CAPÍTULO 4 - A DESPEDIDA

“Alexander”

Sete horas da manhã, Piracicaba. Eu e Maria Luiza estamos acordados desde as cinco. Já alimentamos os animais, tomamos café da manhã, ordenhamos as vacas e as cabras e coletamos os ovos.

Pedro e Mariana já chegaram e estamos juntos sentados na varanda de malas prontas aguardando o motorista.

O sol já mostra que o dia terá um céu limpo e que o pânico toma conta de mim. Eu nunca saí de Piracicaba. Não sei conversar direito com essa gente chique e cheia de reme-reme. A minha irmã vai ter que trocar de escola.

Me levanto e vou para o meio do quintal observar as galinhas. Pedro vem atrás de mim.

― O que foi, mano véio? Tá com medo, é?

Fecho os olhos e respiro fundo. Respondo sem virar o rosto.

― Eu tô apavorado, irmão. Tenho medo do que vai acontecer.

Ele solta um riso pelo nariz.

― Ora, ora, ora. Se não é o cabra que costuma matar cobras no meio do mato e pegar aranhas peludas com a mão como se fossem papa-moscas. Tá com medo de um bando de engravatados, homem?

Passo a mão pela minha barba recém feita.

― Não é só isso. Temo pela Maria Luiza também. Estudar com as crianças da cidade será doloroso para ela. É uma menina da roça, não tem maldade. O que vão fazer com ela?

Pedro cruza os braços e olha diretamente para mim.

― Você é ou não é sujeito homem? A Malu cuida das galinhas do quintal, ela sabe controlar bodes e vacas. Você acredita mesmo que ela vai desmoronar diante de um bando de crianças metidinhas e ricas? Homem, deixa disso. Tá subestimando a sua irmã.

Um sorriso brota em meus lábios pelo canto da boca.

― Tem razão, Pedro. E agora, os ricos, somos nós.

O meu amigo pisa forte no chão com sua botina de couro gasta pelo tempo.

― É assim que se fala, cabra bom!

Clap, clap, clap.

Palmas no portão.

― Ó de casa!

Uai, sô. Quem será a essa hora da manhã? Malu levanta rápido e gruda em mim.

― Irmão! É a chata da vizinha, a Lindamar.

― Malu, seja educada. ― Olho de banda para Pedro que também está sério.

― Essa mulher é chave de cadeia, Alexander. Despacha ela rápido.

Ando até o portão e o abro sem o escancarar.

― Dia, Lindamar. O que a traz aqui, tão de manhãzinha?

A vizinha é uma formosura, tenho que ser justo, mas não quero assunto com ela não. Como disse o Pedro, ela é a confusão encarnada.

A mulher está vestida para a guerra, pelo menos para lutar pelo meu coração. Ou meu corpo. Um short jeans desfiado na barra, uma camiseta com as mangas cortadas, amarrada com um nó, rabo de cavalo alto e os cabelos lisos meio bagunçados. As botinas de couro engraxadas demais para quem trabalha na terra. E nas mãos, uma caixa.

Ela me olha de um jeito cobiçoso demais para o meu gosto. Uma mulher de respeito não olha para um homem assim. Ergo minha sobrancelha e a espero começar a falar.

― Dia, Alexander. Eu vim trazer uns bolinhos de chuva para você e a Maria Luiza comerem durante a viagem. Estão dizendo à boca miúda que vocês vão para São Paulo. E vim me despedir de você também.

Passo a mão pela nuca envergonhado. A pobre moça veio só se despedir da gente. Tiro o chapéu e escancaro a porteira de uma vez.

― Agradecido, Lindamar. É muita gentileza da sua parte. Não carece ter essa trabalheira toda tão cedo.

A vizinha estica o pescoço para dentro e vê meus amigos e minha irmã olhando para a gente e eles estão com cara de poucos amigos. Ela me olha de um jeito manhoso só para me desconcentrar. Ardilosa.

― É uma pena que tenha tanta gente em casa, não é mesmo, Alex? ― Ela está brincando com o botão da minha camisa que eu esqueci aberta. Dou um passo para trás e o fecho rápido.

Quando me preparo para abrir a boca e responder, de um jeito que corte o assanhamento dela, mas que não seja grosseiro, um carrão se aproxima e o motorista dá duas buzinadas.

Malu corre em meu encalço.

― Irmão! O motorista chegou! Finalmente vamos pegar a estrada!

Eu a pego no colo e olho sorridente para a Lindamar. Sorriso de alívio, que fique claro.

― Lindamar, foi uma grande alegria receber esse lanche de suas mãos… ― Malu me belisca. ― Ai! Tem muito mosquito por aqui. ― Quero agradecer de coração e não é uma despedida, é um até logo. ― Que coisa horrível pra dizer, mas não lembrei de outra coisa.

O motorista sai do carro e vem em nossa direção. É um homem de seus 40 anos. Se eu não soubesse que é o motorista, pensaria que é o dono da empresa, de tão bem vestido que ele está. Um terno bem cortado, cabelo arrumado e perfumoso. Não. Perfumado.

― Bom dia, senhor Alexander. Eu sou o Carlos. E a senhorita deve ser a Maria Luiza. É um prazer conhecê-los.

Malu olha para mim e solta um risinho tímido. Eu a coloco no chão.

― É um prazer conhecer você, Carlos! Dá cá um abraço! ― O homem me abraça meio sem jeito. ― Se vai trabalhar para mim, tem que ser meu amigo. Né não, Pedro?

Meu amigo se aproxima com a esposa Mariana. Eles cumprimentam Carlos também.

― Senhor Alexander, aquelas são as suas malas e da senhorita Maria Luiza? Permita-me pegá-las.

Eu já ia ajudar o motorista, quando Pedro segurou meu braço.

― Deixa o homem trabalhar, Alexander. Você é o patrão, tenha sempre isso em mente. Você vai ter muito trabalho a fazer quando chegar na cidade, não tire o emprego dos outros.

Tiro o chapéu e coço a cabeça.

― Você tem razão, amigo. Com o trabalho dos outros não se mexe. Preciso me lembrar disso e aprender a delegar, o que é difícil.

Pedro me abraça dando t***s em minhas costas.

― Você vai se sair bem, tenho certeza. E se precisar de qualquer coisa, é só me chamar.

― Pode me chamar também, Alex! Estou pronta para o que der e vier!

Lindamar se assanha de novo. Balanço a cabeça rindo.

― Meus amigos, vizinha. Em breve darei notícias. Aqui as chaves, meu amigo. Muito obrigado por cuidar da nossa propriedade.

Entro no carro com Malu e seguimos para a cidade grande.

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