Mundo de ficçãoIniciar sessãoIsabela
A sala que Marta lhe apresentou era ampla, silenciosa e cercada por vidro, o que lhe permitia uma visão privilegiada do andar jurídico. Ela havia imaginado algo mais modesto, mas ali tudo parecia impecável — uma mesa de madeira escura com detalhes metálicos, um notebook de última geração, pastas organizadas por cor e um perfume sutil que parecia impregnar o ar: amadeirado, envolvente... masculino. Ela se sentou e deixou-se por um instante relaxar. Os ombros, tensos desde o táxi, finalmente baixaram. A presença de Leonardo ainda reverberava em seus pensamentos, como um sussurro em sua nuca. O jeito como ele a olhou, como se fosse capaz de enxergar cada fresta da sua alma. Nenhum homem a havia encarado daquela maneira. Não com lascívia. Não com compaixão. Era algo diferente. Um domínio silencioso. Isabela havia jurado para si mesma que não se envolveria mais com homens poderosos, controladores, emocionalmente indisponíveis. Sabia onde isso terminava. Mas também sabia que o desejo era uma coisa traiçoeira. Às vezes se infiltrava por entre as frestas mais protegidas, e o pior: fazia isso em silêncio. Ligou o computador e começou a abrir os arquivos enviados pela equipe de TI. Havia algo reconfortante em mergulhar no trabalho. A objetividade dos contratos, o desafio de encontrar brechas, o raciocínio lógico. Era como um refúgio da sua bagunça emocional. Por duas horas, não pensou em nada além de cláusulas, litígios e prazos. E isso lhe fez bem. Até que recebeu uma mensagem direta via sistema interno: Leonardo Santoro: "Precisa de ajuda com os contratos de fusão? Pode vir à minha sala às 15h." Isabela mordeu o lábio. Não pela dúvida, mas pelo nervosismo que o simples nome dele causava. Ela olhou o relógio. 14h52. Respirou fundo. Precisava ser profissional. Era isso. Apenas isso. O caminho até a sala dele pareceu mais longo. Bateu duas vezes. A voz dele respondeu do outro lado, grave e pausada: — Entre. Ao empurrar a porta, notou que o blazer dele estava sobre o encosto da cadeira. As mangas da camisa dobradas até os cotovelos revelavam antebraços fortes e tatuados — um detalhe que não esperava. Não havia nada no visual dele que gritasse rebeldia. Mas ali, nos traços marcados na pele, havia um grito silencioso. E sensual. — Doutora Isabela — ele disse, sem levantar da poltrona. — Sente-se. Ela se acomodou, mantendo a postura. Mas sua mente parecia flutuar. — Estes documentos — ele começou, deslizando uma pasta em sua direção — exigem precisão. O contrato com a multinacional japonesa será o seu primeiro grande desafio aqui. Isabela abriu o arquivo. Fingiu se concentrar. Mas sentia o olhar dele em si, queimando sua pele, mesmo quando ele não a olhava diretamente. A respiração dela ficou mais curta. — Senhor Santoro... — ela começou, erguendo os olhos para os dele — posso ser sincera? — Espero isso de você. Sempre. — Ele se inclinou, apoiando os antebraços sobre a mesa. — Sua empresa exige excelência. Eu entendo isso. E estou aqui para entregar o melhor. Mas se essa... tensão que existe entre nós comprometer meu trabalho, peço que o senhor a elimine agora. — Ela mal acreditava que estava dizendo aquilo. Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. Então, inclinou-se ainda mais, a voz mais baixa do que antes: — A tensão existe, Isabela. Negar seria mentir. Mas o controle... é algo que ambos vamos precisar cultivar. A pergunta é: você consegue? O nome dela em sua boca parecia um convite proibido. Ela engoliu seco. Não respondeu. Porque no fundo, ela sabia: conseguiria, sim. Mas não sem se perder um pouco no processo.






