Mundo de ficçãoIniciar sessão“Alexander”
― Que carro é esse, Carlos?
O motorista me olha pelo retrovisor por um segundo.
― É um Volvo XC90, senhor. Blindado. O seu tio prezava pela segurança.
O carro é mesmo uma belezura. Ar-condicionado gelado no último, bancos confortáveis de couro, espaçoso e perfumado. Limpo e bem cuidado. E carregava meu tio para muitos lugares.
É estranho pensar assim: meu tio. Eu não o conhecia e nem sabia que ele existia. Se soubéssemos, se tivéssemos acesso a ele há oito anos, talvez meus pais estivessem vivos, aqui, comigo e com a Maria.
Pisco os olhos rapidamente para secar as lágrimas que começam a brotar e olho de lado para a minha irmã. Pensei que ela fosse pegar no sono assim que pegássemos a estrada, mas não. Ela está vidrada na paisagem lá fora.
― Carlos, onde estamos agora?
― Em Hortolândia, senhorita Maria Luiza. A viagem está confortável? Deseja fazer alguma parada?
Malu olha para mim como se pedisse autorização para falar. Eu aceno com a cabeça para ela.
― Sim, por favor. Eu gostaria de ir ao banheiro.
Ele olha para Malu pelo retrovisor.
― Faremos uma parada em Jundiaí. Assim a senhorita poderá esticar as pernas, usar o banheiro e comer alguma coisa, tudo bem?
― Obrigada.
Penso no que estou deixando para trás. Minhas terras, meus amigos, minha cidade. Um aperto no peito me incomoda e a vontade de voltar para casa é enorme. Mas não posso fazer isso com Maria Luiza. Ela merece uma boa educação, uma casa melhor, novas amizades. E agora vou proporcionar tudo do bom e do melhor para ela. E para mim também. Como meus pais sempre sonharam.
― Senhor Alexander. Chegamos.
Carlos me desperta de meus pensamentos saudosos. E faz apenas uma hora que estamos na estrada. Malu me puxa pela mão.
― Irmão! Preciso ir ao banheiro. ― A menina está desesperada.
― Vamos, vamos. ― Te encontro aqui, Carlos?
O motorista confirma com a cabeça.
― Fique tranquilo, senhor. Eu o aguardarei no veículo.
Saio às pressas por causa da Malu. A pequena me puxou para o GRAAL, uma espécie de restaurante, misturado com posto de gasolina e venda de lembrancinhas no meio da estrada. Deixo ela na porta do banheiro e fico aguardando do lado de fora. Se eu tivesse uma mulher em quem confiar, ficaria mais tranquilo. Que pudesse entrar no banheiro com ela, levá-la para a escola, ficar em casa com ela enquanto trabalho. Lá em Piracicaba era mais fácil, pois o meu trabalho eram as terras em que morávamos, mas agora… Eu precisarei de apoio.
Quem sabe uma babá? Que ideia danada de boa, sô! Ainda mais agora que eu tenho dinheiro suficiente, na verdade sobrando para essas necessidades que antes não existiam.
― Tá rindo do quê, irmão?
Olho para baixo e minha irmãzinha está me olhando como se eu fosse um bocó.
― Nada não, Malu. Quer comer alguma coisa?
― Eu quero beber um refrigerante geladinho. Aqueles bolinhos de chuva da Lindamar me deixaram com sede. Doces de doer.
Ela faz uma careta engraçada.
― Deixa de ser mal agradecida, Maria Luiza. A vizinha só queria levar um lanche para a gente comer no caminho.
― Sei… Irmão, você é muito bobinho. ― Ela parece até a minha mãe falando. ― Deixa pra lá. Compra um refrigerante para mim?
Andamos um pouco pelo restaurante para esticar as pernas. Percebo que sou observado. Mulheres jovens e com mais idade olham para mim como se eu fosse um pedaço de carne na churrasqueira.
Sento com Malu para beber o refrigerante.
― O que tem de errado comigo, Malu?
Minha irmã que está tomando a bebida de canudinho, para e olha para mim curiosa.
― Como assim, irmão?
Encolho os ombros.
― Sei lá. As pessoas estão me olhando. Tô passando vergonha?
A minha irmã observa as pessoas ao redor. Olha de volta para mim e abre um sorriso.
― É que você é bonitão, irmão. ― Ela segura a cabeça com a mão. ― E pelo visto, devem achar que você é separado ou viúvo e que é meu pai. Homens neste estado civil chamam mais a atenção do que um solteirão.
Ela termina a bebida fazendo barulho com o canudo.
― Eu sou solteiro porque não quero me casar. Estou bem assim.
A guria revira os olhos.
― Aham. Sei. Você tem é medo, irmão.
― E eu vou lá ter medo de mulher? Eu tenho que cuidar de você. E acabou o assunto. Vamos.
Voltamos para o carro e entrego para o Carlos um refrigerante. Ele me olha surpreso.
― Não precisava, senhor Alexander.
― Larga mão de bobagem, homem. Está quente e você está dirigindo. É um trabalho que exige atenção. Não quero que você passe mal.
Mal pegamos a estrada, Maria Luiza pega no sono. Aproveito e peço ajuda ao motorista.
― Carlos, sabe se vai ter alguém na lá casa para me orientar? Eu ainda estou meio perdido com essa história de herança, negócios, você sabe.
― O senhor terá vários profissionais à disposição, senhor Alexander. O que mais o aflige no momento?
Olho para a minha irmã. Ela definitivamente precisa de uma babá. Eu não vou dar conta de aprender todo o mecanismo da nossa nova vida e ainda cuidar de uma criança.
― Carlos, eu preciso de uma babá para a minha irmã.
Ele aperta uns botões no painel do carro e começa a fazer som de ligação telefônica.
― Alô? ― Uma voz de mulher atende.
― Milena, bom dia. Aqui é o Carlos, motorista do senhor Alexander. Ele está comigo no momento e precisa de ajuda.
Faz-se silêncio do outro lado por alguns instantes.
― Claro. Pois não, senhor Alexander. Em que posso servi-lo?
Carlos faz um gesto com a mão para que eu converse com ela. Dou um pigarro para limpar a garganta e falo um pouco mais alto do que deveria.
― Dona Milena, eu preciso de uma babá para a minha irmãzinha. Ela tem oito anos.
― Perfeito, senhor. Como seria o perfil da babá?
Eita, lasqueira. Eu nunca contratei ninguém antes na minha vida. Mas eu me lembro de Mariana, esposa do Pedro. A Malu adora ficar com ela.
― Quero que seja jovem e tenha energia para cuidar de uma criança. Que seja uma pessoa boa e honesta. Que seja inteligente, também, pois a minha irmã é danada.
A mulher ri um pouco do que eu digo.
― Imagino, senhor. Crianças nessa idade têm disposição para aprontar. Compreendo sua preocupação. E quanto o senhor pretende pagar? Ela vai morar na sua casa?
Eu coço a cabeça e coço a barba que raspei pela manhã.
― Não faço ideia. O que a senhora sugere?
Novamente silêncio do outro lado da linha. Carlos vira a cabeça de lado.
― Senhor Carlos ― ele sussurra. ― Sugiro que ela more na mansão. O senhor tem doze quartos à disposição, fora a casa dos empregados.
Meus olhos se arregalam ao escutar aquela quantidade de cômodos.
― Dona Milena, eu quero que ela more conosco. Assim fica mais fácil cuidar da Malu.
― Perfeito, senhor Alexander. Quanto ao salário, o valor normalmente pago a uma mensalista é de até três mil reais.
Olho para o Carlos e sussurro para ele.
― O que você acha, Carlos?
― O quão importante a sua irmã é para o senhor?
É uma pergunta interessante.
― Minha irmã é tudo o que eu tenho, Carlos. É como se fosse a minha filha.
Ele assente com um gesto de cabeça.
― Então sugiro que o senhor não meça esforços. No mínimo o dobro do que a gerente do RH estabeleceu. Lembre-se que sua irmã é prioridade e o senhor quer ficar tranquilo, não é mesmo?
É verdade. Uma babá tem que ser minha substituta enquanto eu não estiver em casa. Precisa ganhar muito bem, por causa da responsabilidade de cuidar do filho dos outros.
― Dez mil reais, dona Milena. Eu quero a melhor babá para a minha irmã.







