🌸 ENTRE ESTAÇÕES
Beatriz caminhava apressada pelas ruas molhadas do centro da cidade. O céu, cinzento desde o início da manhã, finalmente desabava em uma tempestade que fazia os pedestres correrem para se proteger. Ela, com o guarda-chuva quebrado e o tênis encharcado, mal conseguia ver para onde ia.
– Ótimo... Justo hoje que eu tinha que abrir a livraria sozinha... – murmurou, bufando.
A “Livros & Sonhos” era o pequeno refúgio de Beatriz, herdado da tia-avó. Um lugar calmo, perfumado com páginas antigas, onde ela passava seus dias mergulhada em romances, poesias e histórias de outros mundos.
Mas naquele dia, algo estava diferente.
Quando chegou à porta da livraria, viu um carro preto luxuoso estacionado bem na frente. Um homem alto, de terno escuro, conversava ao telefone, aparentemente irritado com alguém.
– Sim, eu disse para enviar os documentos ainda hoje. Não me interessa se ele está em reunião. Eu não gosto de atrasos.
Beatriz parou por um instante. O homem parecia deslocado naquele cenário chuvoso e nostálgico. Era como se tivesse saído de um filme sobre executivos impiedosos.
Ao tentar passar por ele para abrir a loja, ela escorregou na calçada molhada – e foi amparada, por puro reflexo, pelas mãos firmes dele.
– Cuidado – disse ele, com a voz grave, enquanto a ajudava a se equilibrar.
– Eu... obrigada – respondeu ela, sem saber onde enfiar o rosto.
– Você é a dona desta loja?
– Sim, por quê?
– Porque estou interessado em comprá-la.
Beatriz o olhou como se tivesse ouvido uma piada sem graça.
– Isso só pode ser brincadeira.
– Não é. Meu nome é Lorenzo Vasconcellos. Esta loja está no caminho do meu novo projeto de expansão. Quero demolir o prédio para construir algo maior.
Beatriz sentiu o estômago revirar.
– Pode esquecer. Esta livraria não está à venda. E mesmo que estivesse, jamais seria sua.
Ela entrou e bateu a porta com força.
Do lado de fora, Lorenzo ficou parado, observando-a através do vidro embaçado pela chuva. Não sabia ainda, mas aquele encontro – molhado, ríspido e inesperado – era o primeiro capítulo de uma história que mudaria tudo.
Beatriz passou o resto da manhã tentando ignorar o que acabara de acontecer. Organizou livros nas prateleiras, arrumou o balcão, preparou o café de sempre… mas a imagem daquele homem – Lorenzo Vasconcellos – insistia em aparecer a
cada segundo de distração.
“Quem ele pensa que é?”, pensava, irritada, enquanto colocava um marcador de páginas entre as obras de romance. “Acha que pode simplesmente comprar tudo que vê pela frente?”
O problema era que Lorenzo não era apenas qualquer homem. Seu nome estava nos jornais, nas revistas, nas placas de prédios imensos que haviam engolido a antiga arquitetura da cidade. Ele era um empresário respeitado – e temido – conhecido por transformar tudo que tocava em lucro.
Mas para Beatriz, a livraria não era só um negócio. Era seu lar. Seu mundo.
Por volta das duas da tarde, a campainha da porta tocou.