Mundo de ficçãoIniciar sessãoLuigi
A reunião em Palermo tinha sido um saco.
Não pelos negócios — esses correram bem. Os Catalano finalmente concordaram com os termos da expansão portuária, o que significava mais rotas, mais controle, mais dinheiro. Mas Vincenzo Catalano passou a reunião inteira me testando, fazendo perguntas capciosas, tentando descobrir qual de nós dois — eu ou Leonardo — seria o próximo Don.
Como se o velho não soubesse que essa merda já estava decidida. Só esperando.
— Esses velhos são insuportáveis — resmunguei entrando no Mercedes, afrouxando a gravata que estava me sufocando.
Leonardo entrou do outro lado, o rosto impassível como sempre. Francesco se acomodou na frente, ao lado do Marco.
— Vincenzo está velho e paranóico — Francesco disse, acendendo um charuto. — Mas os termos estão fechados. É o que importa.
Olhei pela janela fumê. Palermo passava num borrão — prédios antigos, igrejas, turistas idiotas tirando foto sem saber que caminhavam sobre nosso território. A Cosa Nostra não aparecia em manchete. Usávamos ternos de cinco mil euros e fechávamos negócios em restaurantes caros.
— Precisamos revisar os contratos antes de quinta — Leonardo disse. — Os advogados vão querer cada detalhe.
— Os documentos estão no escritório — Francesco respondeu, soltando fumaça. — Vocês podem... porra.
Ele parou, levando a mão aos bolsos. Primeiro um, depois outro.
— Esqueci a pasta em casa — disse, irritado pela primeira vez no dia. — No escritório. Sobre a mesa.
— Voltamos? — Marco perguntou.
Francesco olhou o Patek Philippe no pulso. Estávamos a uns trinta minutos da propriedade, talvez vinte e cinco se Marco pisasse fundo.
— Sim. Não podemos continuar sem aquilo.
Leonardo e eu trocamos um olhar. Lá se ia a tarde. Mas negócios da família vinham primeiro. Sempre.
Marco fez o retorno, acelerando em direção aos portões de ferro que protegiam nossa propriedade. A paisagem mudou rápido — Palermo sumindo, dando lugar a colinas, vinhedos e oliveiras antigas.
Fechei os olhos, tentando aliviar a tensão na nuca. Com vinte e oito anos, eu sabia que cada reunião, cada palavra importava. Um deslize e você estava fodido.
— Luigi — Francesco me chamou. — Quando voltarmos, você lida com os Greco. Eles estão em cima do muro sobre Catania.
— Tranquilo — respondi.
Era sempre assim. Francesco delegava, testava, media. Tudo parte do jogo de decidir qual de nós seria o próximo Don. Só que a decisão não era dele.
Era de Valentina.
A pirralha loira que passava o dia dançando.
A última Romano.
Minha futura esposa. Ou de Leonardo.
O acordo foi feito quando ela tinha oito anos e eu dezoito. Uma criança chorona de olhos azuis que mal me olhava. Francesco deixou claro: quando ela fizesse dezoito, escolheria entre mim e Leonardo. O escolhido casaria com ela, unindo as famílias, e seria o próximo Don.
Política. Estratégia. Poder.
Nada de romance. Era negócio.
O carro diminuiu quando os portões apareceram. Enormes, pretos, com o brasão Moretti — um leão segurando uma rosa. Os guardas abriram sem pedir identificação.
A estrada de cascalho levava à villa — construção do século XVIII, três andares, pedra clara, varandas de ferro. Jardins impecáveis, fontes de mármore, roseiras antigas.
Casa. Sempre foi.
Marco estacionou na entrada circular. O calor me atingiu quando saí — aquele calor do inferno do verão siciliano.
Foi quando ouvi.
Música. Alta pra caralho.
Pop americano ecoando dos fundos, as batidas vibrando no ar.
Francesco franziu a testa, mas relaxou.
— Valentina e as amigas devem estar na piscina — disse, quase sorrindo. — Vão buscar os documentos. Nos encontramos no carro em cinco.
Ele entrou pela porta principal. Leonardo e eu seguimos pelo corredor lateral que levava ao escritório de Francesco — o que dava vista para a piscina.
Leonardo abriu a porta. O lugar cheirava a couro, madeira e charutos. Estantes cheias de livros, mesa enorme de mogno, poltronas de couro, e uma parede inteira de vidro espelhado dando para a piscina.
O vidro era especial — vidro refletivo. Dava pra ver perfeitamente quem estava lá fora, a piscina, os jardins, tudo. Mas quem estava do lado de fora não via nada dentro, só o próprio reflexo no vidro espelhado. Francesco gostava dessa merda. Observar sem ser visto. Controle total.
A música estava mais alta aqui, pulsando através do vidro.
— Os documentos devem estar na gaveta — Leonardo disse, indo direto pra mesa.
Mas eu olhei pra janela.
E travei.
Três garotas na piscina. Reconheci Isabella Marchetti e Donatella Bianchi. Estavam dentro d'água, rindo.
Mas não era nelas que eu estava olhando.
Era na terceira.
Valentina tinha acabado de sair da piscina. O corpo — porque, merda, aquilo era corpo de mulher — completamente molhado, água escorrendo pela pele bronzeada. Biquíni azul que mal cobria. Seios fartos balançando enquanto caminhava, cintura fina, quadris largos, pernas longas pra caralho.
Quando diabos isso aconteceu?
Os cabelos loiros molhados brilhavam no sol como ouro. E aquele rosto... não era mais de criança. Era o rosto de Giuliana Romano, considerada uma das mulheres mais bonitas da Sicília.
Valentina tinha puxado a mãe. Completamente.
Ela pegou melancia da mesa, mordendo e rindo, o suco escorrendo pelo queixo. Completamente despreocupada, livre. Como se não soubesse o que era, o que representava.
— Luigi, você achou as... — Leonardo começou, mas parou.
Ele viu.
Ficou ao meu lado na frente da janela. Nós dois ali feito idiotas, só olhando.
E a música mudou.
Britney Spears. Alguma coisa que eu não prestava atenção mas era impossível não conhecer.
Valentina largou a melancia e voltou correndo pra beira da piscina.
E começou a dançar.
Madonna.
Não era dancinha boba de adolescente. Era outra coisa. O corpo se movia com fluidez e sensualidade que secou minha garganta. Quadris ondulando na batida, braços fluindo, cada movimento calculado pra provocar — mesmo que ela claramente não tivesse intenção disso.
Só se divertindo. Dançando. Sem saber que estava sendo observada.
A água escorria pelo corpo dela, fazendo a pele brilhar. Cabelos jogando respingos quando rodopiava. As curvas — que eu nunca tinha notado porque ela sempre usava roupa larga — completamente expostas agora.
— Quando foi que isso aconteceu? — Leonardo murmurou, tenso.
— Não faço ideia — respondi, a voz rouca.
Valentina se arqueou pra trás, corpo fazendo curva impossível, seios empinando, barriga lisa se esticando. Girou, e vi as costas — curva da coluna, cintura perfeita.
Quando foi que a pirralha cresceu e a gente não viu?
Dezessete anos. Quase dezoito. E de alguma forma, entre reuniões e negócios, a menina que mal registrávamos nos corredores tinha virado... isso.
Esta mulher dançando na piscina como se fosse natural, completamente alheia ao efeito que causava.
— Ela vai fazer dezoito — Leonardo disse, algo diferente na voz.
Interesse. Real interesse.
— Em alguns meses — concordei, incapaz de desviar o olhar.
Valentina fez um movimento que só vinha de anos de treino — algo entre dança do ventre e jazz, quadris num círculo hipnótico, braços acima da cabeça. Rindo, perdida na música.
E eu perdido olhando pra ela.
Isso era errado. Ela era praticamente irmã adotiva. Filha de Francesco. Família.
Mas meu corpo não recebeu esse memorando.
— Nunca prestamos atenção nela — Leonardo disse, quase espantado.
— Porque era criança — respondi. — Porque tínhamos coisas mais importantes. Porque...
Parei quando Valentina desceu quase até o chão antes de se erguer num movimento fluido que mostrava o quão flexível era.
— Porque somos idiotas — Leonardo terminou, seco.
Isabella e Donatella aplaudiam da piscina. Valentina abriu os olhos, ainda sorrindo, fez reverência cômica e se jogou de volta na água, encharcando as amigas.
Risadas penetraram o vidro.
Ficamos ali processando. O que significava. Como mudava tudo.
Porque mudava.
Em meses, Valentina faria dezoito. Escolheria. Entre mim e Leonardo. E o escolhido casaria com essa mulher deslumbrante que acabávamos de descobrir — e seria o próximo Don.
De repente não era só política.
Era muito mais complicado.
— Os documentos — Leonardo disse, virando pra mesa abruptamente.
Assenti, me afastando da janela. Coração batendo rápido, tensão no corpo que não sentia há tempo.
Leonardo abriu a gaveta, pegou a pasta, verificou e fechou tudo.
— Vamos.
Mas passando pela janela de novo, olhamos.
Valentina de costas, conversando com as amigas, cabelos loiros brilhando no sol.
A última Romano.
Futura esposa de um de nós.
A mulher que subestimamos completamente.
Saímos em silêncio. Leonardo trancou a porta. Caminhamos pro carro sem falar, mas sentia a tensão entre nós.
Competição.
Sempre existiu. Mas agora era diferente. Pessoal.
Francesco esperava no carro, impaciente.
— Demoraram.
— Estava no fundo da gaveta — Leonardo mentiu, levantando a pasta.
Marco ligou o motor. O carro se moveu pelo cascalho, passando jardins, fontes, guardas invisíveis.
Olhei pelo retrovisor. Ainda via a piscina. Três figuras rindo no sol.
Uma em particular — loira, deslumbrante, alheia ao fato de que tinha mudado tudo.
Quando você cresceu, Valentina?
O carro passou pelos portões que se fecharam atrás. Seguimos pra Palermo. Pra reuniões, negócios, a vida que conhecíamos.
Mas algo mudou.
E nada seria como antes.







