Mas bastaram poucos minutos.

Algumas frases.

Um único olhar de Ian.

Para que todo aquele alívio desaparecesse.

Ela caminhou lentamente de volta ao próprio quarto.

Cada passo parecia mais pesado do que o anterior.

Ao fechar a porta atrás de si, compreendeu que, dali em diante, não esperava mais encontrar felicidade naquele casamento.

Entraria naquela cerimônia ao lado do homem que amava.

Mas sairia dela ao lado do homem que amava…

Sem conseguir encontrar, em seus olhos, qualquer vestígio do amor que um dia acreditou existir.

Enquanto fitava o próprio reflexo diante do espelho, uma única certeza permaneceu.

Seu destino havia sido escrito muito antes de nascer.

Mas a solidão que carregaria a partir daquele dia…

Essa, ela tinha a dolorosa sensação de que duraria para sempre.

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