Mundo de ficçãoIniciar sessão"Noite após noite, descubro que o verdadeiro desafio não é conquistar o mundo lá fora, mas domar os meus próprios fantasmas. Às vezes, o destino não b**e à porta; ele esbarra em você e vira o seu copo, forçando-o a olhar para o que você passou a vida inteira tentando ignorar."
Christopher Davis
O salão principal da Empire Nights pulsava com uma energia quase elétrica naquela noite de gala. Era o maior evento da temporada, o tipo de noite em que a elite de Nova York desfila suas joias e seus segredos sob o teto que eu construí. Do mezanino, eu observava o movimento como um general observa seu campo de batalha. Eu vestia um terno sob medida, um corte italiano em tom azul-noite tão escuro que parecia preto sob as luzes estroboscópicas. O tecido era impecável, a seda da gravata brilhava discretamente, e o relógio de luxo no meu pulso marcava o ritmo de uma vida que eu dominava com mãos de ferro.
Eu estava em alerta. Marina Torres, minha gerente, havia mencionado algumas contratações novas para reforçar a equipe de recepção, mas eu mal havia prestado atenção nos nomes. Para mim, rostos novos eram apenas engrenagens na máquina perfeita da Empire. Eu circulava pelo salão, distribuindo sorrisos ensaiados e apertos de mão estratégicos, sentindo o perfume caro e o aroma de poder que flutuava no ar.
Eu estava atravessando o corredor lateral, perto da entrada principal, quando o mundo, por um breve segundo, saiu do meu controle.
Uma cliente, visivelmente alterada pelo excesso de champanhe, cambaleou em direção a uma das funcionárias. Vi apenas um vulto de uniforme escuro tentando amparar a mulher. No movimento brusco e desajeitado da convidada, uma taça de vinho tinto voou no ar. O líquido escuro desenhou uma parábola perfeita antes de atingir em cheio o meu paletó de mil dólares.
O choque térmico do vinho gelado contra o meu peito foi imediato, mas o silêncio que se seguiu foi ainda mais frio. As conversas ao redor cessaram. Senti o peso de dezenas de olhares cravados em mim, esperando a explosão do "Rei da Noite", o homem que não tolerava falhas.
Mas quando levantei os olhos, a fúria que estava prestes a subir pela minha garganta simplesmente evaporou.
Diante de mim, paralisada e com o rosto pálido de terror, estava uma mulher que eu nunca tinha visto antes. Ela não parecia pertencer àquela fauna de plástico de Manhattan. Seus olhos eram grandes, expressivos e carregavam uma mistura de pânico e uma dignidade silenciosa que me atingiu como um soco no estômago. Ela era linda, mas não de uma forma produzida; era uma beleza crua, elegante na simplicidade, mesmo sob o uniforme de hostess da casa.
— Eu... eu sinto muito, senhor... — a voz dela saiu trêmula, quase um sussurro.
Ela estava trêmula, as mãos pequenas segurando o que restava da taça quebrada. O magnetismo foi instantâneo. Havia uma pureza nela, um contraste tão violento com a superficialidade daquele salão, que me senti desarmado. Eu, que me orgulhava de ser o mestre do autocontrole, me vi hipnotizado pela simplicidade daquela garota.
— Calma — eu disse, e minha própria voz soou mais suave do que eu pretendia.
Tirei o lenço de seda branca do bolso e comecei a secar o estrago, mas meus olhos não saíram do rosto dela. Notei o crachá: Victória Ashford
— Me perdoe, Sr. Davis... eu só tentei ajudar a senhora e... eu sinto muito pelo seu terno — ela continuou, as lágrimas começando a embaçar aqueles olhos castanhos que pareciam ler a minha alma.
— Senhor Davis? — Repeti, dando um meio sorriso para quebrar o gelo. Inclinei-me um pouco, diminuindo a distância entre nós para que apenas ela ouvisse. O perfume dela — algo suave, como flores após a chuva — era muito mais inebriante do que qualquer bebida cara da Empire. — Agora você me deixou preocupado. Espero que não pretenda me tratar com toda essa formalidade a noite inteira. Afinal, você já me batizou com o melhor vinho da casa.
Ela corou instantaneamente, o rubor subindo pelas faces e dando a ela um ar ainda mais encantador. Percebi seu coração acelerar sob o uniforme; eu conseguia ver o pulso saltando em seu pescoço.
— Acho que acabei de perder o emprego — ela murmurou, desviando o olhar, envergonhada.
Nesse momento, Marina Torres se aproximou, ofegante e claramente pronta para dispensar a garota ali mesmo. Mas eu levantei a mão, interrompendo qualquer reprimenda.
— Marina, está tudo bem — declarei, minha voz projetando a autoridade de quem manda em cada centímetro daquele prédio. — Acidentes acontecem. Na verdade, acho que a Victória acaba de ter a estreia mais memorável da história da Empire. Providencie um uniforme novo para ela amanhã. E, por favor, alguém traga um café para a convidada embriagada.
Marina assentiu, surpresa com a minha reação, e se afastou. Victória finalmente levantou os olhos para mim. A gratidão que vi ali foi algo que não sentia há anos. Não era a gratidão interesseira de uma modelo ou a bajulação de um político; era real.
— Por que foi tão gentil? — ela perguntou, num momento de coragem súbita.
Eu a observei por alguns segundos, sentindo uma curiosidade que beirava a obsessão. — Nova York é feita de recomeços, Victória. E a Empire Nights também. Além disso... — aproximei-me um pouco mais, sentindo o magnetismo dela me puxar como um imã. — Você é a primeira pessoa em muito tempo que me faz sentir algo além de tédio nesta sala.
Ela ficou sem palavras. Vi uma outra funcionária, uma loira de olhar esperto que depois soube se chamar Jade, aproximar-se dela e segurar sua mão, dando um apoio silencioso.
— Boa noite, Victória. Espero vê-la amanhã — finalizei, dando as costas e seguindo em direção ao meu escritório privado, mas sentindo o olhar dela queimando nas minhas costas.
Entrei na minha sala e fechei a porta, encostando-me nela por um momento. Olhei para a mancha de vinho no meu peito e ri sozinho. O cafajeste, o homem de gelo, o Rei da Noite... todos eles tinham sido abalados por uma garota que mal conseguia equilibrar uma taça.
Eu tinha planejado que aquela noite fosse apenas mais um passo para o sucesso da Empire. Mas, enquanto o som da festa continuava lá fora, eu só conseguia pensar no brilho daqueles olhos castanhos. Eu não sabia quem ela era, de onde vinha ou o que escondia, mas uma coisa era certa: Victória Ashford não seria apenas mais uma funcionária. Ela era o início de uma perdição que eu não tinha o menor interesse em evitar.
"Dizem que o primeiro gole de um vinho excepcional é o que define se você vai querer a garrafa inteira. O problema é que eu não tomei o vinho; eu fui marcado por ele. Victória entrou na minha vida com o impacto de um desastre e a delicadeza de um milagre. Eu passei anos construindo muros, garantindo que ninguém me tocasse de verdade, e bastou um segundo de descuido dela para que tudo começasse a desmoronar. Ela tem uma luz que me assusta, porque ilumina as sombras que eu levei tanto tempo para esconder. Se eu fosse um homem inteligente, a manteria longe. Mas eu sou um Davis, e nós nunca fomos conhecidos por resistir ao que nos incendeia."







