Mundo de ficçãoIniciar sessãoLeonardo
Francesco nos observou em silêncio, aqueles olhos escuros nos avaliando como fazia com seus adversários antes de decidir se eram aliados ou ameaças.
— Bom — ele começou finalmente, a voz calma mas carregada de autoridade. — Já faz tempo que precisamos conversar sobre isso. Nunca pensei que precisaria chamar a atenção de vocês, mas aparentemente preciso.
Engoli em seco. Ao meu lado, Luigi permaneceu imóvel, mas pude sentir a tensão emanando dele como ondas de calor.
— Primeiro de tudo, Leonardo.
Droga. Os olhos do meu pai se fixaram em mim como dois canos de revólver apontados diretamente para a minha testa.
— O Marco me disse que ontem você trouxe uma mulher para casa.
Maldito segurança. Não perdeu tempo.
— Pai, eu...
Ele levantou a mão, me silenciando com um gesto que não admitia contestação.
— Já falei que antes de casarem podem viver a vida como quiserem. Não sou idiota, sei que são homens. Mas não é para trazer aqui. — A voz dele endureceu como aço temperado. — Ainda mais com a futura esposa de um de vocês dois morando sob este teto. Como ela vai querer algum de vocês se vir vocês trocando de mulher toda noite? Ela vai pensar que farão o mesmo depois de casados. E eu prometi ao Salvatore que o marido dela a respeitaria.
Cada palavra caía como uma pedra no meu estômago. Ele tinha razão. Completamente. Eu tinha sido um idiota.
— Desculpe, pai. Não vai acontecer de novo.
— Ótimo. — Ele assentiu, mas a expressão permaneceu dura. — Agora, ao ponto principal desta conversa.
Francesco se recostou na cadeira, os dedos entrelaçados sobre a mesa.
— Daqui a alguns meses ela fará dezoito anos. E não vi nenhum de vocês se aproximando, tentando interagir com a garota. Cadê os conquistadores que vocês se gabam de ser? Vou ter que ensinar como se conquista uma mulher?
A ironia na voz dele era cortante como uma lâmina.
— Valentina mal fala com vocês. Como ela vai escolher entre dois estranhos? Ela passa o dia sozinha ou com as amigas, dançando naquele estúdio, montando nos cavalos. Vocês trabalham e, quando voltam, vão direto para seus quartos. Isso muda hoje.
Ele se levantou, apoiando as mãos largas na mesa e inclinando-se para nós com uma intensidade que fez minha coluna endurecer.
— Não me importa qual dos dois ela vai escolher. Sinceramente, não estou nem aí. Mas ela tem que querer. Preciso de um neto com o sangue dela e de um de vocês. Preparei vocês dois igualmente. Conhecem as regras. Sabem o que está em jogo.
Ele voltou a se sentar, recostando-se na cadeira de couro com um suspiro pesado.
— Ela, além de ser filha do Don anterior, receberá uma fortuna imensa aos dezoito anos. Esse casamento só tem benefícios. Fora que a moça é linda, bem criada, pura e honrada. O que mais vocês querem?
O silêncio que se seguiu foi denso. Ele estava certo em cada palavra. Valentina era tudo isso e mais. O problema era que, até ontem de tarde, eu a via apenas como uma obrigação futura. Uma peça no tabuleiro. Mas a imagem dela na piscina — e depois parada na porta do meu quarto — mudou tudo de uma forma que eu ainda estava tentando processar.
— Hoje é sábado — Don Francesco declarou, e havia algo definitivo no tom. — Leonardo, você vai passar o dia com ela.
— Eu? Hoje?
— Sim, você. Hoje. E você amanhã, Luigi. — Ele olhou para meu irmão. — E façam isso todo final de semana daqui para frente. Revezem. Levem ela para passear, mostrem a propriedade, a adega, ensinem a atirar... não sei. Conversem. Façam ela rir. Conquistem a garota de verdade.
Ele pausou, e seus olhos se estreitaram em um aviso que era absolutamente letal.
— Só um detalhe muito importante. Não tirem a virgindade da moça antes dela completar dezoito anos. Entendido?
— Entendido — Luigi e eu respondemos em uníssono.
— O resto... — Don Francesco deu um meio sorriso que tinha algo de perigoso. — Estão liberados.
Saímos do escritório como dois condenados recebendo sentença. A porta se fechou com um clique definitivo atrás de nós. Luigi se virou para mim no corredor, e um sorriso lento e competitivo se espalhou pelo rosto dele — aquele sorriso que eu conhecia desde criança e que sempre significava problema.
— Que comecem os jogos, fratello.
— Não é um jogo — respondi, mas minha voz não soou convincente nem para mim mesmo.
— Não? O pai acabou de nos dar luz verde. Se isso não é um jogo, não sei o que é. — Luigi cruzou os braços, apoiando-se na parede. — E você ouviu, né? "O resto estão liberados". Só não pode o prêmio principal antes da data. Mas o resto? Tudo permitido.
A forma como ele disse isso me irritou mais do que deveria. Como se Valentina fosse apenas um troféu a ser conquistado. Mas não era? Até ontem era exatamente isso que ela representava para mim.
— Boa sorte hoje — Luigi disse, batendo no meu ombro com força desnecessária antes de subir as escadas.
Fiquei ali parado por um momento, processando. Valentina estava provavelmente no estábulo a essa hora — ela sempre ia montar nas manhãs de sábado. Anita tinha mencionado isso uma vez quando perguntei casualmente sobre a rotina dela.
Ajeitei a camisa, respirei fundo e caminhei em direção aos fundos da propriedade. Era hora de conhecer Valentina Romano de verdade. E que Deus me ajudasse, porque Luigi claramente não ia facilitar nada.







