capítulo 3

Xavier ficou alguns segundos em silêncio.

O tipo de silêncio que não era dúvida… era resistência.

Ele andou até a janela, olhando a cidade lá fora como se aquilo fosse mais simples do que a conversa atrás dele. Mas não era.

— Você quer que eu me case com uma mulher que eu nunca vi… por um ano… porque você decidiu isso? — a voz dele saiu baixa, controlada demais.

Fernanda não respondeu de imediato. Ela apenas observou o filho.

— Não foi “decidido do nada”, Xavier.

Ele virou o rosto devagar.

— Ah, não?

Ela deu mais um passo à frente.

— Eu vi alguém hoje que… não pede nada de ninguém. Não tenta ganhar nada de ninguém. Só ajuda.

Xavier soltou uma risada curta.

— Isso não é motivo pra casamento.

— Não — ela concordou. — Mas é motivo pra eu querer que você conheça ela.

Ele passou a mão pelo cabelo, já claramente perdendo a paciência.

— Você está misturando coisas. Uma mulher te ajudou e você resolveu transformar isso em um contrato de casamento.

Fernanda manteve a voz firme.

— Eu resolvi te dar uma chance.

Ele olhou diretamente para ela.

— Uma chance do quê?

— De viver alguma coisa fora desse mundo que você construiu sozinho.

Aquilo deixou o ar mais pesado.

Xavier ficou imóvel por um instante.

Depois, deu alguns passos até a mesa, apoiando as mãos nela de novo, agora mais contido.

— E se eu disser não?

Fernanda não hesitou.

— Eu vou continuar pedindo.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se segurando.

— Isso é loucura.

— Pode ser.

Silêncio.

Xavier respirou fundo, olhando para o teto por um momento, como se estivesse tentando encontrar lógica onde não tinha.

— E essa mulher… Hana… ela sabe quem eu sou?

— Não.

— E mesmo assim você quer me colocar dentro da vida dela.

Fernanda assentiu.

— Sim.

Ele soltou o ar devagar pelo nariz, irritado, mas agora com algo diferente por baixo disso… curiosidade, mesmo que ele não admitisse.

— Você realmente acredita que isso vai funcionar.

— Eu acredito que vocês dois podem se surpreender.

Ele riu sem humor.

— Eu não me surpreendo.

Fernanda olhou firme.

— Então talvez esteja na hora.

Xavier ficou em silêncio novamente.

Longo.

Pesado.

E quando falou, a voz já não vinha só de irritação… vinha de decisão controlada.

— Se isso for acontecer… não vai ser do jeito que você quer.

Fernanda franziu o cenho.

— O que isso quer dizer?

Ele pegou o celular sobre a mesa, girando entre os dedos.

— Quer um ano de casamento?

Ela assentiu.

— Então vai ser um contrato real.

Ele a encarou.

— Sem fantasia. Sem romantização. Sem expectativas.

Fernanda não recuou.

— Se ela aceitar, eu aceito.

Xavier ficou alguns segundos olhando para o vazio, como se já estivesse calculando tudo na cabeça.

Depois, falou baixo:

— Eu quero ver essa mulher.

Fernanda respirou fundo, como se finalmente tivesse ouvido o primeiro passo.

— Eu vou marcar.

O carro parou em frente à mansão Lockwood como se marcasse uma linha invisível entre dois mundos.

Hana ficou alguns segundos olhando pela janela antes de descer.

O lugar era grande demais. Imponente demais. Tudo parecia pensado para impressionar — e, ao mesmo tempo, intimidar.

Fernanda caminhou ao lado dela, tranquila, como se aquilo fosse apenas mais uma etapa normal do dia.

Mas Hana não estava tranquila.

O coração batia mais rápido.

Ela alisou levemente o vestido preto que Fernanda tinha escolhido com ela — elegante, simples, mas perfeitamente ajustado. O cabelo recém-feito caía liso e longo até quase o quadril, brilhando sob a luz.

As unhas feitas, a maquiagem leve, tudo parecia outro mundo comparado à rotina dela.

E, ainda assim… ela se sentia deslocada.

Quando entraram na casa, o silêncio parecia ainda maior.

Foi então que ele apareceu.

Xavier Lockwood.

Alto. Imponente. Presença forte demais para o espaço ao redor.

Camisa social parcialmente aberta, revelando parte das tatuagens no peito. Os braços marcados pelo desenho que subia pela pele. O olhar dourado, fixo, direto.

Hana parou no mesmo instante.

E, por um segundo, o mundo pareceu ficar silencioso demais.

Ele também parou.

Os dois ficaram se encarando como se estivessem tentando entender se aquilo era real.

Fernanda, ao lado, apenas observava com um leve sorriso satisfeito — como se já soubesse que esse momento aconteceria exatamente assim.

Hana foi a primeira a reagir. Respirou fundo e deu um passo à frente.

— Você é… Xavier Lockwood?

Ele piscou uma vez, voltando à realidade.

— E você é Hana Monteiro.

Ela assentiu, um pouco nervosa.

— Muito prazer.

Estendeu a mão com leve hesitação.

Ele apertou com firmeza, mas sem pressa.

— Senhor Xavier Lockwood — ela completou automaticamente, por educação.

Ele soltou a mão dela depois de um segundo a mais do que o necessário.

— Minha mãe falou que você salvou ela.

Hana baixou levemente o olhar.

— Não foi nada, senhor. Eu só fiz o que qualquer pessoa faria.

Fernanda soltou uma pequena risada.

— Não foi bem assim, querida. Você sabe disso.

— Está tudo bem, senhora — Hana respondeu rapidamente, educada.

Xavier observou a troca em silêncio por um instante.

Depois, cruzou levemente os braços.

— Ela ficou bastante… entusiasmada com você.

Hana olhou para ele, sem entender bem onde aquilo ia dar.

— Tanto que te fez uma proposta.

O ar mudou de novo.

Hana respirou fundo.

— Eu… pensei muito sobre isso — ela disse, com honestidade.

Xavier ficou imóvel, analisando cada palavra.

Ela continuou:

— Mas eu quero deixar algumas coisas claras.

Ele não interrompeu.

— Eu não quero exposição. Não quero aparecer em redes sociais. Não quero ser colocada em sociedade nenhuma.

Fernanda apenas ouviu em silêncio, sem interferir.

Hana manteve o olhar firme agora, mesmo nervosa.

— E eu não quero dinheiro, nem nada disso.

Ela apontou de leve para si mesma, como se estivesse lembrando a própria realidade.

— Eu trabalho. Em várias funções. E vou continuar trabalhando.

Xavier observava sem piscar.

Hana respirou fundo de novo.

— Eu pensei muito no que sua mãe falou… sobre casamento.

Silêncio.

— E… tudo bem. Se você quiser, eu caso.

Por um segundo, ninguém falou nada.

Nem Fernanda.

Nem Xavier.

Ele estreitou levemente os olhos.

— E por que você aceitaria casar com um estranho?

Hana não desviou o olhar.

A voz dela saiu mais baixa agora, mas firme.

— Porque hoje eu passei por muita coisa, senhor.

Pausa curta.

— Muita coisa.

Ela engoliu seco.

— E hoje eu só quero paz.

O silêncio que veio depois foi diferente.

Mais pesado.

Mais verdadeiro.

Hana manteve o olhar nele, sem recuar.

— Então… se o senhor realmente quiser isso, eu estou aqui.

Uma pausa.

— Se não quiser… tudo bem também.

E naquele instante, pela primeira vez, Xavier não respondeu imediatamente.

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