Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuase me perco dentro do Hospital Pamplona de tão atordoada que estou! Perdi o meu desejado cargo de gerente de enfermagem para o qual me candidatei, mas em compensação… Em compensação, estou praticamente dentro da vaga de babá, e não uma babá qualquer, a babá da casa do bilionário dono da Rede Hospitalar Pamplona! Não é pouca coisa não!
O cara deve ser um lord! Rico, não, bilionário, CEO da rede! Deve falar difícil, cheio dos jargões de negócios e palavras rebuscadas. Um erudito! Eu tô até nervosa com essa entrevista na mansão do homem!
Caramba, que legal, que honra! Fora o salário. Dez mil reais é bem mais do que eu ganharia como gerente de enfermagem. Que sorte que eu dei!
Minha barriga está roncando, de fome e de ansiedade. Vou comer alguma coisa aqui pelas redondezas antes de ir para a mansão, até porque está cedo para ir para lá.
É segunda-feira e as ruas da Avenida Paulista estão bombando. Shopping Cidade São Paulo, é nesse que eu vou!
Hum… Até que ele é bem sofisticado. Madames com seus cachorrinhos, mulheres finas com suas babás e seus bebês. Quando eu estiver com a garotinha, vou poder vir direto ao shopping para levar a menina às compras, para fazer lanche, para frequentar as festinhas com os coleguinhas da alta sociedade.
Será que a alta sociedade frequenta este shopping? Vou me inteirar a respeito.
Churrasco. Esse é o cheiro que invade minhas narinas e atiça o meu estômago faminto. Olho para o relógio do meu celular, onze e meia. Dá tempo de sobra para eu almoçar e ficar fazendo hora até perto do horário marcado da entrevista.
― Bom dia, a senhora tem reserva?
― Não, não. Estou aqui pela primeira vez.
A garçonete faz um gesto para que a siga e me leva para o interior do restaurante. Som ambiente, meia luz, o lugar ideal para relaxar e me preparar para a derradeira entrevista com o doutor Alexander.
Como eu devo chamá-lo? Doutor Alexander ou só Alexander? Senhor Alexander é de bom tom.
― Vou deixar o cardápio com a senhora. Aceita um vinho como aperitivo?
Eu tô dirigindo em uma cidade estranha. Mas ainda são onze horas da manhã. O que pode dar errado?
― Aceito sim. Só uma tacinha. Vinho branco, por favor.
Olho o cardápio e escolho o prato do dia: fraldinha com salada.
Meu celular toca. Quem será? Simone.
― Oi, prima! Tudo bem?
― Cadê você, mulher? Não vem para o meu apartamento, não? Eu tô te esperando!
Dou um tapa na testa.
― Eu esqueci de te avisar, eu vim direto para a entrevista, foi agora mais cedo, às nove. E agora eu vim almoçar, porque a entrevista na mansão do ricaço é às quatro da tarde.
― Peraí, que entrevista é essa, na casa de quem?
― Prima, é uma longa história. Hoje à noite eu vou pra tua casa e te explico, meu almoço chegou. Beijo.
Se eu começar a explicar ela vai perguntar mil coisas e não vou conseguir minha paz e privacidade que tanto preciso.
A garçonete chega sorridente com o prato fumegante e perfumado. A salada verde parece saída de um livro de receitas e a fraldinha… passada no ponto certo. Eu amo carne!
― A senhorita aceita mais uma taça de vinho?
Aperto os lábios.
― Manda!
Degusto a carne macia com prazer, acompanhada do vinho argentino levemente frutado. Como é bom comer!
Eu mal termino de mastigar o último pedaço de carne e a garçonete se aproxima.
― Sobremesa, senhorita?
Olho para o alto pensando. Bem, comi carne: proteína. Comi salada: fibras. Uma sobremesa pequenininha não afetará tanto assim a minha dieta, né?
― Deixa eu ver o cardápio, por favor.
A mocinha sacou de trás das costas o cardápio de sobremesas como se fosse uma arma e o colocou diante de mim.
Um festival de doces, tortas e pudins deliciosos desfilam diante dos meus olhos. Deixa eu pensar…
― Eu quero uma Torta Alemã, por favor.
― Algo para beber?
― Um guaraná sem açúcar.
Em instantes ela retorna com a sobremesa. E que sobremesa! A Torta Alemã derrete na boca, é leve e nem um pouco gordurosa. Que delícia.
Saboreio o doce de olhos fechados e sinto uma paz e uma alegria que só os melhores doces podem proporcionar. Arremato a sobremesa com o refrigerante gelado que desce pela minha garganta lavando a doçura calórica.
Pego o guardanapo de tecido ao lado do prato e limpo meus lábios após a refeição. E do nada, do mais absoluto nada, uma nuvem cinzenta passa sobre meu cérebro distraído. Guardanapo de pano. Solto um suspiro. Eu nem pensei no nome do restaurante ou no valor dele. Entrei, comi e dane-se. Mas a experiência me leva a crer que restaurantes com guardanapos de tecido são especialmente caros.
Ah, não quero nem saber! Eu estou prestes a receber um salário de dez mil reais. Eu tenho condições de pagar por esta refeição. Eu mereço.
Pego meu celular na bolsa e confiro a hora. Duas e meia da tarde. É melhor eu me adiantar para não chegar atrasada. Aguardo uns instantes e logo a mocinha reaparece.
― A senhora deseja mais alguma coisa? Um café?
Boa. Um café é legal para afastar o álcool do vinho e me deixar acordada para a entrevista.
― Excelente. Uma xícara de café expresso e a conta, por favor.
A mocinha agradável sorri e se afasta. Poxa vida, eu tô tão feliz. Estou no ambiente perfeito. Um restaurante silencioso e agradável, com pessoas bonitas e bem vestidas conversando baixo. Tão diferente do Rio, com aquele povo pobre e feio gritando para se comunicar a centímetros de distância.
A garçonete retorna com o café. Que perfume bom. Deve ser arábica, provavelmente. Ao lado do café ela deposita com cuidado o porta-comandas de couro, com a conta dentro.
Devolvo a xícara de café para o pires e ainda estou mastigando o biscoitinho de canela que veio junto quando abro a comanda e vejo a conta.
Tem algo errado aqui. Algo muito errado.
Como um prato de comida e uma sobremesa podem custar trezentos reais?
Deixa eu conferir essa conta direito.
Prato, ok. Duas taças de vinho. Tá bom. Sobremesa. Meu Deus. Café. Misericórdia.
Isso é um assalto. O ar me falta e começo a tremer levemente. Eu estou falida. Já disse isso? Por qual razão você não raciocina, Jéssica? Mas eu devo ter alguns trocados na conta.
A jovem se aproxima com a máquina de cartão.
Eu realmente vou passar por isso. Pego minha carteira dentro da bolsa e o cartão de débito com os dedos meio vacilantes. Vai que caiu algum dinheiro na minha conta, não é mesmo?
― Tem aproximação?
Eu balanço a cabeça.
― Uhum.
Piiiii.
― Deu algum problema, senhorita. Foi recusado. ― Ela me lança um sorriso amarelo.
― Nossa, que estranho… Tenta esse aqui.
Ela me devolve o cartão de débito e aproxima o de crédito que eu lhe entrego.
Piiii
― Também está com problema, senhorita.
Coloco os cabelos para trás da orelha, o desespero já começa a apertar.
― A senhorita tem outra forma de pagamento?
― Não.
Ela fica parada me olhando, tentando entender o que está acontecendo. É óbvio que eu não vou dar calote, jamais faria algo assim. Pensa, Jéssica.
― Sabe o Hospital Pamplona aqui do lado? Então, eu sou assessora do CEO, sabe? Eu vou lá na minha mesa pegar o dinheiro que está trancado dentro da minha gaveta.
A mocinha não sorri e estende para mim uma cópia da conta.
― Qual o seu nome mesmo?
― É Luciana.
― Perfeito, Luciana. Eu vou pegar o dinheiro e já volto. Peraí.
Vasculho minha bolsa e encontro um caderninho dentro. Anoto o meu telefone com o meu nome e entrego para ela.
― Olha, não vai demorar. Qualquer coisa me liga, Luciana.
Me levanto e dou no pé antes que ela mude de ideia.







