Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs aulas da manhã passaram mais rápido do que eu imaginava.
Depois da Física veio Literatura. Em seguida, Química. Antes que eu percebesse, o sinal anunciando o intervalo ecoou pelos corredores da Westbrook.
Eu fechei meu caderno cuidadosamente, conferindo pela terceira vez se todas as folhas estavam dentro da pasta.
— Você sabe que elas não vão fugir, né? — Sofia comentou, já colocando a mochila em um dos ombros.
— Organização evita problemas.
Ela riu.
— Você devia transformar isso em um bordão.
Saímos da sala junto com o restante da turma.
No corredor, a escola parecia outra.
Os alunos que antes permaneciam em silêncio durante as aulas agora ocupavam todos os espaços. Risadas, conversas, mochilas jogadas pelos bancos, cheiro de café e pão de queijo vindo da cafeteria...
A Westbrook finalmente parecia uma escola de adolescentes.
Não apenas um lugar onde notas decidiam o valor de cada um.
Assim que chegamos ao pátio principal, Sofia acenou para um grupo próximo às árvores.
— Ali!
Seguimos até eles.
— Helena, você lembra da Júlia?
A garota sorriu.
Júlia era baixa, tinha cabelos cacheados presos em um coque improvisado e um sorriso fácil.
Ela fazia parte do clube de teatro.
— Claro.
— Esse é o Enzo.
Um garoto alto, de óculos redondos e aparência tranquila levantou a mão em cumprimento.
— Clube de robótica — Sofia explicou.
— E esse...
Ela apontou para um rapaz moreno que girava uma bola de basquete na ponta do dedo.
— É o Miguel.
Capitão do time depois que os veteranos se formaram.
Miguel sorriu.
— Helena.
Fiquei sabendo que você salvou metade da turma em Química ano passado.
— Eu só emprestei meus resumos.
— Exatamente. Você salvou metade da turma.
Sorri discretamente.
Sofia gostava de reunir pessoas completamente diferentes.
Não existia um padrão.
Ela simplesmente fazia amizade com todo mundo.
Enquanto conversávamos, um grupo atravessou o pátio fazendo mais barulho do que todos os outros juntos.
Nem precisei olhar para reconhecer Daniel.
Lucas caminhava ao lado dele.
Atrás dos dois vinham mais três garotos.
Um deles era enorme.
Outro usava o boné da escola virado para trás.
O terceiro carregava uma bola de basquete debaixo do braço.
E junto deles...
Uma garota loira caminhava como se todo o pátio fosse um desfile.
Uniforme perfeitamente ajustado.
Maquiagem impecável.
Cabelos ondulados.
Ela segurou o braço de Daniel naturalmente.
Ele afastou o braço com delicadeza.
Ela insistiu.
Ele apenas sorriu, mas continuou andando.
Sofia percebeu meu olhar.
— Bianca Ferraz.
Líder das líderes de torcida.
Rainha do drama.
Revirei os olhos.
— Ela parece simpática.
Sofia quase engasgou com o refrigerante.
— Essa foi boa.
— O que foi?
— Bianca acha que Daniel ainda é propriedade dela.
— Eles namoram?
— Nunca namoraram. Só ficaram durante alguns meses. Mas ela nunca aceitou que acabou.
Olhei novamente.
Bianca dizia alguma coisa enquanto Daniel respondia sem sequer diminuir o passo.
Ele parecia acostumado.
Era curioso.
Alguém com tanta fama parecia não gostar da atenção que recebia.
***— Ela está olhando para você de novo.
Lucas falou baixo o suficiente para apenas eu ouvir.
Olhei ao redor.
— Quem?
— Bianca.
Bufei.
— Ela nunca para.
Desde que resolvi colocar um ponto final naquilo que nem relacionamento tinha sido, Bianca parecia determinada a agir como se fôssemos um casal brigado.
O problema era que nunca fomos um casal.
Só dois adolescentes que passaram algumas semanas confundindo atração com alguma coisa maior.
Ela confundiu.
Eu não.
— Daniel.
Ela segurou meu braço outra vez.
— A gente ainda precisa conversar.
— Sobre?
— Sobre nós.
Lucas já começava a rir.
— Não existe "nós", Bianca.
Ela sorriu daquele jeito que sempre significava problema.
— Ainda.
Balancei a cabeça.
— Tenho aula.
— O intervalo acabou faz cinco minutos.
Droga.
Olhei para o relógio.
Era verdade.
Ela tinha conseguido me prender ali por tempo suficiente para perder a hora.
Lucas bateu no meu ombro.
— Corre, gênio.
Começamos a atravessar o corredor.
No caminho, passei pela biblioteca.
E, sem querer, meus olhos encontraram Helena outra vez.
Ela estava ajudando um garoto menor a encontrar um livro nas estantes.
Depois explicou alguma coisa sorrindo.
O garoto saiu praticamente pulando de felicidade.
Estranho.
Ela parecia muito diferente da imagem que eu fazia.
Achei que fosse daquelas pessoas que respiravam superioridade.
Mas não.
Ela simplesmente...
Gostava de ajudar.
Lucas percebeu que eu havia diminuído o passo.
— Cara...
Você vai acabar acreditando que ela existe.
Empurrei o ombro dele.
— Vai cuidar da sua vida.
***As últimas aulas passaram em um borrão.
Quando o sinal final tocou, peguei minha mochila antes que metade da turma sequer levantasse da cadeira.
— Oficina hoje? — Lucas perguntou.
Assenti.
— Até às dez.
— Sua mãe ainda não conseguiu diminuir os plantões?
Neguei com a cabeça.
— Hospital está sem pessoal.
Ele suspirou.
— Você vai acabar dormindo em pé.
— Já acostumei.
Saí da escola.
Minha moto continuava exatamente onde eu havia estacionado.
Coloquei o capacete e liguei o motor.
O ronco ecoou pelo estacionamento.
Enquanto saía, vi alguns alunos entrando em carros importados.
Motoristas particulares.
Pais esperando.
Eu sorri sozinho.
Minha realidade era outra.
***Quando o carro do meu pai parou em frente ao portão da escola, eu já o esperava na calçada.
Pontual.
Como sempre.
Entrei no banco de trás.
— Como foi o primeiro dia?
Meu pai perguntou sem desviar os olhos do trânsito.
— Tranquilo.
— Professores novos?
— Apenas um.
— Alguma novidade sobre vestibulares?
Sorri discretamente.
Nem cinco minutos de conversa.
Já estávamos falando sobre universidade.
— Ainda não.
Minha mãe virou o rosto no banco do passageiro.
Ela havia saído mais cedo do hospital apenas para me buscar.
— Helena. Esse ano será decisivo. Nós sabemos do seu potencial. Harvard continua sendo nossa prioridade.
Olhei pela janela.
As árvores passavam rapidamente.
— Eu sei.
— Suas notas precisam continuar impecáveis.
Assenti.
— Vão continuar.
Meu pai sorriu satisfeito.
— É disso que estou falando. Você nasceu para grandes coisas.
Era curioso.
Eles sempre falavam sobre meu futuro.
Mas nunca perguntavam o que eu realmente queria dele.
***Quando chegamos em casa, encontrei tudo exatamente como todos os dias.
A mesa posta.
A casa silenciosa.
Livros organizados.
Minha mãe voltou imediatamente para o consultório particular.
Meu pai entrou em seu escritório.
E eu subi para o quarto.
Joguei a mochila sobre a cadeira.
Abri a janela.
O céu começava a ganhar tons alaranjados.
Peguei meu caderno para revisar as anotações do dia.
Mas, pela primeira vez em muito tempo...
Minha concentração demorou a aparecer.
Sem entender por quê, lembrei do garoto que parecia desafiar todas as regras da escola.
Daniel Carter.
Fechei o caderno imediatamente.
Balancei a cabeça.
Que pensamento idiota.
Eu provavelmente jamais conversaria com ele.
***O cheiro de óleo e metal sempre me fazia sentir em casa.
A oficina do senhor Augusto era pequena.
Antiga.
Cheia de ferramentas espalhadas.
Motores desmontados.
Peças penduradas nas paredes.
Eu gostava dali.
Muito mais do que gostava da escola.
— Chegou cedo hoje.
Augusto comentou enquanto limpava as mãos em um pano.
— O movimento está tranquilo.
— Melhor ainda. Tem uma Harley esperando por você.
Sorri.
Passei a mão sobre o tanque da motocicleta.
— Bonita.
— E cara. Não derruba.
Ri.
Passei as próximas quatro horas desmontando peças, ajustando motores e fazendo aquilo que realmente gostava.
Quando terminei, já passava das dez da noite.
Minha mãe ainda não havia chegado.
Como quase sempre.
Deixei um bilhete sobre a mesa da cozinha dizendo que havia jantado.
Era mentira.
Mas ela trabalhava demais para ainda precisar se preocupar comigo.
Subi para meu quarto.
Joguei a mochila no chão.
Antes de dormir, abri novamente o caderno de desenhos.
Na última página vazia...
Sem pensar muito...
Comecei a desenhar.
Primeiro vieram alguns fios de cabelo.
Depois olhos.
Um uniforme escolar.
Quando terminei...
Fiquei encarando o papel por alguns segundos.
Era Helena Albuquerque.
Suspirei.
— Que droga...
Arranquei a folha.
Amassei.
Joguei no lixo.
E fui dormir repetindo para mim mesmo que aquilo não significava absolutamente nada.
Mal sabia eu...
Que aquele seria apenas o primeiro de muitos desenhos que tentaria esconder.







