Mundo de ficçãoIniciar sessãoA madrugada se arrastava silenciosa, mas Camille não conseguia dormir. Virava de um lado para o outro, o lençol embolado nas pernas, o quarto escuro servindo apenas para ampliar tudo o que ela tentava esquecer. Ela fechou os olhos. Mas tudo o que viu… foi o olhar dele. O olhar de Adam ainda queimava onde não devia. Firme. Contido. Inacreditavelmente sexy. Aquela versão mais madura, mais contida, mais perigosa de um homem que o tempo não apenas transformou, aperfeiçoou.
O peito dela apertou. O corpo inteiro respondeu a um nome que ela lutava para enterrar há sete anos.
“Foi só um encontro casual”, tentou se convencer. Mentira, ela sabia.
A mente puxou a memória de uma porta que ela nunca quis abrir de novo, a porta do começo de tudo.
E, como sempre, o passado veio em ordem cruel. Primeiro, veio a ruína com Lucas.
Depois… veio Adam.
E foi assim que a lembrança começou.
Algumas dores não cicatrizam. Viraram memória permanente. O fim com Lucas foi assim: rápido, público, humilhante.
Ela nunca esqueceu o corredor cheio. Os olhos virando em sua direção. Os cochichos. As risadinhas escondidas nas mãos de algumas colegas.
E então, a imagem que destruiu o que restava da inocência dela: A foto.
E a pior parte?
A indiferença. Lucas não pediu desculpas. Não correu atrás, não negou nada.
Ele apenas apareceu com a garota dois dias depois, de mãos dadas. No mesmo corredor onde Camille chorou. Algo dentro dela quebrou. Definitivamente.
Terminar o curso foi um esforço silencioso. Frio. Disciplinado. Quando recebeu o diploma, decidiu algo irremediável: Ir embora, recomeçar longe, ser invisível por um tempo.
Foi assim que escolheu Pineville.
Era cedo quando entrou no pequeno café da praça. Luzes quentes, cheiro de pão fresco, barulho suave da máquina de espresso. Queria um lugar onde pudesse respirar. Onde ninguém conhecesse seu passado. Sentou-se perto da janela, abriu o caderno e tentou escrever. Nenhuma palavra saía.
Foi então que a porta abriu. O sino tocou.
E Camille teve a nítida impressão de que o ar mudou antes mesmo que ela entendesse por quê.
Ele entrou.
Adam Bennett.
Naquela época, ela não sabia que o nome dele mudaria tudo. Naquela época, ele era apenas um desconhecido que parecia deslocado na própria beleza.
E que beleza…
Adam era o tipo de homem que chamava atenção sem tentar.
Alto.
E eram detalhes pequenos que a atingiam: as veias saltando discretamente no antebraço, a firmeza das mãos, o jeito como arrumava o cabelo bagunçado com um movimento impaciente, a barba por fazer que desenhava o maxilar forte.
Ele era testosterona pura.
Camille desviou os olhos, tarde demais.
Ele pediu o café com uma voz grave, naturalmente rouca, que arrepiou a espinha dela. A atendente sorriu.
— O de sempre, Adam?
— Capricha hoje, ele disse, com um sorriso pequeno, devastador.
Camille prendeu a respiração.
Ele segurou a xícara e, por um instante, ela observou: as mãos grandes, os dedos longos, a naturalidade com que dominava o objeto pequeno. Era um homem feito de força silenciosa, daquele tipo que não precisa levantar a voz para ocupar espaço.
Quando passou pela mesa dela, o cheiro veio antes: banho fresco, café, e algo quente e masculino que não estava em frasco nenhum.
Ela engoliu seco.
Ele sentou ao lado, perto demais para ignorar, perto demais para o coração dela ficar quieto.
E então, pela primeira vez, ele falou com ela:
— Você é nova por aqui.
A voz dele tocou nela, literalmente, foi físico.
Camille ergueu o rosto devagar.
Os olhos dele eram castanhos, quentes, profundos, o tipo de olhar que vê antes de perguntar.
— Sou, sim. Ela conseguiu responder.
— Bem-vinda, Pineville é pequena, mas é um lugar bom de viver.
Ela sorriu pela primeira vez em semanas. Ele estendeu a mão.
— Sou o Adam.
O toque foi firme. Quente. E demorou um segundo a mais do que precisava.
Um segundo que ela sentiu no estômago.
— Camille.
Ele repetiu:
— Camille…
Como se testasse o nome na própria boca, como se gostasse do som. E isso fez o coração dela tropeçar, algo dentro dela se realinhou naquele instante.
E embora ela tentasse negar…foi naquele café que ele entrou. E ficou. Mesmo quando ela foi embora. Mesmo quando o tempo passou. Mesmo quando ela tentou apagar.
A presença dele ficou. Ficou como marca. Como memória. Como algo que não deveria existir, mas existia. E agora, deitada na cama sete anos depois, encarando o teto escuro, uma verdade brutal a atingiu:
Ela não estava pronta para reencontrar o homem que ele se tornou. O homem que sempre soube desestabilizá-la.
O Adam de hoje era ainda mais perigoso do que o Adam daquela manhã.
Camille soltou um suspiro cansado, jogando o braço sobre os olhos para tentar afastar a memória.
Tão diferente de Lucas.
Se o destino colocasse Adam Bennett diante dela outra vez de verdade… ela não fazia ideia do que faria com o próprio coração. Alguns reencontros salvam. Outros destroem. Ela só não sabia ainda qual dos dois Adam seria.







