A luz da tarde entrava no ateliê em feixes densos, carregados de partículas de poeira que dançavam como ouro suspenso. Amélia não viu o tempo passar, as horas haviam se transformado em pigmento e movimento. Seus dedos, manchados de azul-cobalto e ocre, guiavam a espátula em movimentos largos e viscerais. A tinta a óleo escorria, criando veios que pareciam raízes ou cicatrizes. No centro da tela, uma explosão de carmim surgia sob camadas de cinza, como um segredo que se recusa a ser enterrado.