Capítulo 3: Curiosidade Proibida

Leonardo

A noite estava sufocante. Quente demais para junho, mesmo para os padrões sicilianos. Ou talvez fosse só o excesso de uísque no meu sistema e a necessidade de apagar aquela imagem da cabeça.

Valentina na beira da piscina. Dançando. O corpo que eu nunca tinha realmente visto antes se movendo de um jeito que não saía dos meus pensamentos desde a tarde.

Serena era exatamente o tipo de distração que eu precisava. Morena, curvas generosas, lábios tingidos de vermelho e nenhuma expectativa além de uma noite bem gasta. Simples. Direto. Sem as complicações que vinham com o sobrenome Moretti ou com garotas que faziam parte do nosso mundo.

— Sua casa é enorme — ela murmurou enquanto passávamos pelo portão de ferro. Os olhos dela percorriam a fachada da villa iluminada com uma ganância mal disfarçada que eu conhecia bem demais.

— É da família — respondi, seco. Estacionei longe da entrada principal, nas sombras das oliveiras antigas. Menos chances de cruzar com alguém. — E você precisa ficar quieta. Meu pai não gosta de visitas não anunciadas.

Ela riu, aquela risada rouca e insinuante.

— Posso ser bem quietinha quando quero, Leo.

Desci do carro e a guiei pela entrada lateral — a mesma que eu usava desde os dezesseis quando aprendi que entrar despercebido tinha suas vantagens. O corredor estava mergulhado em penumbra, apenas fios de luar cortando pelas janelas altas. Perfeito.

Subi as escadas com Serena praticamente colada em mim, as mãos dela já explorando por baixo da minha camisa com uma urgência que beirava a impaciência. Seus dedos eram quentes contra minha pele, mas tudo o que eu conseguia pensar era em apagar. Apagar a tarde. Apagar a visão daquele corpo dançando. Apagar a consciência incômoda de que Valentina não era mais uma criança.

— Calma — disse, prendendo os pulsos dela com facilidade. — Espera chegarmos ao quarto.

Ela mordeu o lábio inferior, aquele gesto estudado que deveria ser sedutor, e assentiu.

Meu quarto ficava no final do corredor oeste, longe o suficiente dos aposentos de Francesco e de Luigi para garantir privacidade. Abri a porta e puxei Serena para dentro, pressionando-a contra a parede assim que entrei — ou quase. A porta ficou entreaberta, mas naquele momento eu estava ocupado demais capturando a boca dela num beijo que tinha mais urgência do que real desejo.

Ela gemeu baixinho e eu cobri os lábios dela com a palma da mão num aviso silencioso.

— Quieta. Lembra?

Ela assentiu, os olhos escuros brilhando. Eu a levantei e a levei para a cama, caindo junto com ela no colchão. As mãos de Serena eram ágeis, trabalhando nos botões da minha camisa enquanto eu marcava a linha do pescoço dela, sentindo o pulso acelerado sob meus lábios.

A porta.

A maldita porta tinha ficado entreaberta.

Eu deveria levantar e fechar direito, mas Serena estava tirando minha camisa e o calor da pele dela contra a minha estava me fazendo ignorar detalhes. Rolei por cima dela, aprofundando o beijo, querendo usar aquele momento para finalmente apagar a irritação que vinha me consumindo desde que vi Valentina naquela piscina.

Foi quando percebi.

Um movimento na fresta da porta. Sutil. Quase imperceptível.

Uma silhueta parada ali, completamente imóvel.

Cabelos loiros refletindo a luz pálida do corredor como fios de ouro.

Droga. Valentina.

Meu corpo inteiro enrijeceu. Ela estava lá, parada na abertura da porta, observando através da fresta. As mãos dela seguravam as abas do que parecia ser um roupão de seda clara. Eu esperava ver choque no rosto dela, horror talvez, o tipo de reação que uma garota inocente teria ao tropeçar em algo assim.

Mas não era isso que eu via.

Era curiosidade. Pura, intensa e hipnótica curiosidade.

Ela não estava envergonhada. Não estava fugindo. Estava fascinada, os lábios levemente entreabertos, os olhos azuis fixos, assistindo a algo que claramente nunca tinha visto antes na vida protegida e isolada que levava.

Serena murmurou algo ininteligível, as mãos descendo pela minha cintura, e o ar no quarto pareceu ficar mais denso. Mais quente. O instinto gritava para eu parar. Eu deveria ter me levantado. Fechado a porta. Mandado Valentina embora com uma bronca sobre privacidade e limites.

Mas não fiz.

Continuei. Beijei Serena com mais intensidade, minha mão subindo pela coxa dela por cima do vestido justo, sentindo-a arquear o corpo contra o meu. E pelo canto do olho, mantive Valentina no meu campo de visão.

A tensão no ar era palpável. Elétrica. Como se três pessoas estivessem naquele quarto em vez de duas. Cada toque em Serena parecia amplificado pela consciência daqueles olhos azuis observando. Cada movimento tinha uma audiência que eu não deveria querer mas que, inexplicavelmente, intensificava tudo.

Vi quando ela deu um passo quase imperceptível para mais perto da fresta. Não para ir embora. Para ver melhor.

Droga. Ela estava ficando. Ela queria ver.

Algo mudou naquele momento. Uma parte sombria de mim — uma parte que eu não sabia que existia — reagiu àquilo. Havia poder em saber que ela estava ali, aprendendo, observando. Que eu estava sendo o responsável por despertar aquela curiosidade que ela nem sabia que tinha. A inocência dela sendo testada sem que eu sequer precisasse tocá-la.

Era território perigoso. Completamente inadequado. Ela era a protegida de Francesco, a futura esposa de um de nós. Mas havia algo na forma como aqueles olhos azuis me observavam que me deixava hiperconsciente de cada toque, cada respiração, cada segundo que passava.

O ar estava carregado de uma tensão que não deveria existir. Proibida. Perigosa.

Serena trabalhou no meu cinto, o som do couro deslizando alto demais no silêncio do quarto. A realidade me atingiu como um soco.

Isso precisava parar. Agora.

— Espera — disse contra a boca de Serena, segurando as mãos dela com firmeza antes que ela fosse mais longe.

— O quê? — ela perguntou, a voz rouca de desejo e confusão. — Leo, o que...

— Só espera um segundo.

Olhei de volta para a porta. Valentina ainda estava lá, mas agora havia tensão na postura dela. Ela tinha percebido. Percebeu que eu sabia que ela estava ali. Nossos olhos se encontraram através da penumbra do quarto e da fresta iluminada.

O ar ficou impossível de respirar. Pesado. Carregado de algo que eu não conseguia nomear mas que fazia meu peito apertar e meu pulso acelerar de uma forma que não tinha nada a ver com Serena.

Por longos segundos, nenhum de nós se moveu. Eu a olhava. Ela me olhava de volta. E naquele momento, algo mudou entre nós de uma forma que eu não tinha como desfazer.

Então, lentamente, ela recuou. Um passo hesitante para trás. Depois outro. Até que a silhueta dela desapareceu completamente na escuridão do corredor como um fantasma que nunca esteve ali.

Ouvi o som suave dos pés descalços se afastando pelo mármore frio. Sumindo.

— Leonardo? — Serena tocou meu rosto, trazendo minha atenção de volta. — Está tudo bem?

— Sim — menti, passando a mão pelo cabelo e me afastando dela completamente. — Tudo certo.

Mas não estava. A distração tinha morrido. O desejo que me trouxe aqui com Serena tinha evaporado como fumaça. Tudo o que eu conseguia pensar era naquela expressão no rosto de Valentina. A curiosidade intensa. O interesse. O fato de que ela não fugiu envergonhada, mas ficou para observar, para aprender.

A menina tinha morrido. E no lugar dela estava uma mulher que acabava de ver coisas que definitivamente não deveria aprender desse jeito — não assim.

Mandei Serena embora uma hora depois com uma desculpa vaga sobre ter que acordar cedo. Ela não ficou satisfeita, mas também não discutiu. Mulheres como ela entendiam as regras do jogo.

Passei o resto da noite acordado, olhando o teto do quarto, incapaz de dormir. Incapaz de parar de pensar.


Acordei com batidas insistentes na porta. Luz demais entrando pelas frestas da persiana.

— Cai fora — resmunguei, cobrindo a cabeça com o travesseiro. Tinha finalmente conseguido dormir umas duas horas antes do amanhecer e agora alguém estava destruindo isso.

— Leonardo! Levanta agora! — era a voz de Luigi do outro lado da porta, tensa e impaciente.

— Que droga você quer?

— O pai está chamando. No escritório. Agora.

O tom dele me fez sentar na cama imediatamente. Luigi não usava aquele tom a menos que fosse sério. Levantei, vesti a primeira calça e camisa que encontrei e abri a porta.

Luigi estava no corredor, braços cruzados, mandíbula travada.

— Ele disse o que quer?

— Não. Só que quer nós dois lá. Urgente.

Merda.

Descemos em silêncio. Meu cérebro trabalhava rápido tentando descobrir o que tinha acontecido. Os negócios com os Catalano? Algum problema territorial? Ou... alguém tinha visto Serena entrar ontem?

Pior. Alguém tinha visto Valentina parada na porta do meu quarto observando o que não deveria.

Meu estômago apertou. Se Francesco soubesse disso, eu estava acabado. Não importava que eu não tivesse tocado nela. Não importava que ela que tinha ficado observando. Francesco me mataria por colocar a protegida dele naquela situação.

Chegamos à porta dupla do escritório. Luigi bateu três vezes.

— Avanti — a voz de Francesco veio de dentro, grave e controlada.

Entramos. Francesco estava atrás da mesa de mogno, as mãos entrelaçadas, o rosto uma máscara de seriedade absoluta. O tipo de expressão que eu tinha visto antes de ele ordenar execuções.

— Sentem-se — ordenou, sem nos olhar.

Luigi e eu nos acomodamos nas poltronas. O silêncio se estendeu, pesado como chumbo. Francesco nos observou por longos segundos, aqueles olhos escuros medindo, avaliando.

Meu coração batia forte demais. As mãos suavam.

— Vocês sabem por que os chamei aqui? — ele perguntou finalmente.

— Não, pai — Luigi respondeu.

Francesco assentiu devagar. Os dedos tamborilaram uma vez na mesa antes de se entrelaçarem novamente.

O silêncio voltou. Mais pesado ainda.

E nós esperamos, sem saber o que viria a seguir.

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