Capítulo 3
Três dias se passaram até o tão aguardado reencontro da turma de Ciência da Computação de 2021.

Ao chegar ao local combinado, Rafaela foi pega de surpresa ao constatar que Bernardo também estava presente, cercado pela atenção de todos. Assim que os olhos dele recaíram sobre ela, ele se desvencilhou do grupo e caminhou na sua direção, acomodando-se bem ao seu lado.

A presença dos dois juntos fez com que o clima no ambiente ficasse denso, quase visível de tão desconfortável.

Rafaela tinha plena consciência de que ela era o motivo daquela estranheza, pois, aos olhos de seus antigos colegas, seu casamento com Bernardo não passava de um golpe do baú, uma tentativa desesperada de ascender socialmente que lhe rendia apenas olhares de desprezo.

No entanto, ela preferiu ignorar as fofocas e os sussurros maldosos, mantendo-se em silêncio e com a postura inabalável.

O representante de turma, o último a chegar, adentrou a sala carregando uma caixa de papelão volumosa enquanto distribuía sorrisos e cumprimentos.

— Pessoal, o motivo de estarmos todos aqui hoje não é apenas para matar a saudade e jogar conversa fora. — Anunciou ele, com o tom de voz elevado para chamar a atenção do grupo. — Vocês se lembram daquela cápsula do tempo, quando escrevemos cartas para o nosso eu do futuro há cinco anos? O prazo acabou, e eu trouxe todas elas para lermos juntos.

A sugestão gerou um alvoroço generalizado. Uma multidão se formou ao redor da caixa, em meio a risadas e conversas sobrepostas.

— Vamos deixar as coisas mais interessantes! Que tal se cada um sortear uma carta aleatória e ler em voz alta para todo mundo ouvir? — Propôs alguém no meio da bagunça.

— Fechado! Deixa que eu começo! — Exclamou o rapaz que sempre era o mais brincalhão da turma, abrindo caminho aos empurrões amigáveis até alcançar a caixa.

Incentivado pelos gritos e assobios dos colegas mais animados, ele rompeu o lacre de um dos envelopes, pigarreou para dar um ar de importância ao momento e desdobrou a folha de papel.

— Olá, Rafaela de cinco anos no futuro, como estão as coisas? — Começou ele a ler, impostando a voz para dar dramaticidade. — Neste exato momento, estou sentada sob a luz do sol escrevendo estas palavras para você. Não faço a menor ideia de onde você estará ou o que estará sentindo ao ler isso, mas eu precisava deixar registrado e transmitir a você tudo o que domina o meu coração agora.

Bastou o fim desse primeiro parágrafo para que a algazarra cessasse de forma brusca. O silêncio tomou conta do recinto enquanto todos os rostos se viravam em uníssono na direção de Rafaela.

Bernardo, que até então estava distraído com a tela do celular, ergueu o olhar de supetão, encarando a esposa com evidente perplexidade.

A expressão sempre serena e controlada de Rafaela vacilou por uma fração de segundo. O coração dela errou uma batida ao se dar conta do que estava escrito naquelas linhas esquecidas pelo tempo.

O colega que segurava a carta lançou a ela um olhar de soslaio, dando um sorriso carregado de malícia antes de retomar a leitura.

— Este ano você completou dezenove anos, acabou de entrar no segundo ano da faculdade e se apaixonou de corpo e alma pelo Bernardo. Ele nem desconfia disso. E, para ser sincera, mesmo que soubesse, não faria a menor diferença, porque o coração dele já pertence a outra pessoa. Todo esse sentimento que você guarda a sete chaves é algo fadado ao fracasso. — O rapaz fazia pausas, absorvendo o peso das palavras. — Você deve estar se perguntando por que eu não desisto, já que é uma batalha perdida desde o início. A verdade é que me apaixonei pela coragem e pela energia que ele irradia quando entra em quadra sob os gritos da torcida. Eu me apaixonei pelo cuidado genuíno que ele teve ao me proteger daquela bola que vinha na minha direção em um fim de tarde qualquer. Eu me encantei pela forma educada e sincera com que ele trata as pessoas, até mesmo quando precisa rejeitar os sentimentos de alguém. Sou eu quem fica com o pescoço doendo de tanto virar para trás nas reuniões matinais só para roubar um olhar dele. Fui eu quem enfrentou a tempestade para deixar remédios escondidos na gaveta dele depois daquele machucado no jogo de basquete. Fui eu quem passou uma madrugada inteira preenchendo as folhas do diário apenas com o nome dele. É bem provável que, até o fim da vida, ele sequer se lembre de quem eu sou. Mas não tem problema. Amar em silêncio é viver um caos que ninguém vê.

Quando a última palavra soou pela sala, o silêncio que se seguiu foi absoluto, tão profundo que se podia ouvir a própria respiração.

Bernardo sentiu o corpo inteiro se retesar diante daquelas palavras.

A lembrança do dia de seu casamento invadiu sua mente de sobressalto. Era uma cerimônia que ele sempre evitou recordar. Ele relembrou a forma como Rafaela se levantou em meio aos sussurros e olhares carregados de julgamento, caminhando até ele com passos firmes e inabaláveis, sem pestanejar.

Foi apenas naquele instante, após tantos anos de convivência distante, que a verdade bateu à sua porta. O motivo de ela ter aceitado aquela união não tinha qualquer relação com interesse financeiro ou ascensão social, como todos insistiam em afirmar.

A única razão por trás de tudo era um amor cultivado em segredo durante muito tempo. Em um piscar de olhos, o coração que ele mantinha trancado e frio começou a bater em um ritmo acelerado e confuso, tomado por uma emoção que ele não conseguia decifrar.

Impulsionado por aquela revelação súbita, ele abriu a boca, ansioso para despejar todas as perguntas que se acumulavam em sua garganta e esclarecer aquele turbilhão de sentimentos. No entanto, o toque estridente do celular cortou a tensão do ambiente. Era uma ligação de Natacha.

— Bernardo, me ajuda, por favor. Uns marginais me cercaram aqui na porta da boate... — A voz de Natacha soava trêmula e desesperada, interrompida antes mesmo de concluir o pedido de socorro.

A expressão no rosto de Bernardo se transformou de modo drástico. Ele se ergueu da cadeira em um solavanco violento e disparou escada abaixo sem dar explicações a ninguém.

Assim que avistou o grupo de desordeiros rodeando a entrada, ele não hesitou; os punhos cerrados voaram na direção do primeiro rapaz que viu pela frente. A fúria cega que o dominava fez com que seus golpes fossem impiedosos e carregados de uma força brutal, deixando um dos agressores sangrando pela boca em questão de segundos.

Os colegas de turma que o seguiram correram para formar uma barreira de proteção ao redor de Natacha. Entre soluços e lágrimas incontroláveis, ela apontou para o rapaz cheio de tatuagens, acusando-o de tê-la tocado à força.

Aquela frase foi o suficiente para extinguir qualquer rastro de sanidade em Bernardo. Sem pensar duas vezes, ele agarrou um pedaço de cano de ferro que estava jogado no chão e deu um golpe devastador direto contra a mão do agressor.

O som perturbador do impacto foi acompanhado por um grito de agonia tão lancinante que pareceu rasgar a noite.

Havendo descido as escadas apressada logo atrás dos outros, Rafaela se deparou com o fim dessa cena caótica. Seus olhos ficaram fixos naquela mão ensanguentada e arruinada, enquanto o horror a paralisava no lugar. Ao erguer o rosto, em uma tentativa instintiva de buscar amparo em Bernardo, a única coisa que encontrou foi a imagem de suas costas largas enquanto ele envolvia Natacha em um abraço protetor e a guiava para longe da confusão.

O mesmo homem que segundos atrás exibia uma ferocidade letal agora sustentava um semblante de pura ternura, murmurando palavras de consolo para acalmar a mulher que estava em seus braços.

Era o tipo de zelo e devoção que Rafaela jamais havia experimentado na vida.

Ela abaixou a cabeça, escondendo a mágoa profunda que transbordava em seus olhos, e deixou escapar um sorriso amargo, carregado de pena de si. Sem emitir um único som, ela deu meia-volta e caminhou sozinha pela noite até chegar em casa.

A madrugada já ia alta quando a porta da frente se abriu e Bernardo retornou. Ao notar a silhueta da esposa sentada no sofá, mergulhada na escuridão e no silêncio, ele pareceu se recordar da necessidade de justificar suas ações.

— Rafaela, sobre hoje... Ela é nossa colega da época da faculdade, eu não podia virar as costas para o que estava acontecendo com a Natacha. — A voz dele soou cautelosa, tentando quebrar o gelo.

Exausta demais para confrontá-lo ou apontar as contradições daquela desculpa esfarrapada, ela apenas soltou um murmúrio curto de concordância. Recolheu o pijama que já a aguardava e se trancou no banheiro para fugir daquela interação vazia.

Cerca de meia hora depois, ela saiu do banho, secando os cabelos úmidos com a toalha, e estacou no corredor. Bernardo segurava o celular dela nas mãos, exibindo uma feição que misturava confusão e uma pitada de desconfiança.

— Rafaela. — Chamou ele, segurando o aparelho no ar. — Por que você comprou uma passagem aérea?
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