Mundo de ficçãoIniciar sessãoEthan
A notícia chegou pela voz apressada de uma das meninas no corredor. Eu estava na sala, livro aberto no colo, tentando fingir que lia. Tentando ignorar o vazio estranho que tudo parecia carregar desde aquela manhã. — Sarah foi embora, sabia? — ela disse, rindo como quem conta uma fofoca imperdível. — Pegou as coisas e foi pra Londres. Nem se despediu. Por um segundo, achei que tinha ouvido errado. O livro escorregou dos meus dedos e caiu no chão com um baque seco. A garota ainda dizia alguma coisa, mas eu já não conseguia prestar atenção. O sangue parecia ter desaparecido do meu corpo inteiro. Sarah foi embora. Não perguntei mais nada. Não precisei. Já sabia o suficiente. Levantei devagar, sentindo o peito apertar de um jeito estranho, quase doloroso, e caminhei até a cozinha. Cada passo parecia mais pesado do que deveria. Minha cabeça girava enquanto memórias daquela noite voltavam em flashes desconexos. Os cabelos dela espalhados no travesseiro. Os dedos agarrando minha camisa. A forma como ela sussurrou "eu te amo" no escuro. Fechei os olhos rapidamente. Droga. Jack estava na cozinha, como sempre, encostado no balcão, girando a tampa de uma garrafa entre os dedos. Parecia completamente alheio ao mundo, como se nada fosse capaz de alcançá-lo de verdade. O rádio baixo tocava alguma música qualquer enquanto ele mexia no celular com a mesma calma irritante de sempre. Senti uma raiva instantânea crescer dentro de mim. — Jack. — Minha voz saiu mais alta do que eu planejava. Ele ergueu uma sobrancelha sem nem levantar os olhos direito. — Fala, irmãozinho. Eu odiava quando ele me chamava assim. Cruzei os braços, tentando controlar a tensão nos ombros. — Ela foi embora. Jack finalmente desviou a atenção do celular. — Quem? — Sarah. Tá em Londres. Por um instante — só um — vi o olhar dele vacilar. Pequeno. Quase imperceptível. Mas eu conhecia Jack melhor do que qualquer pessoa. Conhecia cada expressão falsa, cada sorriso usado para esconder o que realmente sentia. E aquele segundo de hesitação significava alguma coisa. Só que logo o sorriso apareceu. Aquele sorriso torto, arrogante, perfeitamente ensaiado. — Drama, Ethan. Pura encenação. Senti o sangue ferver imediatamente. — Que merda você fez? Jack soltou uma risada baixa e balançou a cabeça como se eu estivesse exagerando. — Eu? Nada. Foi ela que inventou que a gente dormiu junto. Meu corpo inteiro tensionou. — Como assim, inventou? Vocês dormiram juntos? — avancei um passo. — Ethan, pelo amor de Deus. — Jack jogou a tampa da garrafa na bancada com impaciência. — Ela sempre foi apaixonada por mim. Sempre quis que rolasse alguma coisa. Só que… não rolou. E eu nem estava no meu quarto ontem à noite! As palavras fizeram o ar desaparecer dos meus pulmões. Eu encarei ele sem piscar. — Ontem à noite? Jack arqueou as sobrancelhas, como se fosse a pergunta mais idiota do mundo. — Exatamente. E eu estava com Aileen. Meu estômago virou. — O quê? — Pensei em ligar pra ela ir até meu quarto, mas quando cheguei lá tava trancado. — Ele deu de ombros. — Imaginei que algum casal desavisado estivesse se pegando por lá. Não é como se eu nunca tivesse feito isso. Jack riu sem o menor pudor. — Então fui atrás da Aileen. Ela sempre está disponível pra mim, você sabe. O chão pareceu balançar debaixo dos meus pés. Minha mão se apoiou automaticamente na bancada enquanto minha cabeça começava a girar. O coração batia tão forte que chegava a doer. Não. Não, não, não. As peças começaram a se encaixar rápido demais. Sarah entrando no quarto escuro. A voz dela tremendo. Os beijos desesperados. O jeito como ela me abraçou como se aquilo significasse tudo. Meu Deus. — Meu Deus… — sussurrei, sentindo a garganta secar. — Eu… eu fiz a maior burrada da minha vida. Jack franziu a testa imediatamente. — O que você tá dizendo, Ethan? Mas eu já quase não ouvia mais. Minha cabeça fervia. As lembranças vinham uma atrás da outra agora, cruéis demais para serem ignoradas. O jeito como Sarah me olhava às vezes, mesmo tentando esconder. A forma como a voz dela mudava sempre que falava do Jack. E eu… idiota… sempre acreditando que poderia competir com meu irmão. Talvez porque fosse mais fácil assim, me esconder atrás da ideia de que ela um dia olharia pra mim daquela forma. E naquela noite… Ela olhou. Mesmo pensando que eu era outra pessoa. A culpa atingiu meu peito tão forte que quase me fez perder o ar. Sarah foi embora acreditando que Jack tinha desprezado ela. Achando que tinha sido usada. Enquanto eu… eu deixei aquilo acontecer. Jack se aproximou devagar, claramente percebendo que havia alguma coisa muito errada. — Ethan. O que aconteceu naquela noite? Levantei os olhos lentamente para ele. Pela primeira vez em muito tempo, vi meu irmão sem aquela sombra de admiração infantil que carreguei a vida inteira. Jack sempre foi o cara bonito, confiante, desejado. O garoto que conseguia tudo sem esforço. E eu sempre fui o irmão mais quieto, escondido atrás dos livros, vivendo à margem do brilho dele. Mas naquele momento, pela primeira vez, não senti inveja. Só senti raiva. Raiva dele. Raiva de mim. E principalmente da forma como tudo tinha acontecido. Sem responder, saí da cozinha antes que ele insistisse mais. Naquela noite, deitado na cama do meu quarto, encarei o teto por horas sem conseguir dormir. O silêncio parecia esmagador. Toda vez que fechava os olhos, via o rosto da Sarah. O sorriso dela. As lágrimas. A decepção. E uma única pergunta girava na minha cabeça, pesada, urgente e impossível de ignorar: O que eu fiz com ela? E pior… O que eu fiz comigo mesmo?






