Depois de uma manhã inteira de confusão e falatório, Natacha tomou a iniciativa de sugerir que pagaria a conta do almoço para todos.
Bernardo, no entanto, cortou o assunto no mesmo instante.
— Não precisa. Se você já fez barulho o suficiente por hoje, pode ir embora. — Respondeu ele com frieza e distanciamento.
Ignorando o fora por completo, ela agarrou o braço dele e o puxou em direção à porta. Os amigos do grupo, com medo de que o clima pesasse ainda mais ou que ele desistisse de ir, trataram de arrastar Rafaela junto enquanto saíam, espremendo-se todos nos carros rumo a um resort de águas termais nas montanhas.
Como Rafaela nunca foi de muita socialização com aquele círculo, ela se sentiu deslocada no momento em que pisaram no saguão. Sem a menor vontade de forçar intimidade, ela preferiu se acomodar em um canto mais afastado, observando em silêncio a animação do grupo que já começava a brindar e virar os copos.
Percebendo o desconforto evidente da esposa, Bernardo caminhou até a mesa de bebidas com a intenção de lhe servir um copo de suco.
Rafaela chegou a estender a mão para agradecer, mas o marido passou direto por ela, caminhando a passos largos de volta para o meio da aglomeração.
O copo de uísque estava a milímetros dos lábios de Natacha quando ele o arrancou de sua mão com brusquidão. O tom de voz áspero que se seguiu fez o ambiente inteiro emudecer por um segundo.
— Você tem alergia a álcool e ainda assim vai beber? Perdeu o juízo de vez e não tem amor à própria vida? — Esbravejou ele, os olhos cravados no rosto da ex-namorada.
Ela piscou com inocência, sustentando o olhar furioso com uma expressão de quem não entendia o motivo de tanto alvoroço.
— Ah, achei que fosse suco, peguei a taça errada por engano. Para que tanta irritação? — Murmurou Natacha, enquanto os dedos ágeis tomavam o copo que ainda estava na mão direita de Bernardo. Um sorriso largo e encantador iluminou o rosto dela. — Obrigada pelo aviso.
Os dedos do homem se fecharam em um punho por puro reflexo. No fim, ele não disse mais uma palavra, apenas virou as costas e retornou para onde Rafaela estava, estendendo a mão para entregar a bebida.
Diante da figura inquieta do marido e do líquido âmbar balançando no vidro, ela nem sequer fez menção de pegar a taça. Em vez disso, ajeitou a bolsa no ombro e se levantou com uma postura calma.
— Eu não bebo. Vou na frente aproveitar as piscinas térmicas. — Avisou Rafaela, a voz saindo baixa e indiferente ao caos deles.
Só então Bernardo abaixou a cabeça e percebeu o erro absurdo que havia cometido.
Sua mente estava tão cheia de preocupação com Natacha que acabou oferecendo o uísque puro para a própria esposa.
Ele abriu a boca, tentando formular uma desculpa qualquer para a confusão, mas Rafaela já havia lhe dado as costas e andava a passos firmes rumo aos vestiários. Não houve tempo para nenhuma justificativa.
O calor reconfortante das águas termais abraçou o corpo de Rafaela, aliviando a exaustão acumulada em seus nervos. Encostada na borda de pedra e com o olhar perdido na névoa branca que subia da superfície, uma sonolência pesada tomou conta de seus sentidos. Acostumada com o barulho constante do grupo lá fora, ela acabou adormecendo ali mesmo, mergulhada em um silêncio profundo que abafou por completo as batidas urgentes na porta.
Do lado de fora, a ansiedade de Bernardo crescia a cada segundo sem resposta. Incapaz de esperar mais, ele forçou a maçaneta e invadiu o ambiente privativo. O coração do homem acelerou com força ao ver a esposa de olhos fechados, com a expressão mole e vulnerável em meio ao vapor. Sem pensar nas roupas, ele entrou na água morna para tirá-la dali e a ergueu nos braços com urgência.
O susto da perda de gravidade fez Rafaela despertar em sobressalto, agarrando-se aos ombros largos do marido por puro instinto de sobrevivência. A proximidade imprevista, o contato quente da pele úmida e a respiração ofegante no espaço confinado carregaram o ar com uma tensão palpável.
Atraído por aquela intimidade inesperada, ele inclinou o rosto para mais perto. Os lábios quase se tocando, o calor das respirações misturadas... até que um ruído de passos quebrou a atmosfera de modo abrupto.
Ao entrar logo atrás dele, Natacha estancou na soleira da porta. O sorriso que ela trazia nos lábios desapareceu em uma fração de segundo. Os dentes cravaram no lábio inferior, e um misto de choque e decepção transbordou por seus olhos sem nenhum pudor. Com os punhos cerrados ao lado do corpo, ela deu meia-volta e saiu correndo pelos corredores de pedra.
Bernardo congelou por inteiro.
Com o corpo inteiro rígido, Bernardo soltou Rafaela na borda da piscina. Sem nem olhar direito para a esposa, ele se apressou em ir atrás da outra mulher, atirando para trás uma justificativa vazia antes de sumir de vista.
— Ela entendeu errado. Vou lá explicar a situação.
Um gosto amargo tomou conta da boca de Rafaela.
Entendeu errado?
A ironia daquela frase era absurda. Eles eram marido e mulher na lei. Se tivessem se beijado na frente de quem quer que fosse, qual seria a necessidade de prestar contas?
A dura verdade era que ele continuava preso ao passado e, no fundo, ainda se enxergava como o namorado de Natacha. Era por isso que o instinto de se explicar havia gritado tão alto dentro dele.
Quem aceitou ser domesticado em nome do amor jamais perderia um hábito tão enraizado do dia para a noite.
Com os olhos fixos no espaço vazio onde o marido estivera segundos atrás, Rafaela deixou escapar um sorriso fraco e resignado, sentindo o ardor anunciar as lágrimas contidas.
Puxando uma toalha felpuda para cobrir os ombros molhados, ela caminhou até a janela para buscar um pouco de ar puro. A vista dava direto para o estacionamento, onde a cena de conflito se desenrolava.
Natacha puxou a maçaneta do carro com violência, mas Bernardo a alcançou a tempo de segurar seu pulso. As vozes alteradas e cheias de emoção subiram pela brisa e chegaram com clareza aos ouvidos da esposa no andar de cima.
— A Rafaela dormiu na água e fiquei com medo de ela passar mal, foi só isso! Para que dar um ataque desses e agir desse jeito? — A voz masculina soava exausta, beirando o desespero de quem tenta contornar uma crise.
— É, ela é a sua esposa e não tenho o menor direito de achar ruim! Volta lá e faz companhia para ela, então. Qual o sentido de correr atrás da ex-namorada para dar satisfação? — Retrucou Natacha, as palavras carregadas de ressentimento e ciúmes.
— Você precisa mesmo agir com essa hostilidade toda e dizer coisas desse tipo? — Ele insistiu.
— E o que eu disse de errado? Só falei verdades!
O clima atingiu um ponto de ruptura sem volta.
Com os olhos vermelhos e marejados, Natacha se soltou do aperto com um puxão brusco, entrou no veículo e acelerou em alta velocidade pelo trajeto rústico.
Plantado no meio do caminho, Bernardo hesitou por breves instantes, mas logo correu para o próprio carro e disparou atrás dela, desaparecendo na poeira da estrada.
Observando a poeira assentar na via agora silenciosa, Rafaela virou as costas para a janela com uma expressão indecifrável e entrou no vestiário para se arrumar. Quando enfim surgiu no saguão principal, com as roupas secas e a postura habitual, deu de cara com os amigos da Natacha.
Eles estavam pálidos de pânico e bastante agitados, e um deles agarrou seu braço no momento em que a viu se aproximar.
— Rafaela, aconteceu uma tragédia! O Bernardo e a Natacha bateram o carro!