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Valentina
Acordei antes mesmo de Anita entrar no quarto. O sol da Sicília já filtrava pelas frestas da persiana, desenhando linhas douradas no tapete persa que decorava o chão de mármore. Saltei da cama com uma energia que parecia não caber no meu peito e praticamente voei até a janela, escancarando as cortinas de veludo pesado. A luz invadiu o quarto, iluminando cada canto do meu refúgio.
Olhei-me no espelho veneziano que ocupava quase toda a parede lateral, abrindo um sorriso travesso para o meu próprio reflexo. Meus cabelos loiros estavam completamente bagunçados, formando ondas rebeldes que caíam sobre meus ombros, e meus olhos azuis brilhavam com a expectativa de um dia perfeito. Fiz uma careta para mim mesma, rindo da própria bobagem.
— Buongiorno, Valentina! — Anita entrou no quarto exatamente naquele momento, como se tivesse um radar para me encontrar fazendo algo bobo. Ela riu ao me ver já rodopiando pelo quarto, descalça sobre o mármore frio. — Que animação é essa, cara? Mal o sol nasceu e você já parece pronta para conquistar o mundo inteiro.
— O dia está lindo demais para ficar na cama, Anita! — Exclamei, dando um giro completo e sentindo a camisola de seda azul clara flutuar ao redor das minhas pernas. — Quero aproveitar cada segundo! Além do mais, Isabella e Donatella vêm passar o dia aqui. Vamos finalmente usar a piscina com esse calor infernal!
Anita balançou a cabeça, divertida, enquanto abria as outras janelas do quarto. Ela era meu norte, minha âncora neste mundo de regras e protocolos. A mulher que me ensinou que, embora eu vivesse cercada por códigos de honra e etiqueta da Cosa Nostra, meu espírito nunca deveria ser domado ou apagado. Aos cinquenta e poucos anos, com seus cabelos grisalhos sempre presos num coque perfeito, ela era a pessoa mais importante da minha vida.
— Suas amigas chegam depois do almoço — ela disse, já separando uma roupa leve para mim. — Don Francesco pediu que você almoçasse com ele antes de ele sair.
Eu amava esta propriedade. Cada centímetro dela. Don Francesco Moretti realmente cumpriu a promessa que fez ao meu pai antes dele morrer. Após a tragédia que destruiu minha família — primeiro meu irmão Matteo, assassinado quando tinha apenas vinte e um anos e estava prestes a se tornar o próximo Don; depois minha mãe Giuliana, que nunca se recuperou da perda do filho e teve um infarto fulminante; e por fim meu pai Salvatore, o grande Don Romano, morto quando eu tinha apenas oito anos — Francesco me transformou em sua protegida, em sua filha adotiva.
Eu sabia perfeitamente que também era uma peça política. A última Romano. A única herdeira de uma linhagem de Dons que comandaram a Cosa Nostra siciliana por gerações. Meu sangue tinha valor, tinha peso. E Francesco sabia disso quando prometeu ao meu pai que cuidaria de mim e, ao me acolher, tornou-se o novo Don, unindo as duas famílias mais poderosas da região.
Mas ele nunca me tratou apenas como uma peça de xadrez. Francesco me dava tudo o que eu queria — o estúdio de dança montado especialmente para mim quando completei doze anos, os cavalos árabes que eu adorava cavalgar ao amanhecer, os professores particulares que vinham à propriedade para que eu nunca precisasse sair. E eu retribuía com a alegria e a vida que faltavam naquela casa enorme, sempre cheia de homens sérios discutindo negócios em salas fechadas.
Vesti o vestido de linho branco que Anita havia escolhido — leve, perfeito para o calor escaldante do verão siciliano — e desci para o almoço. Meus passos ecoavam pelo corredor de mármore, passando por quadros ancestrais e vasos de cerâmica que valiam fortunas.
A sala de jantar estava iluminada pela luz natural que entrava pelas janelas enormes que davam para os jardins. Don Francesco já estava sentado à cabeceira da mesa, lendo Il Giornale di Sicilia enquanto tomava seu espresso. Leonardo e Luigi estavam de pé ao lado dele, já vestidos com seus impecáveis ternos italianos — Leonardo com um cinza carvão que destacava seus olhos verdes penetrantes, e Luigi com um azul marinho que parecia feito sob medida para seu corpo ainda mais imponente.
— Buongiorno, papà! — Cumprimentei Francesco com um beijo na bochecha, usando o tratamento que ele insistia que eu usasse desde que cheguei à casa dele. — Leonardo, Luigi.
— Buongiorno, Valentina — responderam os dois quase em uníssono, com um aceno de cabeça cortês mas distante.
Para eles, eu sabia, eu ainda era apenas a "menina do papai". A órfã que corria pelos jardins quando criança, que passava horas no estúdio de dança, que estava sempre por ali mas nunca realmente presente nos seus mundos. Trocávamos cumprimentos gentis, educados, mas eu sentia que, para eles, eu era parte da decoração da casa. Uma responsabilidade do pai, uma obrigação a ser cumprida no futuro.
Mal sabiam eles que a "pirralha" estava contando os dias para os dezoito.
Mal sabiam que eu entendia perfeitamente o acordo. Que sabia que, quando completasse dezoito anos, escolheria um deles para casar. E que aquele que eu escolhesse se tornaria o próximo Don, unindo definitivamente as famílias Romano e Moretti. Francesco havia sido claro sobre isso desde o início, mas sempre gentil, sempre me dando a ilusão de escolha. "Você decidirá, minha filha. Quando chegar a hora. Sem pressão, sem obrigação."
Mas todos sabíamos que era mentira. A escolha existiria, sim, mas o casamento era inevitável.
— Vamos sair para a cidade — Francesco disse, dobrando o jornal. — Temos reuniões o dia todo. Você ficará bem aqui?
— Perfeitamente bem, papà — respondi, pegando um pedaço de pão fresco da cesta. — Isabella e Donatella vêm passar a tarde. Vamos aproveitar a piscina.
— Ótimo, ótimo — ele sorriu, aquele sorriso paternal que sempre me aquecia o coração. — Divirta-se, cara. A juventude é para ser vivida.
Observei os três se levantarem da mesa. Francesco com seus sessenta e tantos anos ainda imponentes, os cabelos completamente brancos penteados para trás com gel, o terno bege impecável. Leonardo e Luigi, torres de músculos e elegância, com seus 1,90 e 1,92 de altura respectivamente, ombros largos que pareciam preencher qualquer espaço onde entravam, cabelos pretos lisos penteados para trás no estilo italiano clássico — laterais baixas, topete volumoso no topo.
Leonardo me lançou um olhar rápido, aqueles olhos verdes inescrutáveis, antes de seguir o pai. Luigi nem isso — simplesmente acenou com a cabeça e saiu. Para eles, eu era invisível. A garotinha de sempre.
Suspirei, terminando meu almoço sozinha na mesa enorme. Logo, muito em breve, eles teriam que me ver de verdade. Mas hoje não era dia para pensar nisso.
Hoje era dia de ser livre.
— Valentina! — Isabella apareceu na porta da sala de jantar exatamente às duas da tarde, já de biquíni coral com uma saída de praia branca esvoaçante. Seus cabelos castanhos escuros estavam presos num rabo de cavalo alto, e ela trazia aquele sorriso contagiante que me fazia rir só de ver. — A água está maravilhosa! Donatella já está lá fora tentando ligar as caixas de som e falhando miseravelmente, como sempre.
— Estou indo! — Gritei, já me levantando e correndo escada acima.
No meu quarto, escolhi o biquíni que Anita havia trazido de uma de suas raras viagens a Palermo. Era um azul mediterrâneo vibrante, com detalhes dourados nas laterais. Olhei-me no espelho enquanto o ajustava. Eu tinha crescido. Muito. Minhas curvas estavam ali, marcadas e firmes — resultado de anos de dança jazz, de aulas de tango e salsa, das horas na ponta dos pés tentando balé antes de desistir. Meus seios eram fartos mas proporcionais, minha cintura fina se abria em quadris curvilíneos, minhas pernas longas e torneadas. Com 1,75 de altura, eu não era mais a menina que corria pelos jardins.
Eu me sentia linda. Vibrante. Viva.
Joguei uma saída de praia branca semitransparente por cima e desci correndo, quase tropeçando na escada na minha empolgação.
— Finalmente! — Donatella gritou da beira da piscina, segurando o controle do som como se fosse um artefato alienígena. Seus cabelos ruivos estavam molhados, e ela já tinha conseguido se bronzear ainda mais, algo que eu nem sabia ser possível. — Valentina, por favor, você consegue fazer essa porcaria funcionar?
Ri, pegando o controle das mãos dela e sincronizando rapidamente com meu celular. Em segundos, a voz de Ariana Grande ecoava pelos jardins, bem alto.
— Pronto! — Anunciei, jogando o controle na espreguiçadeira. — Agora sim podemos aproveitar!
O calor era absolutamente insuportável — aquele tipo de calor siciliano do meio do verão que parece derreter a pele. A água da piscina estava perfeita, refrescante mas não fria demais. Nós três mergulhamos quase ao mesmo tempo, gritando e rindo como crianças.
Don Francesco nunca ligou para barulho ou bagunça. Ele sempre me dizia para tratar a casa como se fosse minha, para viver plenamente dentro dos limites da propriedade. E eu fazia exatamente isso. As caixas de som tocavam música pop americana em volume altíssimo, nossas risadas ecoavam pelo jardim imenso, a água espirrava para todos os lados enquanto nos divertíamos.
— Essa música é tudo! — Isabella gritou quando "thank u, next" começou a tocar.
Ficamos na piscina por horas, apenas curtindo a tarde perfeita. Conversamos sobre tudo e nada — sobre os livros que estávamos lendo, sobre os últimos fofocas das outras famílias (que Isabella sempre sabia por causa dos irmãos dela), sobre absolutamente nada importante. Era libertador. Dentro daqueles muros altos, cercada por seguranças invisíveis mas sempre presentes, eu podia fingir que era apenas uma garota normal de dezessete anos aproveitando o verão com suas amigas.
Eventualmente, saí da piscina rindo de algo bobo que Donatella havia dito, meu cabelo loiro pingando água pelo chão de pedra aquecido pelo sol. Fui até a mesa de mosaico onde Anita havia deixado frutas frescas e água com gás. Peguei uma fatia de melancia, sentindo o suco doce escorrer pelo meu queixo.
Foi quando a música mudou.
Os primeiros acordes de "I'm a Slave 4 U" da Britney Spears começaram a pulsar pelas caixas de som, e algo em mim simplesmente acendeu. Eu adorava essa música. Adorava a batida, a energia, tudo.
— Ai meu Deus, essa música! — Gritei, largando a melancia e correndo de volta para a beira da piscina.
Sem pensar, sem me importar, comecei a dançar. Meu corpo se moveu instintivamente, seguindo cada batida, cada nota. Anos de aulas de dança tomaram conta — o jazz fluindo naturalmente pelos meus movimentos, os quadris se movendo com a sensualidade que aprendi no tango e na dança do ventre, os braços fluidos como nas danças indianas que eu tanto amava. Eu não estava pensando, apenas sentindo.
A água ainda escorria pelo meu corpo, fazendo a pele brilhar sob o sol da tarde. Meu cabelo jogava respingos de água para todos os lados enquanto eu rodopiava e ondulava na beirada da piscina. Eu estava completamente perdida na música, na liberdade do movimento, na pura alegria de estar viva.
— Vai, Valentina! — Isabella gritou da piscina, rindo e batendo palmas.
— Você arrasa! — Donatella se juntou, assobiando de forma exagerada.
Ri, fechando os olhos e me deixando levar completamente pela música. Meus pés descalços deslizavam sobre a pedra molhada, meu corpo se arqueava e girava, completamente livre. Naquele momento, eu não era a última Romano. Não era a protegida de Don Francesco. Não era a futura esposa de Leonardo ou Luigi.
Eu era apenas Valentina.
E eu estava voando.







