Capítulo 2

Apollo Galanis

Tenho 37 anos e nunca tive nenhum relacionamento sério. Não que eu seja avesso a relacionamentos, longe de mim. Sou um grande admirador de romances, mas me recuso a me envolver com alguém que não me deixe com os quatro pneus arriados (termo usado pela própria Kate).

Já tive alguém assim na minha vida. A mulher chegou e, desde o momento em que coloquei meus olhos nela, tive a certeza de que seria minha. O que eu posso dizer? Sou uma pessoa decidida e não desisto dos meus objetivos, mas, do mesmo jeito que Ana Lívia chegou na minha vida, ela se foi. Meu verdadeiro furacão.

Passamos momentos incríveis juntos. Juro que, se eu a visse na minha frente agora e ela pedisse para eu rastejar, eu faria sem pensar duas vezes. Essa mulher me fez sentir coisas que nenhuma outra pessoa conseguiu. Como eu disse, quero que seja intenso, quero que seja avassalador e mexa comigo a tal ponto de eu cometer loucuras pela pessoa. Por Ana Lívia, eu faria. Nesses malditos anos, eu nunca desisti de encontrar a mulher por quem me apaixonei.

Não vou ser hipócrita, eu me envolvi com outras pessoas nesse meio tempo, homens e mulheres. Eu quis sentir de novo o que experimentei com ela, mas a garota simplesmente não sai do meu sistema.

Às vezes, a vida pode ser engraçada. Depois do que aconteceu com o meu melhor amigo, ainda tenho esperanças. Afinal de contas, qual a chance de você ficar com uma pessoa em outro continente, engravidá-la e ainda conseguir encontrá-la mesmo sem saber seu nome?

Eu vou encontrar Ana Lívia e não vou deixar que ela saia do meu lado nunca mais. Nem que para isso eu tenha que amarrar a garota.

Não estou mais morando no apartamento com a Kate e o Eros. Depois que eles voltaram e se casaram, resolvi que tinha chegado a hora de dar espaço aos dois. Mas não se deixe enganar: comprei um apartamento no mesmo prédio e passo quase todo o meu tempo livre enfiado na casa deles.

Meu querido sobrinho está com pouco mais de nove meses. Ele é um pestinha, já engatinha para todo lado e tem deixado os pais de cabelos em pé. Como eu sou o tio legal, nos damos muito bem. A Kate, inclusive, quase me bateu quando ele balbuciou as primeiras palavras me chamando de “dino”. Acredito que "padrinho" ainda seja uma palavra muito complexa para um bebê tão pequeno.

Ela começou a estudar, e de vez em quando a pego chorando por ter que ficar longe do Heitor. Todo mundo tem ajudado como pode, mas eu consigo entender como ela está se sentindo. Eros voltou a trabalhar, mas enche o saco da sogra o tempo inteiro com mensagens e ligações querendo saber do garoto.

Preciso dizer que não foi fácil quando anunciei que tinha comprado meu próprio apartamento. Os dois fizeram uma intervenção, e a Kate fez uma apresentação no PowerPoint com os motivos pelos quais eu não poderia me mudar. Tipo, um PowerPoint. Quem faz isso? Aparentemente, meus amigos loucos da cabeça. Mas confesso que não vivo sem eles.

Eu amava nossa rotina, mas realmente precisava do meu espaço, e eles do deles. Conversamos e, com muita relutância, eles aceitaram. Quer dizer, a Kate aceitou de cara amarrada e o Eros ficou dois dias emburrado comigo. Fazer o que, se sou irresistível e eles não queriam me perder de vista?

Hoje estou no trabalho. Até agora, o plantão estava bem tranquilo, com somente quadros virais, quando fui notificado sobre uma menina de quatro anos que acabou de dar entrada com uma reação alérgica alimentar.

Eu tenho alergia a amendoim e posso falar com propriedade que é uma droga. Viver com isso é como ter uma sombra constante pairando sobre você, um alerta infinito. Desde criança, sei como uma refeição inofensiva pode virar um pesadelo e o quanto depender de uma injeção de epinefrina no meio de uma emergência é assustador. Hoje em dia, graças à terapia, levo numa boa, mas anos atrás eu era extremamente paranoico.

Com uma criança dessa idade e uma alergia forte, tenho certeza de que a mãe deve ser cuidadosa. Infelizmente, acidentes acontecem.

Entro no quarto em que a garotinha está. Minha atenção está voltada para a maca até que ouço uma voz tão familiar que paralisa meus pés no chão.

— Fiz os primeiros socorros conforme orientado. Administrei a epinefrina, deixei-a deitada com as pernas para cima até a respiração melhorar e tentei monitorar os batimentos dela... mas foi tudo tão rápido — ela fala, com um tom de voz aflito.

Eu estou alucinando? Já tive sonhos com Ana Lívia, mas estou acordado, porra. No meu local de trabalho e... espera. Ela tem uma filha?

— Fez muito bem, mamãe. Graças a você, sua filha está bem — a enfermeira tranquiliza. — O doutor deve estar... — Ela me vê parado na porta. — Ah, ele já chegou.

Assim que a mulher se vira para mim, sinto como se o mundo parasse de girar. Ana Lívia, a única mulher que já amei na vida, está parada me olhando com os olhos arregalados.

— Você... — falo, e abro um sorriso involuntário. — Finalmente te encontrei, furacão.

Encaro-a, e um misto de sensações dança no meu interior. Entusiasmo e alívio me atingem em cheio. Depois de seis anos, eu finalmente a encontrei! Mas... por que ela está me olhando como se quisesse me matar?

— Como está a garotinha mais linda do hospital? — Volto para o meu papel de médico. Preciso me concentrar na minha paciente primeiro; depois lido com a mãe dela.

Sempre tive certeza da profissão que iria seguir. Salvar as vidas desses seres tão inocentes me dá uma motivação imensa.

— Doutor Apollo, ela teve uma reação alérgica a amendoim. Pelo que a mãe contou, ela fez os primeiros socorros — Kelly, a enfermeira, atualiza o quadro enquanto me aproximo da garotinha, que me encara com olhinhos curiosos.

Ana Lívia não tira os olhos de mim, e juro que estou começando a temer pela minha integridade física pela fúria silenciosa em seu olhar.

— Eu já estou bem, posso ir para casa? — a menina pergunta, enquanto começo a conferir seus sinais vitais.

— Hum, ainda vou precisar observar você mais um pouquinho antes da alta, tudo bem? — indago, olhando nos olhos dela. Ela acena positivamente com a cabeça. — Então... me conta, qual o seu nome?

Claro que eu sei o nome dela. Sophia. Mas preciso distraí-la. Ter uma reação alérgica já é assustador o suficiente sem um bando de estranhos robóticos ao redor. Quero ganhar a confiança da minha mini paciente.

Vejo a mulher se posicionar ao meu lado, em um ato de extrema proteção sobre a menina.

— Sophia... mas pode me chamar de Sosô — ela responde, e abro um sorriso fraco.

— Bom, Sosô, meu nome é Apollo. Não tenho nenhum apelido legal, mas minha amiga me chama de Deus do Sol. — Lembro da primeira vez que Kate me chamou assim. Claro que sei da origem do meu nome, mas alguém me chamar de Deus do Sol? Só a bruxinha mesmo.

Sophia dá um risinho e tampa a boca.

— Deus do Sol? — Ela soa genuinamente curiosa.

— Sou de ascendência grega e meu nome é uma homenagem ao deus Apolo. Ele também é o deus da música, das artes... resumindo, de tudo que é bom — falo a última frase com um tom divertido.

— Que legal! A mamãe uma vez me falou que meu nome também é grego, né, mamãe? — Ela olha para Ana Lívia, que fica tensa imediatamente.

Paro, voltando minha atenção para a ficha no pé da maca:

Nome: Sophia Godoy Bueno Idade: Quatro anos e oito meses Nome da mãe: Ana Lívia Godoy Bueno Nome do pai: Não informado

A palavra "mamãe" ecoa na minha cabeça, e o mundo inteiro parece sair de órbita. Sophia tem quatro anos e alguns meses. Com uma gestação de nove meses... Pelos deuses.

Sophia pode ser minha.

Não. Ana Lívia não esconderia algo tão sério. Ela me procuraria, certo? Ela não tiraria isso de mim.

— Ela está bem, não está? Podemos ir para casa? — A voz áspera de Ana Lívia me desperta do transe.

— Você... — As palavras simplesmente engasgam na minha garganta.

Olho para as mãos dela. Não há nenhuma aliança. Não que ela precisasse ser casada para ter uma filha, mas, depois que fui embora, pensei que talvez ela pudesse ter seguido em frente.

Para de ser burro. Faz as contas. Ela também tem alergia, uma voz debocha no fundo da minha mente.

— Apollo, você está bem? — ouço a vozinha da Sophia perguntar, e forço um sorriso.

— Claro, pequena, estou bem... — Observo o rosto da garota com um escrutínio cirúrgico. Os cabelos castanhos, os olhos no mesmo tom exato que os meus, a alergia a amendoim e... uma suspeita maluca passa pela minha cabeça. — Sophia, você tem alguma marca de nascença?

Pergunto guiado por um instinto absurdo. A garota me encara, confusa, enquanto Ana Lívia cerra os olhos como se pudesse me pulverizar.

— O que você pensa que está fazendo? — Ana Lívia sibila, chegando tão perto de mim que meu olfato é totalmente invadido pelo cheiro dela.

— Tenho sim, aqui, ó! Eu não gosto muito, mas a mamis sempre fala que isso faz com que eu seja especial. — A menina levanta a barra da blusa do hospital e mostra a barriga.

Lá está. Logo abaixo do umbigo, uma marca marrom. Idêntica à que eu e meu pai temos.

Não é uma coincidência. Minha cabeça gira em 360 graus. É como se um raio tivesse caído dentro do quarto.

Descobrir a existência daquela marca abriu um buraco no chão sob os meus pés. Sim, o choque e a euforia bateram, mas a raiva veio logo em seguida, amarga e cortante. A marquinha na pele não era apenas um vínculo especial; era a prova inegável de que Ana Lívia havia mantido minha filha escondida de mim por todo esse tempo.

Filha. Puta merda. Eu tinha uma filha e não fazia a menor ideia.

Fiquei furioso com ela por me esconder algo tão monumental, mas a raiva também se virou contra mim. Eu poderia ter me esforçado mais. Deveria tê-la encontrado antes. Eu perdi os primeiros anos da vida da minha própria filha.

Ainda assim, por baixo da confusão e da fúria, havia uma sensação avassaladora de milagre. Lembro de quando conheci Ana Lívia e ela disse que acreditava no destino. E cá estamos nós, encurralados pela ironia do universo.

Mesmo no meio dessa tempestade, olhando para a garotinha na maca, um instinto protetor imediato se instalou no meu peito. Eu não conhecia essa menininha até dez minutos atrás, mas já sabia que faria qualquer coisa por ela.

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