Mundo de ficçãoIniciar sessãoARIANA
Cruzei as pernas à minha frente enquanto me recostava no sofá macio com a xícara de café entre os dedos. — Então, me diga. — Karen sorriu, esperando que eu falasse. Karen era minha terapeuta, dava os melhores conselhos e estava sempre lá para ouvir. Há dois anos, decidi que precisava de um terapeuta: alguém com quem conversar, alguém em quem confiar, alguém a quem pudesse confessar meus segredos. No meu trabalho, você passa por momentos estressantes e difíceis, momentos em que se sente perdido em si mesmo. Momentos em que tudo o que você quer fazer é falar sobre a sua situação atual. Como eu não tinha amigos, não planejava contar nada disso para minha mãe. Ela provavelmente contaria para a esposa dela ou para as amigas ricas e, antes que eu percebesse, meus segredos seriam a manchete da semana. — Vai ter um brunch em breve e há uma grande chance de minhas mães virem — informei. — E o que você acha disso? — Estou apavorada. Eu sei que é só a minha mãe, mas, por outro lado, é a minha mãe. E o Elroy está planejando convencê-la a me fazer rescindir meu contrato com a Yvonne Deere's Industry. — O mesmo setor que compete com o dele? — Sim. Eu realmente não quero desistir, mas agora que ele quer envolver minha mãe, não tenho muita certeza. Karen suspirou. — Como estão as coisas entre você e Elroy? — Ele ainda me odeia — respondi, dando um gole no café. — Por Deus sabe o quê. Tentei abraçá-lo ontem e ele me empurrou. — Sabe, às vezes, quando alguém tenta fugir de sentimentos que não quer aceitar, tende a afastar a fonte desses sentimentos. No seu caso, acho que Elroy está tentando evitar o inevitável — disse Karen. — Por que você diz isso? — Vocês dois estão morando juntos há cerca de um ano. Morar junto tende a criar uma certa familiaridade entre vocês, e percebo que isso já está afetando vocês. — Não está, acredite em mim... Eu não o suporto. — É isso que sua mente diz. Mas seu coração fala outra língua. Seu coração a incentivou a abraçá-lo, você sentiu a necessidade de preencher aquele vazio entre vocês dois. Parei para pensar. — Bem, sim, mas... é só por causa da Melissa. Ela tem grandes expectativas em relação a mim e ao Elroy, eu só estou tentando fazer algo dar certo no relacionamento. Mas ele está dificultando as coisas. — Então se esforce mais. — Por quanto tempo? Ele é muito difícil. — Isso acontece apenas porque ele não quer aceitar os sentimentos que já existem na cabeça dele. Suspirei. — Você não entende. No ano passado, na festa anual de comemoração do sucesso dele, ele me disse para nunca mais beijá-lo. E não é como se eu o tivesse beijado na boca ou algo assim, foi só na bochecha. Ele não falou comigo por semanas depois disso! — Essa é a maneira dele de lidar com as coisas, Ariana. — Será? O que penso sobre isso é que Elroy não me vê como uma mulher. Ele não se importa com a minha aparência, com o meu corpo ou qualquer coisa do tipo. Sou apenas uma espécie de instrumento colocado na vida dele para que ele fique bem perante o público. — Como você tem tanta certeza disso? — perguntou Karen. — Qual é, Karen. Eu moro com ele há um ano e meio e ele nem sequer tentou me tocar, me beijar ou me olhar como aqueles fotógrafos tarados fazem — Reclamei. — Quer dizer, não é como se houvesse algo de errado comigo, né? Ele já ficou com outras mulheres antes, o que é prova suficiente de que ele não é gay. — Suspirei. — E o fato de ele não te tratar como um namorado trataria a namorada está te incomodando? Dei de ombros. — Mais ou menos. Mas tanto faz. — Você vai desistir? — Eu não sei mais o que fazer... ele não faz nenhum esforço para que esse relacionamento funcione. Karen endireitou a postura. — Certo, vou ter que mudar de médica para amiga nesta próxima parte. — Certo, estou ouvindo — incentivei. — Você já tentou seduzi-lo? Fiz um esforço enorme para não me engasgar com o café. — Seduzir? Não, nunca. — Por que você não tenta? Isso abriria os olhos dele para coisas que ele não havia notado antes — sugeriu Karen. Sedução? Quer dizer, poderia funcionar, mas... há 80% de chance de dar errado. Afinal, estamos falando do Elroy. — Duvido. — Ele é um homem, Ariana. Se você quer que ele te note, vai ter que fazer o que for preciso. Mas, o quanto você quer que esse relacionamento dê certo? Parei para pensar. Elroy não era tão ruim assim... Diabolicamente bonito e um sorriso encantador, tanto fingido quanto genuíno. Era perfeito na aparência, mas era um idiota, um babaca que só se importava consigo mesmo. Mas às vezes ainda sinto que existe alguma bondade escondida em algum lugar dentro daquele coração sombrio dele. Às vezes, parecia que ele se importava comigo. Às vezes, todos soltavam aquele "own" pelo jeito que ele me tratava, embora depois ele dissesse que estava fingindo. Como no ano passado, no aniversário dos meninos, dia 14 de dezembro. Eles estavam comemorando 24 anos. Eram dois anos mais velhos que eu, que tinha apenas 22. Este ano, farei 23, dia 15 de outubro. Me cortei sem querer com uma faca enquanto tentava cortar uma maçã para o filho da tia May. A tia May era a pessoa mais próxima de uma mãe para o Elroy, já que era irmã da mãe dele. Quando Elroy percebeu o corte no meu dedo, correu até mim, pedindo um kit de primeiros socorros. Falei que estava bem, mas ele não me ouviu. Lavou o sangue na bacia, mas o corte sangrou mais. Como o kit de primeiros socorros não chegou a tempo, ele colocou meu dedo na boca, tentando estancar o sangramento. Naquele dia, tive uma réstia de esperança de que nosso relacionamento tivesse algum significado, mas quando fomos embora juntos, ele me disse que tudo não passava de uma farsa. Mesmo assim, foi bom vê-lo tão preocupado comigo. Me senti amada. — Eu quero muito que isso funcione — deixei escapar. — Então você estaria disposta a correr qualquer risco. Vocês dois estão juntos há três anos. Não acha que está na hora de começar a aproveitar as vantagens de estar em um relacionamento? — perguntou Karen. — Quero aproveitar, mas a questão é: será que ele também?






