Capítulo 5

POR MAIA

Cheguei à sala de Ecologia Urbana e Paisagística faltando poucos minutos para a aula começar.

Era, sem dúvidas, minha matéria favorita daquele semestre.

Talvez porque fosse uma das poucas disciplinas que me faziam esquecer completamente todo o resto.

Quando eu estava ali, falando sobre arborização urbana, drenagem natural, jardins sustentáveis ou ocupação inteligente dos espaços… minha cabeça finalmente silenciava.

Nenhum cliente.

Nenhuma conta atrasada.

Nenhuma preocupação.

Só eu.

E o futuro que eu ainda tentava construir.

Eu estava no penúltimo ano da faculdade.

Ano que vem, se tudo desse certo, eu finalmente me formaria.

Só de pensar nisso já me dava um alívio estranho.

Quando entrei na sala, alguns alunos já estavam espalhados pelas cadeiras. Reconheci Valéria imediatamente.

Ela já estava sentada no lugar de sempre, perto da janela.

Sentei ao lado dela automaticamente.

Valéria estava comigo desde o começo do curso.

Nos tornamos amigas rápido.

Talvez porque fôssemos muito parecidas em algumas coisas e completamente diferentes em outras.

Ela era um ano mais nova que eu, mas tinha uma maturidade admirável.

Personalidade forte.

Direta.

Observadora.

Era magra, mas com curvas maiores que as minhas, cabelos lisos e curtos, sempre acima dos ombros, e uma pele tão branca que às vezes eu brincava chamando ela de Branca de Neve.

Ela odiava.

O que obviamente me fazia repetir ainda mais.

— Bom dia, morta-viva — ela cochichou assim que sentei.

Sorri.

— Você não tem ideia.

Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa, mas o professor entrou naquele instante e não tivemos tempo de conversar.

A aula passou rápido.

Como sempre acontecia quando eu realmente gostava do assunto.

No final, antes de encerrar, o professor apoiou as mãos sobre a mesa e disse:

— Antes de irem embora, tenho uma novidade.

A sala inteira prestou atenção.

— Na sexta-feira, daqui a quatro dias, vamos sortear quatro vagas de estágio entre os alunos com as melhores notas deste semestre. As vagas são para duas empresas excelentes: Artelife Arquitetura e Mono Arquitetura.

Meu coração acelerou.

Olhei imediatamente para Valéria.

Ela me olhou de volta.

Nós duas entendemos a importância daquilo ao mesmo tempo.

Um estágio.

Um salário.

Uma chance real.

Aquilo mudaria muita coisa.

Por mais que eu não aceitasse tantos encontros quanto Diana, eu ainda fazia pelo menos dois por semana.

Era o suficiente para pagar:

minha faculdade,

as contas da casa,

a comida,

e ajudar minha mãe com meus irmãos mais novos, que teve de um outro casamento..

Hannah tinha onze anos.

Rafael, nove.

Eles eram a minha vida.

E eu faria qualquer coisa para garantir que não crescessem como eu cresci.

Hannah fazia ginástica artística.

Rafael fazia natação.

E toda vez que eu pagava aquelas mensalidades, sentia uma pequena vitória.

Como se estivesse quebrando algum ciclo antigo.

Minha mãe havia se separado há pouco mais de um ano.

Coincidentemente na mesma época em que fui demitida do restaurante onde trabalhava como garçonete.

Foi aí que tudo apertou.

E foi aí que Diana me apresentou o aplicativo.

Eu relutei.

Muito.

Mas contas não esperam dignidade.

E nem sempre os encontros eram sexuais.

Na verdade, raramente eram.

Mas eram esses os que pagavam melhor.

Então aquele estágio…

Mesmo se pagasse um salário mínimo…

Já me ajudaria absurdamente.

Assim que a aula acabou, eu e Valéria fomos direto nos inscrever.

Éramos boas alunas.

Talvez duas das poucas realmente interessadas ali.

Muitos colegas eram filhos de famílias ricas.

Estavam ali por obrigação.

Eu e Valéria não.

Nós duas tínhamos bolsa parcial de cinquenta por cento.

Tínhamos estudado muito pra estar ali.

E dávamos valor a cada aula.

— Vamos cruzar os dedos — Valéria disse assim que saímos da secretaria. — Com certeza vamos conseguir essas vagas.

Sorri.

Ela era sempre otimista.

— Tomara. Isso iria me ajudar muito nesse momento.

— Vai ajudar.

O jeito decidido dela quase me convenceu.

Como ainda faltavam cinquenta minutos para a próxima aula, convidei Valéria para ir até a cafeteria.

Mandei uma mensagem para Diana avisando que estaríamos lá.

Enquanto caminhávamos pelo corredor, meu celular vibrou.

Finalmente olhei.

Mensagem da minha mãe.

“Preciso falar com você urgente. Me liga quando puder.”

“Me liga porra”

Suspirei.

Mais um problema.

Com certeza.

Mas não iria pensar nisso agora.

Minha mãe tinha quarenta e oito anos.

Alta. Cabelos pretos. E com olhos verdes claros como o meu 

Dizem que pareço muito com ela.

Fisicamente, talvez.

Na personalidade, nem de longe.

Minha mãe sempre foi dura.

Controladora.

Teve eu e meu irmão mais velho, Maicon, muito nova.

Com dezoito anos.

Foi criada junto com seis irmãos numa pequena casa de madeira no interior, onde meu avô trabalhava em colheitas de café e minha avó lavava roupa para fora.

Ela cresceu ouvindo que violência era educação.

E repetiu isso em casa.

Comigo.

Com Maicon.

Até hoje ela defendia que “na época era assim”.

Eu nunca aceitei isso.

Nunca.

Chegamos à cafeteria.

Pedi o de sempre.

Café preto, puro.

E broas de milho.

Elas me lembravam a infância.

Ou pelo menos as partes boas dela.

Minha mãe fazia a tarde para o lanche, antes de tudo virar caos depois que meu pai e ela se separaram.

Valéria pediu cappuccino e uma fatia enorme de bolo de cenoura.

Como sempre.

— Você realmente nunca muda — falei.

— E nem pretendo.

Escolhemos uma mesa perto da janela e começamos a conversar enquanto esperávamos Diana.

Ela chegou alguns minutos depois.

Apressada como sempre.

Cabelos presos às pressas.

Batom impecável.

Perfume forte.

Diana tinha essa capacidade de parecer arrumada mesmo quando claramente tinha saído correndo.

— Oi, bonitas — disse sentando-se. — O que perdi?

— Maia quase morreu de ansiedade hoje cedo — Valéria respondeu antes de mim.

Lancei um olhar pra ela.

— Obrigada pela delicadeza.

Diana riu.

— Ainda é sobre o homem estranho?

Assenti.

— Bloqueei.

— Fez certo — Valéria disse imediatamente.

Diana apoiou o cotovelo na mesa.

— Eu não sei… se ele realmente for um dos donos do aplicativo, talvez seja interessante manter contato.

Eu e Valéria olhamos pra ela ao mesmo tempo.

— Interessante? — repeti.

— Ué. — ela deu de ombros. — Homens assim podem ser úteis.

A frase me incomodou mais do que deveria.

Valéria também pareceu desconfortável.

— Nem tudo precisa ser calculado assim — ela comentou, mexendo no cappuccino.

Diana sorriu de lado.

— Fácil falar quando você não precisa pagar aluguel sozinha.

O clima ficou levemente estranho. Odiava quando Diana atacava Valéria desse jeito só porque ela ainda morava com os pais.

Eu resolvi mudar de assunto.

— Vamos falar de coisa boa. Sexta tem sorteio dos estágios.

— Ah, eu soube — Diana respondeu. — Vai ser ótimo se você conseguir. Talvez finalmente pare de aceitar encontro com homens que você diz tanto odiar fazer.

Ela falou sorrindo.

Mas havia alguma coisa ali.

Alguma ponta.

Alguma provocação sutil.

Ignorei. Ou tentei.

Conversamos mais alguns minutos sobre faculdade, provas e banalidades até o horário apertar novamente.

Nos despedimos.

Pedi para que Valéria fosse para o bloco que iríamos ter a próxima aula sem mim, que eu precisava fazer algo primeiro.

Diana também.

E eu fiquei alguns segundos parada do lado de fora da cafeteria.

Sozinha.

O celular ainda pesava no bolso.

A mensagem da minha mãe parecia me chamar.

Respirei fundo.

Abri a conversa.

E apertei o botão de ligar.

Eu já sabia.

Aquilo nunca significava coisa boa.

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