CAPÍTULO 07

Sales chegou à fazenda já noite fechada, como haviam combinado. A casa grande estava iluminada por lamparinas, e o silêncio do campo era cortado apenas pelo som distante dos insetos e pelo ranger ocasional da madeira antiga. Não se tratava de uma visita casual — aquela conversa fora acertada com antecedência, carregada de assuntos que exigiam reserva: negócios pendentes e o futuro de Júlia.

Pedro o recebeu no salão, sem rodeios. Mal se acomodaram, e a conversa tomou o rumo esperado. Falaram das terras, dos contratos firmados ainda em vida pelo coronel Ernesto e, inevitavelmente, dos acordos mantidos com don Fernando. A indignação de Pedro veio à tona com força. Disse que o pai jamais deveria ter se aliado àquele homem, lembrando que, além de estarem em lados políticos opostos, haviam sido inimigos declarados em campo de batalha.

Sales ouviu com atenção, o rosto sério à luz trêmula da lamparina. Quando respondeu, sua voz foi baixa, porém firme. Disse que os acordos precisavam ser cumpridos. Don Fernando era um homem influente, respeitado nos círculos políticos e comerciais, e romper compromissos com ele poderia manchar irremediavelmente a integridade dos negócios que mantinham juntos. Não se tratava de simpatia ou afinidade, mas de palavra dada — e palavra quebrada tinha consequências que ecoavam além daquela fazenda.

Depois, com a mesma objetividade, Sales trouxe à mesa o outro motivo do encontro: o casamento de Júlia. Disse que quanto antes a situação fosse resolvida, melhor para todos. Pedro concordou, convicto de que unir negócios e destino familiar era a forma mais segura de conter rumores e impor ordem. Do lado de fora, a noite parecia ouvir em silêncio — enquanto, dentro da casa, o futuro de Júlia era decidido à luz baixa, sem que ela tivesse voz naquela conversa.

Sales chegou à fazenda já noite fechada, como haviam combinado. A casa grande estava iluminada por lamparinas, e o silêncio do campo era cortado apenas pelo som distante dos insetos e pelo ranger ocasional da madeira antiga. Não se tratava de uma visita casual — aquela conversa fora acertada com antecedência, carregada de assuntos que exigiam reserva: negócios pendentes e o futuro de Júlia.

Pedro o recebeu no salão, sem rodeios. Mal se acomodaram, e a conversa tomou o rumo esperado. Falaram das terras, dos contratos firmados ainda em vida pelo coronel Ernesto e, inevitavelmente, dos acordos mantidos com don Fernando. A indignação de Pedro veio à tona com força. Disse que o pai jamais deveria ter se aliado àquele homem, lembrando que, além de estarem em lados políticos opostos, haviam sido inimigos declarados em campo de batalha.

Sales ouviu com atenção, o rosto sério à luz trêmula da lamparina. Quando respondeu, sua voz foi baixa, porém firme. Disse que os acordos precisavam ser cumpridos. Don Fernando era um homem influente, respeitado nos círculos políticos e comerciais, e romper compromissos com ele poderia manchar irremediavelmente a integridade dos negócios que mantinham juntos. Não se tratava de simpatia ou afinidade, mas de palavra dada — e palavra quebrada tinha consequências que ecoavam além daquela fazenda.

O que Sales não sabia — e jamais alguém daquelas províncias saberia — era que Pedro conhecia Fernando de muito antes. Conhecia-o demais. E conhecia ainda mais a mulher que Fernando perdera: Vitória.

Vitória, morta oficialmente de “febre”.

A palavra era conveniente. Limpa. Não dizia nada.

Pedro a conhecera viva, ardente, inquieta. Fora seu amante por anos, na sombra. E antes mesmo de Vitória se casar com Fernando, Fernando já era apaixonado por ele — um sentimento silencioso, maldito, jamais nomeado. Pedro era a fissura que Fernando nunca conseguiu fechar, nem com casamento, nem com honras, nem com outra mulher.

Pedro insistia, incansável, para que Vitória abandonasse o Capitão Fernando. Prometia fuga, outra vida, ausência de grades douradas. Mas Vitória não amava a liberdade. Amava o peso do nome, o respeito imposto, o lugar que o casamento lhe garantira. Era obcecada pelo status que Fernando lhe dera, pelo poder refletido, pela segurança que vinha da farda e do sobrenome.

E assim, entre desejo, conveniência e silêncio, todos traíram alguém.

Menos a verdade.

Depois, com a mesma objetividade, Sales trouxe à mesa o outro motivo do encontro: o casamento de Júlia. Disse que quanto antes a situação fosse resolvida, melhor para todos. Pedro concordou, convicto de que unir negócios e destino familiar era a forma mais segura de conter rumores e impor ordem. Do lado de fora, a noite parecia ouvir em silêncio — enquanto, dentro da casa, o futuro de Júlia era decidido à luz baixa, sem que ela tivesse voz naquela conversa.

Stephanie serviu o jantar com a habitual discrição, auxiliada por Júlia, que se movia pela sala como se o corpo estivesse ali, mas o pensamento vagasse longe. A luz das lamparinas desenhava sombras suaves sobre a mesa posta, e o cheiro da comida misturava-se ao silêncio carregado de significados não ditos. Júlia mantinha o semblante sereno, embora o coração lhe batesse em descompasso, como se pressentisse que aquela noite marcava um antes e um depois.

Antes que o jantar chegasse ao fim, ela pousou lentamente os talheres, levando a mão ao peito num gesto contido. Disse, com voz baixa, que não se sentia bem. Pediu licença, despediu-se de Sales com a educação que lhe fora ensinada desde menina, e evitou olhar para Pedro. Havia em seus olhos um brilho contido, não de lágrimas, mas de aceitação dolorosa — como quem compreende que fugir já não era possível.

No quarto, ao fechar a porta, apoiou-se por um instante na madeira fria. A noite entrava pela janela entreaberta, trazendo o perfume distante do campo e um céu profundo, coalhado de estrelas indiferentes ao seu destino. Júlia sentou-se à beira da cama e respirou fundo. Parecia que, enfim, a realidade da qual tanto fugira se aproximava com passos firmes, pronta para cumprir-se. E, ainda assim, em meio ao aperto no peito, seu pensamento traiçoeiro buscou Fernando — não como esperança, mas como lembrança de que, por um breve instante, ela fora vista além das rédeas que agora se fechavam.

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