Mundo ficciónIniciar sesiónO elevador foi descendo e permaneci em silêncio.
— Vamos acabar logo com isso! – seu tom determinado quebrou o silêncio.
Não percebi suas intenções até que seus lábios estavam esmagando os meus. Lábios deliciosos, mas eu não podia ceder, pois acabaria me apaixonando e sairia magoada. Coloquei minhas duas mãos no tórax dele, e enquanto correspondia ao beijo, empurrava-o com toda força que minha dignidade permitia, o que não fazia nem cócegas nele.
Quando finalmente consegui me libertar, era tarde demais, a porta do elevador já estava aberta revelando uma recepcionista boquiaberta.
Saí do elevador da empresa quase correndo. Os lábios doloridos do beijo violento e urgente. Não olhei para trás. Minha vida dentro da empresa agora seria um inferno. Mariana, além de recepcionista, era a maior fofoqueira daquele lugar.
Passei o trajeto até em casa pensando em como seria o dia seguinte. E ao chegar ao meu micro apartamento na Barra Funda, continuei pensando no assusto. Fiquei indo de um cômodo para o outro, o que não era difícil porque o lugar só possuía uma sala conjugada com a cozinha, um quarto e um banheiro.
O fato das paredes e móveis serem brancos estava me irritando mais que o normal. Aluguei o apartamento mobiliado e não podia mexer nas cores das paredes ou móveis. Por mais que colocasse quadros e outros objetos coloridos, o branco predominava dando um ar de qualquer coisa, menos um lar.
Depois de um banho e de engolir um pouco da lasanha que Leila me ofereceu mais cedo, escovei os dentes e me deitei.
Tentei terminar o livro que estava lendo, mas como não conseguia me concentrar na leitura, apaguei a luz e fiquei rolando na cama até conseguir dormir.
Acabei sonhando com a história do livro. No meu sonho eu estava envolvida com um criminoso de Florianópolis e depois de tudo dar errado nesse relacionamento, acabei recrutada para fazer parte de uma organização secreta, assumindo uma nova identidade. No decorrer do sonho levei um tiro e acordei toda suada em plena madrugada, e mesmo com Enrique ocupando meus pensamentos, tive que terminar o livro.
De manhã tomei meu café, vesti o uniforme que consistia em uma saia preta e blusa branca, coloquei um sapato baixo também preto e fui trabalhar com a sensação de ir para uma guerra.
Já na portaria, os olhos verdes fulminantes de Mariana me observavam por trás dos óculos de grau. Senti raiva daquela loira pela primeira vez.
Agi normalmente com todos, cumprimentando quem passava por mim, mas podia perceber os olhares e os cochichos depois que eu virava as costas.
Durante toda a manhã não vi Enrique. Já Evandro agia normalmente, o que me fez pensar que talvez ele ainda não soubesse ou era muito discreto.
Mas para o meu desespero, depois do almoço, ele me chamou em sua sala.
Bati na porta e entrei.
— Pois não, senhor Evandro. – o medo de ser despedida me fazia somar mentalmente como seria minha vida financeira a partir daquele dia. Acabaria tendo que pedir ajuda aos meus pais; o que ia contra a imagem de independente que criei para mim.
— Aline, tem pouco tempo que você trabalha aqui e talvez não tenha sido informada de como funciona tudo nesta empresa. – ele foi direto.
Sabia que poderia acabar sendo demitida por causa daquela cena no elevador, apesar de todos os comentários sobre as conquistas de Enrique, nunca falaram sobre o fato de ele ter beijado alguma funcionária dentro da gravadora. Fiquei esperando Evandro dizer: “pegue suas coisas e saia da minha empresa”, mas não foi isso que aconteceu.
Ele continuou:
— O que quero dizer é que sempre que viajamos a trabalho é necessária a presença de alguns funcionários da gravadora. Iremos viajar no início do próximo mês para uma convenção em Manaus, e preciso muito que vá, pois me sinto perdido quando viajo sem minha secretária.
Quase suspirei de alívio. Então era apenas uma viagem.
— Não haverá problemas, senhor Evandro. O mês que vem é o mês de férias da faculdade, então estarei livre. – percebi que minhas mãos suavam de expectativa.
— Que bom! Desculpe, deveria ter me encarregado de que soubesse da viagem com maior antecedência. – ele parecia sinceramente constrangido.
— Fique despreocupado. A viagem correrá sem problemas. – estava disposta a fazer tudo para mostrar a ele que merecia aquele emprego.
— Obrigado, Aline! Você é uma excelente funcionária. – o sorriso que derretia os corações de 100% das funcionárias apareceu no rosto dele demonstrando a gratidão que sentia por eu não ter imposto dificuldades em viajar. Possivelmente aquele sorriso não estaria ali se ele soubesse sobre o incidente no elevador.
— Obrigada! Posso ajudá-lo em mais alguma questão? – eu estava decidida a me tornar a melhor secretária e não dar mais motivos para comentários dentro da empresa.
— No momento, não. Depois te passo os detalhes da viagem.
— Sim. Com licença.
Saí da sala com uma enorme sensação de alívio que não duraria muito, pois em breve alguém contaria para ele o que aconteceu. O jeito era deixar o barco à deriva. Ir trabalhando sem pensar nas consequências daquele beijo inesquecível.
*
Na manhã seguinte iríamos viajar. Seria uma quinta-feira agitada.
Depois que Evandro me falou sobre a viagem, caiu a ficha de que provavelmente Enrique iria também.
Depois daquele beijo ele passou a me assediar muito mais que antes. Ligava para o meu ramal prometendo noites quentes e excitantes, passava a língua pelos lábios sempre que percebia meu olhar na sua direção. Fazia de tudo para que eu não esquecesse que me desejava.
Evandro em nenhum momento comentou sobre o incidente que virou a fofoca da empresa por vários dias.
Na tarde de quinta-feira, Enrique passou em minha sala a fim de buscar Evandro para uma reunião, e antes que eu pudesse esboçar qualquer tipo de reação, ele passou e ficou atrás da minha cadeira. Ele abaixou um pouco e mordeu minha orelha fazendo com que eu me levantasse rapidamente, surpresa com sua atitude.
— Não faça mais isso! – minha voz soava ofegante com as lembranças do que aquela boca poderia me causar. – Por favor, senhor Enrique, esse tipo de atitude pode prejudicar a minha imagem. Agradeço a Deus por aquele incidente no elevador não ter tido maiores repercussões. – ele permanecia me olhando enquanto eu falava. Sua expressão era indecifrável. – Poderia me deixar em paz?
— Vejo uma imagem belíssima, mas tudo bem. Terei você só para mim durante essa viagem. – o sorriso prometia que aquela viagem ficaria gravada na minha pele. – O que aconteceu no elevador serviu para atiçar mais ainda minha imaginação e meu desejo. Você irá implorar através de gemidos nessa viagem! Já posso ouvi-los.
Ele fechou os olhos e uma expressão de prazer estampou seu rosto. Foi tão intenso que também fechei os meus olhos imaginando o que era prometido. Nas imagens em minha cabeça eu estava jogada na cama de um motel barato completamente nua, e estendia as mãos na direção de um Enrique completamente vestido.
Me esforcei para abrir os olhos e quando consegui estava sozinha na sala.
Senti um ódio tremendo, mas acabei sorrindo quando a ficha caiu. Eu estava louca de desejo por Enrique, e ele tinha plena consciência disso.







