Início / Romance / Entre Notas e Tempestades / Capítulo 6 — Entre Dois Mundos
Capítulo 6 — Entre Dois Mundos

Helena

O fim de semana passou mais devagar do que o normal. Ou talvez fosse apenas a expectativa pela reunião de segunda-feira. Eu tentava me convencer de que era apenas um trabalho escolar. Nada além disso. Mas, por algum motivo, minha mente insistia em imaginar como seria passar algumas horas ao lado de Daniel Carter.

Sábado foi tomado pelo cursinho preparatório. Domingo, pelas revisões semanais.

Minha rotina seguia exatamente igual à dos últimos anos. Acordar cedo. Estudar. Resolver exercícios. Ler. Planejar a semana. 

Minha agenda estava organizada em blocos de horários coloridos. Minha mãe costumava brincar que eu organizava até o tempo de respirar.

Naquela noite, depois do jantar, meu pai apareceu na porta do meu quarto.

— Posso entrar?

Fechei o livro.

— Claro.

Ele caminhou lentamente pelo cômodo observando a estante cheia de livros, as medalhas das olimpíadas acadêmicas e os certificados emoldurados.

— Tenho orgulho de você.

Sorri.

— Obrigada.

— Recebi um convite hoje.

Franzi a testa.

— Convite?

— Uma universidade americana fará uma visita ao Brasil no próximo semestre. Eles costumam oferecer bolsas parciais para alunos de destaque.

Meu coração acelerou. Harvard. Mais uma vez.

— Ainda falta quase um ano para a formatura.

— O tempo passa rápido.

Ele colocou uma pasta sobre minha mesa.

— Quero que comece a preparar sua candidatura.

Olhei para a pasta. Era grossa. Cheia de documentos. Cronogramas. Provas. Ensaios. Tudo já organizado. Como se meu futuro estivesse decidido.

— Pai...

Ele sorriu.

— Você nasceu para coisas grandes, Helena. Não tenha medo de sonhar alto.

Assenti.

Mas, depois que ele saiu do quarto... Continuei olhando para a pasta por vários minutos. Engraçado... Ninguém havia perguntado se aquele também era o meu sonho.

***

Segunda-feira chegou. E, pela primeira vez em muito tempo... Eu estava nervosa para ir à escola. Sofia percebeu antes mesmo de eu dizer bom dia.

— Você está ansiosa.

— Não estou.

— Está usando o relógio.

Olhei automaticamente para o pulso. Ela tinha razão. Eu só usava relógio em dias importantes. Revirei os olhos.

— Você repara em detalhes demais.

— Faz parte do meu charme.

Rimos.

As aulas da manhã passaram relativamente rápido. Quase todos os professores decidiram aproveitar o início do semestre para revisar conteúdos. Mas eu mal conseguia acompanhar. Toda vez que olhava o relógio... Faltava menos tempo para as quatro horas.

***

Quando o sinal anunciou o fim das aulas, meu estômago deu um pequeno nó.

Sofia me abraçou antes de ir embora.

— Boa sorte.

— Não vou para uma guerra.

Ela fez uma careta divertida.

— Ainda não sabemos.

***

Cheguei à biblioteca cinco minutos antes do combinado. Como sempre. Escolhi uma mesa próxima à janela. Organizei meus livros. Meu notebook. Meu estojo. Meu planner. 

Às quatro em ponto... Lucas apareceu.

— Eu falei que ela não atrasava.

Sorri discretamente.

— Oi.

— Oi.

Ele sentou na cadeira à minha frente. Um minuto depois... Daniel entrou.

Os cabelos ainda estavam levemente bagunçados pelo capacete. Ele carregava apenas um caderno e uma mochila pequena. Parou ao lado da mesa. Olhou para tudo que eu havia espalhado. Depois olhou para a própria mochila.

— Acho que alguém trouxe material suficiente para todos nós.

Senti meu rosto esquentar.

— Eu gosto de me organizar.

Ele puxou uma cadeira.

— Eu percebi.

Antes que eu pudesse responder, Bianca chegou.

— Desculpem o atraso.

Todos olharam para ela.

— Você chegou no horário.

Ela sorriu.

— Eu sei. Mas achei educado pedir desculpas.

Lucas abafou uma risada.

***

Durante alguns minutos ficamos tentando decidir por onde começar. Até que Daniel resolveu quebrar o silêncio.

— Então... Alguém sabe qual é exatamente o tema?

Abri a folha que o professor havia entregue.

— Precisamos desenvolver um projeto sobre impacto social através da tecnologia.

Lucas assobiou.

— Parece complicado.

— Não necessariamente.

Respondi.

— Podemos escolher um problema da comunidade e desenvolver uma solução tecnológica.

Daniel apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Tipo o quê?

Pensei por alguns segundos.

— Acessibilidade. Descarte de lixo. Educação. Mobilidade.

Bianca fez uma expressão de tédio.

— Isso parece trabalho de faculdade.

Daniel sorriu.

— Estamos quase lá.

Ela revirou os olhos. Foi a primeira vez que percebi que ele fazia piadas naturalmente. Não para aparecer. Mas porque parecia enxergar leveza onde todo mundo via tensão. 

Passamos quase uma hora discutindo ideias. E, para minha surpresa... Daniel participava muito mais do que eu imaginava. Sempre que alguém sugeria alguma coisa, ele fazia perguntas. Pensava em soluções. Apontava problemas. 

Em determinado momento, desenhou rapidamente uma estrutura no canto da folha. Olhei sem querer. Era um protótipo. Muito bem feito.

— Você desenhou isso agora?

Perguntei antes mesmo de pensar. Ele pareceu surpreso. Como se não esperasse que eu reparasse.

— Sim.

Peguei a folha. As linhas eram precisas. As proporções quase perfeitas.

— Você desenha muito bem.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Depois deu de ombros.

— É só um hobby.

Não era. Eu tinha certeza. Aquele desenho tinha qualidade demais para ser apenas um passatempo. 

Lucas sorriu discretamente. Como se estivesse feliz por alguém finalmente notar aquilo.

***

Daniel

Quando saímos da biblioteca, já estava escurecendo. Lucas caminhava ao meu lado.

— Então?

Olhei para ele.

— Então o quê?

— Mudou de ideia sobre ela?

Pensei por alguns segundos. Mudei. Bastante. Achei que Helena fosse arrogante. Não era. Achei que fosse daquelas pessoas que corrigiam todo mundo. Também não. Na verdade... Ela ouvia muito mais do que falava. E, quando falava... Sempre tentava incluir a opinião de todos.

— Ela é legal.

Falei quase sem perceber. Lucas abriu um sorriso enorme.

— Eu gravei isso na memória.

Revirei os olhos.

— Não exagera.

— Você acabou de elogiar alguém. Isso merece registro histórico.

Ri. Talvez merecesse mesmo. Porque eu não costumava mudar de opinião sobre as pessoas tão rapidamente.

Mas Helena Albuquerque... Definitivamente não era quem eu imaginava. E, pelo jeito que ela olhou meus desenhos... Talvez eu também não fosse exatamente quem ela esperava encontrar.

Sem que nenhum de nós percebesse... A primeira barreira entre nossos dois mundos havia acabado de cair.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App