Mundo de ficçãoIniciar sessãoELIZIAN
Eu não sei onde isso vai parar, mas não quero que acabe agora. Estava deitada sobre o peito dele, sentindo seus dedos afagando meus cabelos. Eu não conseguia pensar em mais nada — era como se estivesse no auge da minha felicidade. — Você está calada demais. Está arrependida? Porque eu, sinceramente, me sinto extremamente satisfeito. — Jamais. — Sorri de leve. — Estou me sentindo uma jovem apaixonada. E eu não deixava de ser uma jovem. Ainda tinha tanto pela frente. — Sabe... eu queria mudar e estava pensando nisso antes de conhecer você. — Está pensando em ir embora? — Ele ergueu meu rosto com delicadeza, como se eu fosse frágil demais para ser tocada de outra forma. — Elizian, eu posso te ajudar de alguma forma? — É que eu não vou me sentir bem em ficar esbarrando no meu passado quando estiver andando por aí. Eu não tenho nada que me prenda aqui, Marcelo. Eu não vou me submeter a tamanha humilhação. Não era egoísmo, era autopreservação. Eu sabia que merecia mais. Conhecia bem meus limites, e sabia que não conseguiria me controlar se visse aqueles dois juntos novamente. Bruna ainda vai pagar pelo que fez. Mal sabe ela o que a espera. — E tem algum lugar em especial que você gostaria de conhecer? Tenho uma reserva guardada. Sempre tive que fazer tudo sozinha. Desde os 18 anos, aprendi a me virar, a guardar dinheiro, a estar preparada para emergências. Em cinco anos, consegui economizar U$37 mil dólares. Não era uma fortuna, mas era o suficiente para não me deixar na miséria. E, no fundo, eu bem que poderia me permitir tirar umas férias. — Elizian, eu não quero que pense que tudo isso é apenas uma brincadeira. Eu quero ficar com você. — Ninguém nunca havia me dito isso com tanta convicção. Eu me senti especial. — Acho que estamos indo rápido demais... mas não sei se consigo parar. — Suspirei, tentando encontrar palavras que não o machucasse. — Então, para onde tem vontade de ir? — Ele era insistente, e eu gostava disso. — Para El Chaltén, na Patagônia. Não quero lugares badalados e cheios de turistas. Odeio tumulto. Quero ficar longe da superlotação, dos problemas conectados à natureza e... Aquilo era um desejo que eu já tivera com Fred. Ele odiava o frio, mas eu sempre sonhei com a Patagônia. Era doloroso perceber que, sozinha, eu não conseguia realizar esse sonho. A solidão sempre me acompanhava em silêncio, e mesmo sem admitir, eu me sentia sozinha a maior parte do tempo. Isso me corroía. MARCELO Ela era um enigma que eu queria todo o tempo do mundo para desvendar. Elizian despertava em mim uma vontade de compreender, de cuidar... e de desejar. Eu conhecia bem a sensação que ela descrevia. Também já havia sentido a dor da traição na pele: nua, crua, ardente, como uma ferida que alguém j**a álcool logo em seguida. O abandono marcou minha história. O último olhar, a ausência de ligações, o vazio que ficou. Tudo isso roubou pedaços de mim, me impediu de viver experiências que poderiam ter feito minha vida mais feliz. E o que deveria ter sido apenas um jantar de negócios... se transformou no improvável: eu me apaixono pela ex-noiva do meu filho. Eu me sentia um maldito, incapaz de parar de desejá-la. Ela falava como se tivesse mil assuntos para compartilhar, e eu adorava. Sua voz me viciava, seu sorriso me dominava, e a forma como ela se sentia à vontade ao meu lado me deixava ainda mais encantado. — Eu acho que a vida fica me testando, sabe? — disse ela, mexendo no guardanapo. — Eu tinha tantos planos, mas agora... só preciso de um tempo longe de tudo isso. Acho que já seria suficiente. — Quer viajar amanhã? Eu consigo um voo para você. Hospedagem, guias, o que precisar. Duas semanas, ou mais... Fred... ele sempre destrói as pessoas que se aproximam. Como se fosse um ímã que atrai tudo de bom só para depois corromper. E eu nunca fiz nada para impedir. Elizian não respondeu de imediato. Seus gestos estavam inquietos, e eu sabia como era ruim ser forçado a conviver com o passado. Não dá para simplesmente apagar tudo aquilo que nos faz sofrer. — Pode me dar uma carona até a empresa? — pediu, já pegando a bolsa. Não era hora dela ir, mas a empresa ainda estava funcionando. Ela se vestiu rápido, evitando me encarar por mais de alguns segundos. — Posso perguntar o que vai fazer lá a essa hora? — indaguei, mas o toque do meu celular me interrompeu. O nome que apareceu na tela me deixou em alerta. Eloise. Uma mulher que conheci meses atrás, na Noruega. Linda, interessante, honesta. Mas eu não sentia atração por ela. Não como sentia por Elizian. — Algum problema? — a voz dela soou indiferente, quase carregada de culpa. — Se for urgente, pode me deixar aqui mesmo. — Não é. Mas, mesmo que fosse, eu não a deixaria sozinha. Não enquanto estiver comigo. — Eu disse, firme. Foi então que ela perguntou: — Você tem alguma namorada? Ficante, ou sei lá... algum caso? Não é nada pessoal, só não quero me meter em encrenca. — Não. — Respondi sem hesitar. Ela pareceu surpresa, quase chocada. — Não tenho namorada, nem ficante, nem caso. Eu não tinha ninguém até agora. Ela engoliu em seco, desviando o olhar. — Me desculpa, acho que estou saturando. Não estou sabendo lidar com tudo isso. Fui traída, dormi duas vezes com você, e tudo isso em menos de uma semana. Eu... me desculpa, Marcelo. Eu acho que sou tão suja quanto às pessoas que eu odeio. Eu não deveria estar aqui. Não deveria ter deitado com você, e o pior, eu não deveria ter gostado, mas acho que você merece algo bem melhor que eu. Ela estava apavorada. Seus olhos buscavam um ponto fixo, mas nada parecia suficiente. Quando o carro parou no sinal, ela abriu a porta para sair, mas fui mais rápido e segurei seu braço. — Ei, vai ficar tudo bem. — sussurrei. Ela encostou o rosto no meu ombro e chorou. Chorou como uma criança.






