Mundo ficciónIniciar sesiónRenato Salles
Bem… pensando melhor, devia corrigir: ela não era tão feia assim.
Mas era absurdamente diferente da Raquel. E acho que foi isso que me pegou de surpresa no primeiro instante. O contraste era gritante. A comparação? Inevitável.
As sobrancelhas estavam por fazer. Os olhos, apesar de verdes, não tinham um traço de maquiagem, nem cílios alongados que os deixassem marcantes. A boca era fina, nada carnuda como a da Raquel. Olhando bem, dava para apostar que aquela mulher nunca passou por nenhum procedimento estético. Tudo nela era natural. Natural até demais.
E eu… não queria beijá-la. Nem a pau.
Mas quando olhei por cima do ombro e vi a expectativa estampada nos rostos dos convidados, não tive saída. Sei que alguns estavam com o olhar confuso ao ver a noiva, mas eram poucas pessoas assim, já que a maioria não conhecia a Raquel, então, como eu estava agindo com naturalidade, não ousaram dizer nada. Manter a pose foi tudo o que me restou. Não seria eu a levantar mais uma suspeita naquele circo.
Então, para preservar minha imagem e o pouco de controle que ainda me restava, me inclinei e a beijei.
Foi rápido. Simples. Sem gosto. Sem alma.
Mas quando nos afastamos, vi nos olhos dela a expressão de nojo.
Nojo?!
Como é que ela ousou fazer aquela cara?! Eu é que devia estar com nojo da situação toda. Eu fui traído. Fui eu o enganado. A irmã dela que armou esse espetáculo vergonhoso. E ela fez essa cara para mim?
Aquela expressão escancarada de desprezo me acertou como um soco no estômago. Por um segundo, se estivéssemos a sós, eu teria dito umas boas verdades. Mas não. Ainda estávamos cercados por testemunhas. E eu sabia o que vinha a seguir: os parabéns, os abraços, os flashes, as palmadinhas nas costas.
Não. Não mesmo.
Inclinei-me de novo, ajustei o véu no rosto dela e murmurei:
— Quando eu der o sinal… você corre comigo.
— O quê?! — ela sussurrou, confusa.
Mas não dei tempo para mais perguntas. Antes que começasse a avalanche de cumprimentos, segurei sua mão e a puxei com força.
Ela vinha meio perdida, tropeçando nos próprios passos, então a segurei mais forte. Caminhamos rapidamente até a porta da igreja.
Felizmente, os convidados não acharam estranho. Afinal, eu mesmo havia avisado que fugiria com a minha noiva para a lua de mel logo após a cerimônia. Pelo menos isso estava a nosso favor.
Do lado de fora, o carro já nos aguardava. Abri a porta e pedi que ela entrasse, mas ela parecia… desorientada. Como se não soubesse onde estava.
— Você é cega ou o quê? — questionei, impaciente.
Antes que ela respondesse, os convidados começaram a sair da igreja, então simplesmente abri a porta, empurrei-a para dentro e entrei logo em seguida, ordenando ao motorista que arrancasse o carro dali com pressa.
Sentindo o peso daquele casamento falso na ponta dos dedos, percebi que ela retirou o véu do rosto e semicerrou os olhos, com dificuldade para focar.
— Meus óculos… — ela murmurou, ainda com os olhos semicerrados.
— Que óculos? — perguntei, franzindo a testa.
— Os que uso para enxergar… — ela respondeu baixinho, quase encolhida no banco. — Preciso deles. Sem eles, eu não enxergo quase nada.
Ela evitava me encarar. O jeito como apertava as mãos no vestido denunciava o nervosismo.
— Sem os óculos, é tudo borrado para mim. Tipo… bem borrado mesmo.
Por um momento, ela pareceu se encolher ainda mais no banco, como se esperasse que eu debochasse dela. Mas a verdade é que eu não me importava. Nem um pouco. Não me importava com merda nenhuma que vinha daquela mulher.
A única coisa que realmente me aliviava era o fato de o maldito casamento ter terminado. Sem escândalos. Sem sussurros suspeitos. Pelo menos por enquanto. Claro que meus amigos mais próximos iriam estranhar quando a desgraçada da Raquel aparecesse com o Alessandro, mas até lá… eu já estaria bem longe. E, quando voltasse, inventaria qualquer desculpa. Algo convincente. Algo que não me colocasse como vítima.
— Não sei dos seus óculos — respondi, seco. — Quando chegarmos em casa, você liga para os seus pais e pergunta.
Assim que o motorista estacionou o carro na garagem da minha mansão, desci e notei as pétalas de rosas no chão. Uma trilha elegante, como planejei. Havia solicitado tudo com antecedência: flores espalhadas até o quarto, velas acesas, banheira pronta. Um clima romântico para a mulher que teoricamente era o amor da minha vida. Ficaríamos ali até a hora do nosso voo.
Naquele instante, agradeci a Deus por a mulher que estava ao meu lado não enxergar direito. Seria humilhante demais ver a expressão no rosto dela. A cara de quem não pertencia àquele cenário.
Mas… minha mente vacilou por um segundo.
Por que seria humilhante se aquela mulher deveria estar bem ciente do que a irmã havia planejado?
Uma onda furiosa de raiva voltou a me dominar, e ao encarar a irmã de Raquel ali diante de mim, um desejo quase incontrolável de vingança queimou dentro do meu peito.
E, depois do que a Raquel fez comigo… por que não devolver na mesma moeda?
O que ela pensaria, hein? Se descobrisse que, além de ter me casado com a sua irmã, ainda teria transado com ela? Seria poético.
Um sorriso torto se formou nos meus lábios. Um sorriso frio, calculado, vingativo.
Alguém precisava pagar pelas minhas frustrações. E, naquele momento… tudo o que eu tinha era a Sara.
— Desce — ordenei.
— Onde estamos? — Ela perguntou, tentando focar em alguma coisa.
— Na minha cas… — pausei, apenas para saborear a ironia. — Na nossa casa.
Ela percebeu o deboche. Ficou visível no jeito como hesitou antes de abrir a porta. Mas obedeceu. Desceu do carro devagar, com passos incertos, visivelmente perdida.
Perfeita para o papel que o destino reservou para ela.
Como a ideia já estava formada na minha mente, não perdi tempo. Me aproximei dela devagar e segurei sua cintura, sentindo o corpo tenso sob minhas mãos.
— Eu te guio — murmurei ao seu ouvido.
Notei que os pelos do braço dela se arrepiaram. Medo, talvez. Ou só o desconforto de estar sendo tocada por alguém que ela mal conhecia. Mas eu não recuei.
— Se puder me emprestar seu telefone… — ela pediu com a voz hesitante. — Eu queria ligar para os meus pais e pedir que tragam meus óculos e minha roupa também. Quero muito tirar esse vestido.
— No momento, você não vai precisar nem do óculos e nem da roupa — continuei, encostando os lábios perto de seu ouvido, com o tom baixo e provocativo.
Ela ficou imóvel.
— Você vai, sim, tirar esse vestido — acrescentei com um sorriso torto — mas não vai precisar de nada. Porque o que vamos fazer aqui… é algo que não exige nada além da pele.







