Mundo ficciónIniciar sesiónLeonardo
O estábulo ficava a uns quinhentos metros da villa principal, uma construção imponente de pedra e madeira que abrigava os melhores cavalos árabes e puro-sangue da Sicília. Francesco sempre teve obsessão por cavalos — dizia que eram a única coisa em que se podia confiar completamente além de família.
Quando cheguei, o lugar estava silencioso exceto pelo som ocasional de um cavalo relinchando suavemente. Entrei, meus olhos se ajustando à penumbra do interior que cheirava a feno fresco e couro.
— Valentina? — chamei, minha voz ecoando pelas paredes de madeira envelhecida.
Silêncio.
Caminhei pelos boxes verificando cada um. Até que cheguei ao box de Nero — o garanhão árabe preto que Francesco tinha dado a Valentina no aniversário de quinze anos dela.
Vazio.
Ela já tinha saído pra cavalgar.
Olhei pela abertura dos fundos do estábulo e avistei, bem ao longe, uma figura cavalgando pelos campos que se estendiam até as colinas. Cabelos loiros brilhando sob o sol da manhã como um farol dourado.
Droga.
Olhei pra Apollo, meu garanhão cinza. Ele me observava com aqueles olhos inteligentes, as orelhas eretas, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando e julgasse minhas decisões.
— Parece que vamos cavalgar, amigo — murmurei, pegando a sela.
Cinco minutos depois, estava montado e seguindo na direção que Valentina tinha tomado. Mantive distância considerável — longe o suficiente pra não ser notado, mas perto o suficiente pra não perder ela de vista completamente. Não sabia bem por que estava fazendo isso. Deveria ter esperado ela voltar, iniciado uma conversa normal no estábulo como uma pessoa civilizada faria.
Mas havia algo na ideia de observá-la quando ela não sabia que estava sendo vista. Quando ela era completamente livre e natural. Sem máscaras. Sem a formalidade que sempre existia entre nós.
Assim como ela me observou ontem à noite.
A ironia não passou despercebida.
Valentina cavalgava bem. Muito bem. O corpo dela se movia em perfeita sincronia com Nero, como se fossem uma única criatura. Ela seguia por um caminho que eu conhecia desde criança — levava até a cachoeira escondida nas colinas, um lugar que poucos sabiam que existia dentro dos limites da propriedade. Um refúgio secreto.
Continuei seguindo, mantendo Apollo num trote controlado, sempre usando as árvores antigas e o terreno acidentado como cobertura. O sol estava quente nas minhas costas, e o cheiro de terra e vegetação enchia o ar.
Quinze minutos depois, o som da água se tornou audível — aquele barulho constante e relaxante de cachoeira que eu conhecia tão bem. Valentina diminuiu o ritmo, guiando Nero por entre as árvores até a clareira onde a água caía numa piscina natural cristalina, cercada por rochas antigas cobertas de musgo e vegetação densa que criava uma privacidade quase absoluta.
Parei Apollo atrás de um conjunto denso de arbustos e ciprestes, bem longe da clareira. Desci com cuidado, amarrando as rédeas num galho grosso. Apollo bufou baixinho, e eu afaguei o pescoço dele num pedido silencioso de silêncio.
Avancei a pé, movendo-me com o cuidado que aprendi em anos de caçadas. Cada passo era calculado pra não fazer barulho, não quebrar galhos, não revelar minha presença.
Cheguei numa posição onde tinha visão clara da clareira, escondido atrás de um tronco largo e arbustos densos. Valentina estava desmontando com a graça natural dela, os movimentos fluidos e confiantes de quem fez isso mil vezes.
Ela afagou o pescoço de Nero com ternura, os dedos deslizando pela crina preta e sedosa do garanhão enquanto murmurava algo que eu não conseguia ouvir daqui. Mas o tom de voz era doce, carinhoso. O tipo de tom que ela nunca usava quando cruzava comigo nos corredores da villa.
— Você é tão lindo, meu menino — ouvi ela dizer agora, mais alto, enquanto amarrava as rédeas num galho baixo. — Tão perfeito. A melhor companhia que eu poderia ter.
Havia uma solidão naquelas palavras que me atingiu de forma inesperada. Valentina passava a maior parte do tempo sozinha. Sempre tinha sido assim. Nós — Luigi e eu — estávamos sempre ocupados demais com os negócios. Francesco tentava, mas mesmo ele tinha responsabilidades que o mantinham afastado. Sobravam Anita, as poucas amigas aprovadas, os cavalos e a dança.
Ela se afastou de Nero e olhou ao redor da clareira — um movimento lento e cuidadoso da cabeça, os olhos azuis verificando cada sombra, cada movimento entre as árvores. Procurando sinais de que não estava sozinha.
Meu coração acelerou. Prendi a respiração. Eu estava bem escondido, mas ainda assim...
Satisfeita com a solidão, ela se sentou numa rocha plana e começou a tirar as botas de montaria. Primeiro a esquerda, depois a direita, deixando elas de lado com cuidado. Depois as meias, revelando os pés descalços que afundaram na grama macia com um suspiro quase audível de prazer.
Então as mãos dela foram pro botão do shorts de montaria.
Eu deveria ir embora. Agora. Antes que isso virasse algo irreversível.
Mas meus pés estavam grudados no chão como se tivessem criado raízes.
Ela deslizou o shorts pelos quadris e pernas, deixando cair na grama ao lado das botas. Biquíni preto. Ela estava usando um biquíni preto por baixo. O tecido contrastava intensamente com a pele bronzeada pelo sol siciliano.
Depois foi a vez da blusa. Ela puxou pela cabeça num movimento fluido, sacudindo os cabelos loiros que caíram em cascata sobre os ombros nus.
Apenas o biquíni agora. O corpo que eu tinha visto ontem na piscina estava ali de novo, mas de alguma forma ainda mais impactante na luz natural da manhã, sem as amigas ao redor, sem nada além do som da água e do vento nas folhas.
Valentina caminhou até a borda da água com passos lentos e deliberados. Parou ali, os dedos dos pés tocando a superfície cristalina. Olhou ao redor mais uma vez — aquele movimento cauteloso de quem quer ter certeza absoluta de que está sozinha.
E então as mãos dela foram pras costas.
Não. Ela não vai...
Mas foi.
Ela desamarrou a parte de cima do biquíni com movimentos naturais, sem pressa. O tecido caiu pra frente, e ela segurou nas mãos por um segundo antes de jogar junto com as outras roupas na grama.
Meu cérebro parou de processar informações racionais.
Ela estava de costas pra mim ainda, mas mesmo assim a visão era... Madonna mia! A curva perfeita da coluna, a pele lisa e bronzeada, os cabelos loiros caindo em ondas pelas costas.
Mas em vez de entrar na água imediatamente, Valentina fez algo inesperado. Ela se deitou na grama macia próxima à margem, os braços estendidos ao lado do corpo, o rosto virado pro sol que filtrava entre as copas das árvores.
Tomando sol.
Ela estava apenas... tomando sol. Relaxada. Livre. Completamente confortável na própria pele de uma forma que eu nunca tinha visto ninguém ser.
Os minutos passaram. Três. Cinco. Talvez dez. Eu perdi a noção. Meu corpo estava tenso como uma corda de violino prestes a se romper, cada músculo rígido com o esforço de permanecer imóvel e silencioso.
Ir embora. Eu precisava ir embora. Agora.
Mas estava paralisado. Congelado. Como se algum tipo de feitiço antigo tivesse me prendido naquele lugar, incapaz de fazer qualquer coisa além de observar.
Finalmente, Valentina se moveu. Sentou devagar, espreguiçando como um gato ao sol. Ficou ali por mais alguns segundos, aparentemente só curtindo o momento, antes de se levantar com graça.
Ela caminhou até a beira da água de novo. Testou a temperatura com os dedos dos pés. Deu alguns passos pra frente, a água subindo pelos tornozelos, pelas panturrilhas.
E então entrou completamente, mergulhando sob a superfície cristalina e desaparecendo por alguns segundos antes de emergir mais ao centro da piscina natural, sacudindo a cabeça e fazendo os cabelos molhados voarem num arco de gotículas que brilhavam ao sol.
Ela riu. Um som puro e genuíno de alegria que ecoou pela clareira e penetrou direto no meu peito.
E eu continuei ali. Escondido. Observando.
Incapaz de me mover.
Incapaz de fazer qualquer coisa além de assistir Valentina Romano ser completamente livre — livre de uma forma que ela nunca poderia ser dentro dos muros da villa, livre dos olhares, das expectativas, do peso do sobrenome que carregava.
Meu corpo estava paralisado como se estivesse sob algum tipo de encantamento. Os músculos recusavam os comandos do meu cérebro que gritava pra eu virar e ir embora antes que isso virasse algo que eu não pudesse desfazer.
Mas eu não conseguia.
Simplesmente não conseguia sair dali.







