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Entre Notas e Tempestades
Entre Notas e Tempestades
Por: Isa F.
Capítulo 1 — O Primeiro Dia do Último Ano

Helena

Existe uma regra que eu sigo desde os meus seis anos de idade:

Se você chegar cinco minutos antes, nunca estará atrasada.

Foi pensando nisso que entrei pelos portões da Academia Westbrook às sete e quinze da manhã, quarenta e cinco minutos antes do início das aulas.

O campus ainda estava silencioso.

Alguns alunos atravessavam os jardins carregando mochilas, outros conversavam perto da cafeteria, enquanto os funcionários terminavam de organizar as salas para o início do último ano letivo.

O último.

A palavra ainda parecia estranha.

Eu havia esperado tanto por esse momento... e, ao mesmo tempo, ele parecia assustador.

Depois daquele ano, tudo mudaria.

Vestibulares.

Universidade.

Adultos.

Responsabilidades.

Meu pai dizia que aquele seria o ano mais importante da minha vida.

Minha mãe dizia que um único deslize poderia comprometer meu futuro.

Eu preferia não pensar nisso.

Respirei fundo, ajustando a gravata azul-marinho do uniforme.

Saia na altura dos joelhos.

Camisa branca perfeitamente passada.

Blazer azul.

Sapatos engraxados.

Tudo exatamente como deveria ser.

Era impossível entrar na Westbrook sem sentir o peso da tradição.

Os prédios de tijolos aparentes, cobertos por heras antigas, lembravam universidades inglesas.

As bandeiras da escola balançavam suavemente com o vento da manhã.

Ao fundo, a torre do relógio marcava sete e vinte.

Peguei meu celular apenas para conferir o cronograma que havia organizado durante as férias.

Primeira aula: Física.

Depois Literatura.

Química.

Álgebra.

Treino do clube de ciências.

Reunião da comissão estudantil.

Tudo anotado.

Tudo planejado.

— Você fez uma planilha para o primeiro dia?

Levantei os olhos.

Sofia.

Ela caminhava em minha direção segurando um copo enorme de café e um croissant praticamente do tamanho da própria cabeça.

— Não fiz uma planilha.

— Então isso aí é o quê?

Ela apontou para a tela do meu celular.

Suspirei.

— Um cronograma.

Ela riu.

— Você sabe que cronograma é praticamente uma planilha sem células, né?

Sorri de lado.

Era impossível discutir lógica com Sofia.

Ela era minha melhor amiga desde o sexto ano.

Enquanto eu organizava a vida por horários, ela organizava por... improviso.

Enquanto eu lia livros sobre astronomia, ela decorava músicas.

Enquanto eu passava o sábado estudando, ela passava tentando me convencer a sair.

Nunca funcionava.

Ou quase nunca.

Ela passou o braço pelos meus ombros.

— Senti sua falta nas férias.

— Você me ligou todos os dias.

— Exatamente.

Porque senti sua falta.

Revirei os olhos.

— Você é dramática.

— Você que é emocionalmente analfabeta.

— Isso nem faz sentido.

— Faz sim.

Ela mordeu o croissant.

— Último ano, Helena.

Não dá para viver só estudando.

Olhei para o prédio principal.

Talvez ela tivesse razão.

Mas estudar era a única coisa que eu sabia fazer realmente bem.

Desde pequena, aprender havia sido minha forma de conquistar aprovação.

Primeiro dos professores.

Depois dos meus pais.

Hoje... era quase automático.

As pessoas me conheciam antes mesmo de falar comigo.

"Helena Albuquerque."

Primeira da turma.

Representante estudantil.

Presidente do clube de ciências.

A garota das notas perfeitas.

Era engraçado.

Todo mundo sabia das minhas notas.

Pouquíssimos sabiam qual era minha cor favorita.

***

O estacionamento começou a ficar movimentado.

Carros importados chegavam um atrás do outro.

Motoristas particulares.

Pais apressados.

Alunos bocejando.

Então aconteceu.

Um ronco de motor cortou completamente o silêncio da manhã.

Todos olharam para a entrada da escola.

Inclusive eu.

Uma motocicleta preta atravessou lentamente o portão.

O segurança nem tentou impedir.

Apenas balançou a cabeça como quem já esperava por aquilo.

O piloto retirou o capacete.

Cabelos escuros.

Bagunçados.

Jaqueta de couro jogada por cima do uniforme.

Gravata completamente torta.

Camisa com os primeiros botões abertos.

Ele estacionou ao lado das bicicletas como se não existisse qualquer regra sobre onde veículos deveriam ficar.

Algumas meninas começaram imediatamente a cochichar.

Outras sorriram.

Um grupo de garotos levantou as mãos para cumprimentá-lo.

Sofia soltou um suspiro exagerado.

— Lá vem o caos em forma de ser humano.

— Quem?

Ela me olhou incrédula.

— Você passou as férias numa caverna?

Olhei novamente para o rapaz.

Ele retirava a mochila de qualquer jeito, ignorando completamente o inspetor que caminhava em sua direção.

— Daniel Carter.

Fiquei alguns segundos tentando lembrar.

O nome era familiar.

Muito familiar.

Então veio a memória.

Segundo ano.

Uma suspensão por brigar durante um campeonato.

Depois outra por matar aula.

Mais uma por subir no telhado da escola durante uma aposta.

— Ah...

— Exatamente esse "ah".

Observei enquanto o inspetor começava a falar alguma coisa.

Daniel apenas colocou uma das mãos no bolso, ouviu por alguns segundos e abriu um sorriso debochado.

Mesmo de longe dava para perceber.

Ele respondeu alguma coisa.

O inspetor respirou fundo.

E desistiu.

Sofia gargalhou.

— Impressionante.

— O quê?

— Ele consegue irritar as pessoas antes mesmo da primeira aula.

Voltei a olhar para o celular.

Não fazia sentido gastar energia pensando naquele garoto.

Nossos mundos eram completamente diferentes.

Eu provavelmente passaria o ano inteiro sem trocar uma única palavra com ele.

Era o mais lógico.

***

Daniel

A primeira coisa que aprendi sobre a Westbrook foi simples.

Todo mundo ali fingia ser alguém.

Filhos perfeitos.

Alunos perfeitos.

Famílias perfeitas.

Eu nunca tive paciência para teatro.

Estacionei a moto ignorando o sermão do inspetor.

Ele repetia exatamente as mesmas frases desde o primeiro ano.

— Carter, uniforme incompleto.

— Carter, gravata.

— Carter, horário.

— Carter, exemplo para os outros alunos.

Sorri.

— Bom dia para você também, senhor Martins.

Ele bufou.

Funcionava todas as vezes.

Peguei a mochila e caminhei pelo pátio.

Lucas apareceu quase imediatamente.

— Achei que você ia faltar no primeiro dia.

— Pensei nisso.

— E por que veio?

Olhei para o prédio principal.

Último ano.

Só mais alguns meses.

Depois disso...

Liberdade.

Ou pelo menos eu esperava.

— Minha mãe ia me matar.

Lucas riu.

— Justo.

Enquanto caminhávamos, meus olhos passaram rapidamente pelos alunos espalhados pelo jardim.

Até pararem, sem que eu entendesse por quê.

Uma garota estava perto da escadaria principal.

Uniforme impecável.

Cabelos castanhos caindo sobre os ombros.

Um celular nas mãos.

Ao lado dela, uma garota falava sem parar enquanto ela apenas sorria discretamente.

Lucas percebeu meu olhar.

— Não acredito.

— O quê?

— Você olhando para Helena Albuquerque.

Desviei os olhos imediatamente.

— Nem sei quem é.

— Claro que sabe.

A CDF mais famosa da escola.

Primeira da turma desde sempre.

A garota que provavelmente nasceu sabendo fazer equações.

Dei de ombros.

— Parece divertida.

Lucas riu alto.

— Cara... essa foi a mentira mais fraca que você já contou.

Balancei a cabeça, seguindo em direção ao prédio.

Talvez ele tivesse razão.

Porque, pela primeira vez em muito tempo...

Alguma coisa havia chamado minha atenção naquela escola.

E eu ainda nem fazia ideia de que aquele seria o início da maior confusão da minha vida.

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