Mundo de ficçãoIniciar sessãoSarah
Quando o táxi parou em frente ao prédio da minha mãe, eu quase pedi pro motorista continuar andando. Meu coração batia no peito como se eu estivesse fugindo de um crime ou de mim mesma. Londres parecia mais fria do que eu lembrava. Observei pela janela embaçada o prédio familiar, as sacadas estreitas, as luzes amareladas dos apartamentos e as pessoas caminhando pela rua com pressa, protegidas em casacos longos. Tudo ali era tão conhecido que chegava a doer. Eu deveria me sentir em casa. Mas não sentia. Minhas mãos apertaram a alça da bolsa quando vi minha mãe aparecer na porta do prédio, acenando animadamente. O sorriso dela sempre pareceu grande demais para qualquer situação, como se fosse impossível existir tristeza perto dela por muito tempo. Quando desci do táxi, ela praticamente correu até mim. — Minha menina! Você voltou pra casa! O abraço veio forte, quente, sufocante. O perfume doce dela — baunilha e lavanda — me envolveu imediatamente, trazendo lembranças da infância, de tardes chuvosas e filmes antigos no sofá. Por um segundo, tive vontade de chorar ali mesmo. — Só por um tempo, mãe… — murmurei, forçando um sorriso cansado. Ela segurou meu rosto entre as mãos, me analisando como se tentasse descobrir tudo o que eu não estava dizendo. — Você está tão pálida. E magra! Meu Deus, você não anda se alimentando direito? Soltei uma risada fraca. Nada passava despercebido pela minha mãe. Mark surgiu logo atrás dela, pegando minha mala do porta-malas antes mesmo que eu pudesse protestar. Ele me lançou aquele olhar tranquilo de sempre, seguido de um beijo leve na testa. — Bom te ver em casa, garota. Mark nunca falou muito. Nunca tentou ocupar espaços que não eram dele. Mas desde que entrou na nossa vida, sempre existiu aquela presença silenciosa dizendo “tô aqui se precisar”. Às vezes, só isso bastava. Subimos para o apartamento enquanto minha mãe falava sem parar sobre coisas aleatórias — o elevador que vivia quebrando, uma vizinha nova que reclamava de tudo, o mercado da esquina que finalmente tinha fechado. Eu respondia no automático. Porque, por dentro, minha cabeça ainda estava em outro lugar. Na voz debochada de Jack. “Talvez você tenha sonhado, princesa.” Meu estômago revirou só de lembrar. Assim que entramos no apartamento, o cheiro familiar de lavanda me atingiu de novo. Nada tinha mudado. O sofá bege continuava no mesmo lugar, as almofadas perfeitamente alinhadas, a cozinha impecavelmente limpa. Era estranho como o tempo parecia intacto ali dentro, enquanto eu sentia que tinha envelhecido anos em apenas uma noite. — Vou preparar algo pra você comer — minha mãe anunciou, já caminhando para a cozinha. — Você deve estar faminta depois da viagem. — Mãe, eu tô bem… — Sem discussão. Troquei um olhar rápido com Mark, que apenas sorriu de lado como quem dizia “é inútil argumentar”. Durante o jantar, tentei sobreviver à enxurrada de perguntas sem entregar demais. Minha mãe falava sobre o trabalho, sobre o clima, sobre como Londres estava cheia de turistas ultimamente. — E você? Como estão as coisas na universidade? — ela perguntou casualmente enquanto servia mais chá. Meu corpo inteiro tensionou. — Normais. Mentira. Nada parecia normal desde aquela manhã. — Fez muitos amigos? — ela continuou. Kate. Pensei imediatamente nela. Na verdade, Kate era a única coisa boa que eu tinha levado daquela cidade. — Fiz, sim. Minha mãe sorriu satisfeita, completamente alheia ao caos acontecendo dentro de mim. Passei o restante do jantar empurrando comida pelo prato, ouvindo vozes como ruído distante. De vez em quando, Mark me observava em silêncio, como se percebesse que havia alguma coisa errada, mas sem pressionar. E eu agradecia por isso. Porque se alguém me perguntasse de verdade o que aconteceu, eu provavelmente desmoronaria. Quando finalmente consegui me refugiar no quarto, fechei a porta devagar e apoiei as costas nela, soltando o ar preso nos pulmões. Silêncio. Joguei a bolsa no chão e me sentei na cama, encarando o celular vibrando sem parar. Kate. Respirei fundo antes de atender a chamada de vídeo. O rosto dela apareceu quase instantaneamente na tela, descabelada, usando um moletom enorme e segurando uma caneca. — Amiga?! — ela praticamente gritou. — Você fugiu mesmo?! Apesar de tudo, acabei rindo baixo. — Eu não fugi. — Ah, claro. Pegou um avião internacional por esporte. Revirei os olhos. — Eu… precisava respirar. Não aguentava mais ficar lá depois de ontem. Kate suspirou imediatamente, o humor diminuindo. — Jack é um idiota. Isso a gente já sabia. Meu peito apertou outra vez. Ouvir aquilo em voz alta fazia tudo parecer ainda mais humilhante. — Mas fugir não vai fazer ele desaparecer — ela completou. Desviei os olhos da tela. — Não tô fugindo dele, Kate. Tô fugindo de mim mesma. Ela ficou em silêncio por um instante antes de apontar um dedo pra câmera. — Aí ferrou, amiga. Porque você sempre vai estar aí, né? Soltei uma risada abafada entre as lágrimas. Era impossível não amar Kate. Conversar com ela era como voltar a respirar depois de ficar tempo demais debaixo d’água. Quando desliguei, o quarto pareceu menos pesado. Larguei o celular na mesa de cabeceira e me joguei na cama, encarando o teto. Pela primeira vez desde que acordei naquela cama estranha, me senti menos tensa. Como se a distância entre o hoje e aquela noite finalmente começasse a abrir espaço para alguma coisa nova. Ou pelo menos para silêncio. Ajeitei o travesseiro sob a cabeça, sentindo o cheiro familiar da infância misturado ao amaciante suave que minha mãe sempre usava. Fechei os olhos lentamente. Minha respiração desacelerou aos poucos, enquanto o cansaço finalmente começava a vencer a dor. E pela primeira vez em dias, adormeci sem precisar lutar contra os pensamentos. Apenas deixando o futuro chegar devagar.






