Rafaela hesitou por um breve instante, mas logo recuperou a compostura e pegou o celular da mão dele com naturalidade.
— Eu não comprei nada, deve ser apenas mais uma daquelas mensagens promocionais da companhia aérea com descontos em passagens. — Justificou ela, mantendo o tom de voz estável.
Bernardo abriu a boca para questionar, mas, ao notar o desinteresse dela em prolongar o assunto, preferiu guardar suas dúvidas. Afinal, Rafaela nunca mentiria para ele, não é?
Com um aceno silencioso, ele deixou o aparelho de lado e se preparou para ir ao banheiro, mas foi interrompido quando ela o chamou e buscou a maleta de primeiros socorros no armário.
— Você se cortou com um pedaço de vidro nas costas, deixa eu cuidar disso para você. — Disse ela, com uma calma que parecia distante.
Bernardo ficou surpreso por um momento, mas logo se sentou no sofá e tirou o paletó, revelando o corte avermelhado na pele clara. Não era um ferimento profundo, mas, por estar em um ponto difícil de enxergar, ninguém mais havia notado. Ele não esperava que ela estivesse tão atenta aos detalhes.
Enquanto ela limpava o local com um algodão embebido em antisséptico, ele a observava, concentrada na tarefa, e a lembrança daquela carta voltou a incomodá-lo.
— Rafaela, sobre aquela carta de hoje...
— Tente não molhar muito no banho para não inflamar. E tome mais cuidado nessas brigas, não se machuque mais assim, porque, daqui para a frente, não vai haver ninguém para fazer seus curativos. — Interrompeu ela, sem dar espaço para perguntas.
Perdido em seus próprios pensamentos, Bernardo não conseguiu captar o peso melancólico da última frase e ergueu o olhar, confuso.
— O que você disse?
Ela apenas balançou a cabeça negativamente, terminou de prender a gaze com cuidado e seguiu para o quarto sem olhar para trás. Mais tarde, após secar o cabelo, Rafaela viu Bernardo sair do banho. Ele se aproximou e envolveu a cintura dela com os braços, inclinando-se para um beijo que carregava um desejo evidente, mas ela desviou o rosto, evitando o contato.
— Estou no meu período, só quero descansar agora. — Disse ela, com a voz monótona.
Sem insistir, ele apenas a ajudou a se cobrir e apagou a luz.
O dia seguinte amanheceu ensolarado. Enquanto terminava de se arrumar, Rafaela ouviu um burburinho vindo do andar de baixo. Ao sair do quarto, ela se deparou com Natacha e um grupo de pessoas na entrada da casa.
Bernardo estava encostado no batente da porta, com a expressão fechada e o habitual tom de impaciência.
— O que você está fazendo aqui? — Questionou ele, ríspido.
Antes que a moça respondesse, um dos amigos dele se adiantou, rindo de forma descontraída.
— A Natacha disse que você foi o herói dela ontem e que precisava vir agradecer pessoalmente, por isso viemos todos!
Naquele momento, Natacha revelou um enorme buquê de flores e um presente elegantemente embrulhado que escondia atrás das costas.
— Bernardo, obrigada por ter me ajudado ontem, é só uma lembrancinha pelo que você fez! — Disse ela, com um sorriso radiante.
Embora não tivesse pegado os presentes, o semblante de Bernardo relaxou visivelmente diante do gesto. Aproveitando a brecha, Natacha entregou as flores para Rafaela com um tom que beirava a petulância.
— Estas são as rosas Juliet, as favoritas do Bernardo. Poderia colocá-las em um vaso para mim, por favor?
Bernardo franziu o cenho imediatamente e sua voz soou gélida ao intervir:
— Não use o meu nome para justificar os seus gostos, Natacha. Além disso, a Rafaela é minha esposa, não a trate como se fosse uma empregada da casa.
O clima pesou num instante, mas Rafaela manteve a expressão imperturbável. Ela observou as rosas em suas mãos, descobrindo o nome daquela espécie pela primeira vez.
Juliet?
Se Natacha gostava tanto delas, agora fazia sentido ele ter investido tanto tempo e dinheiro para cultivá-las no jardim de inverno. Sem dizer uma palavra, ela entregou o buquê para a empregada e deu algumas instruções simples.
— Pegue aqueles vasos de cristal que estão no expositor do segundo andar e coloque-as lá.
Ignorando a provocação silenciosa, Rafaela levou seu café para a varanda, de onde podia ouvir claramente a conversa na sala de estar.
— Bernardo, esses não são os tsurus de papel que eu fazia na época do colégio? Por que guardou isso em uma caixa de cristal por tanto tempo? Se gosta tanto, eu faço outros para você amanhã! E o que essa boneca Barbie está fazendo aqui? Lembro de ter jogado ela no lixo... você a pegou de volta? — As exclamações de Natacha soavam como uma descoberta de tesouros perdidos. — Olha só, até a folha de bordo que pegamos na montanha! Você realmente fez um marcador de páginas com ela?
Ao ouvir o entusiasmo da outra, Rafaela se recordou de quando perguntou a Bernardo sobre a origem daqueles objetos, logo que se mudaram.
"Presentinhos de uma prima do jardim de infância", ele havia dito na época, com um desdém fingido.
Ela acreditou piamente naquela mentira, ignorando nos olhos dele o brilho complexo, uma mistura de afeto, mágoa e uma nostalgia amarga que, agora ela percebia com clareza, nada tinha a ver com laços de família, mas sim com uma paixão que ele nunca teve a intenção de esquecer.