Capítulo 7

Laura puxou o ar pela boca e prendeu a respiração quando a arquibancada vibrou e explodiu em frenesi. De olhos arregalados, ela manteve as mãos sobre o peito, na tentativa de segurar o coração que ameaçava sair pela boca.

O touro preto igual carvão, pulava com as patas traseiras, levantando poeira e levando a multidão à loucura. A loira ao seu lado disse eufórica:

- Buffalo Bill sabe que é o Donovan no lombo dele!

- Sim! - A mulher morena concordou, igualmente extasiada. - Donovan vai começar o show!

Laura não entendeu. Ela olhou para o painel cravado em oito segundos, e a sirene soou alto, anunciando que o tempo tinha acabado. Donovan era o campeão. Entretanto, ele ainda estava montado no touro que começou a girar.

Os gritos eufóricos ficaram mais altos quando Donovan usou apenas a mão direita para segurar no pito da sela, e ergueu a mão esquerda para o alto.

Cética, Laura perguntou angustiada:

- O que ele está fazendo?

A morena risonha respondeu:

- Ele está domando um touro bravo e dizendo que ele é o campeão mundial de rodeio porque cravou oito segundos sem cair antes.

- Isso é muita idiotice! - Laura ficou indignada. - Ele é um exibicionista!

As mulheres riram e assobiaram.

Donovan acompanhou Buffalo Bill em seus movimentos brutos para j**a-lo na arena de qualquer jeito. Todos os seus órgãos internos pulavam, e era uma sensação indescritível de glória.

Ovacionado, Donovan decidiu que não precisava mais se exibir. Era a hora de pular e correr para as grades de proteção. Ele se preparou para saltar.

Buffalo Bill pulou e girou. Donovan foi jogado para frente e caiu para o lado antes de soltar a mão direita presa na sela. As pontas das suas botas tocaram na arena e Buffalo Bill liberou fúria e frustração.

Sentado na grade, Cash empertigou o corpo. Donovan estava preso no touro e lutava para se soltar, tentando alcançar a sela com a mão esquerda. Porém, era impossível. Buffalo Bill decidiu girar igual um peão.

Inconformado com a derrota, Cash começou a dar as costas para a arena. Ele encontrou o olhar severo do pai.

- Donovan te avisou que Buffalo Bill iria girar. Você não teria uma derrota vergonhosa se tivesse acreditado nele.

- Por que eu acreditaria nele, pai?

- Porque ele não queria você morto, para poder esfregar o troféu na sua cara. Você teve sorte de não ter sido pisoteado.

A multidão silenciou.

Os segundos que antes eram de euforia, se tornaram de angústia e desespero. Os salva-vidas vestidos de palhaço, que tinham a função de distrair os touros no momento em que o peão termina a montaria ou quando o mesmo cai do animal antes dos 8 segundos, tentavam acalmar Buffalo Bill.

Lutando para se soltar, Donovan sentiu que estava perdendo as forças. Ele impulsionou as pernas e voltou a montar em Buffalo Bill. O animal deu um corcoveado e o arremessou para cima. Donovan sentiu o sangue quente no rosto ao cair na arena. A corda tinha sido arrebentada.

Cash se juntou aos salva-vidas para chamar a atenção de Buffalo Bill. Mas o touro estava decidido a matar Donovan. Sem opção, Cash pegou o rival e o jogou nas costas. Em seguida, correu até o cercado e desviou quando Buffalo Bill entrou e foi trancado. O animal ainda bufava enfurecido.

Desesperada, Laura correu pela arena por entre os rastros de sangue. Suas pernas pesaram quando ela se aproximou do grupo de homens ajoelhados em volta de Donovan. Eles gritavam entre si enquanto faziam os primeiros socorros. Laura só entendeu a gravidade da situação quando Cash levantou secando o suor do rosto, e ela viu Donovan. As duas mulheres que estavam com Laura, tamparam a boca para abafar seus gritos de horror.

Donovan estava banhado em sangue.

Por mais inacreditável que fosse, ele estendeu a mão esquerda para ela e se esforçou para sorrir. Aquele maldito sorriso zombeteiro.

- Ajuda.

Laura sentiu seus olhos arderem. Ela estendeu a mão para Donovan, porém, Cash a puxou pela cintura com firmeza.

- Agora não, senhorita. Ele será levado para o hospital.

- Eu quero ir com ele!

- Não será um trajeto agradável.

Laura fuzilou Cash com os olhos e vociferou as palavras:

- Eu vou com ele e ponto final!

O peão revirou os olhos verdes. Seu oponente tinha acertado na loteria com uma mulher obstinada.

- Tudo bem. Vamos no meu carro.

Trêmula, Laura olhava para frente onde Donovan estava em um carro que parecia ser uma ambulância. Era branco com uma cruz vermelha.

Dirigindo com os músculos rijos, Cash perguntou ainda assombrado:

- A senhorita viu o que eu vi?

- Sim, eu vi.

- Eu sou Cash Baker.

- Laura Miller.

- Senhora ou senhorita?

- Não tem a menor importância. Pode me chamar de Laura.

- Meu Deus, Donovan não vai aceitar viver dessa maneira.

Laura engoliu em seco. Um turbilhão de sentimentos desconhecidos a fez se sentir impotente.

No quarto do hospital, Donovan abriu os olhos e a primeira coisa que ele viu foi Laura. Era noite, e ele esperou seus olhos se acostumarem com a luz. Ele ensaiou um sorriso safado, porém, parou ao ver a aflição no rosto negro e abatido da nova-iorquina.

- O que foi? Alguém a incomodou? Me diga que eu mato agora mesmo!

Laura forçou um sorriso.

- Eu estou bem. - Ela mentiu. - Você está fraco. Perdeu muito sangue.

Donovan franziu a testa.

- Eu não sinto dor.

- O médico cuidou de você e te deu láudano para não sentir dor.

- Eu apaguei?

- Por algumas horas, mas está fora de perigo.

Donovan bufou irritado.

- Eu preciso ir receber o prêmio.

Laura se aproximou da cama e disse séria:

- Você não vai a lugar nenhum. Vai tomar duas bolsas de sangue e seguir todas as restrições médicas para evitar uma infecção.

Donovan olhou Laura com atenção. Ela parecia saber de alguma coisa que ele não sabia.

- Por que eu teria uma infecção?

- Você está ferido.

- Impossível, eu não sinto nada.

Donovan tentou sentar na cama, e então, ele sentiu que tinha alguma coisa faltando. Sua mão direita e o seu punho não estavam ali. O que tinha restado do seu braço estava preso no seu peito por uma faixa.

- NÃO!

Laura tampou os ouvidos diante do grito selvagem que ecoou pelas paredes brancas. Era como se um leão tivesse rugido. Ela abaixou as mãos e tentou coloca-las nos ombros de Donovan. O rosto bonito dele era uma máscara de pavor, sabendo que nunca mais seria o mesmo homem. Laura foi brutalmente empurrada e caiu de bunda no chão.

- Eu sinto muitíssimo, Donovan!

- Vai embora!

Dolorida, Laura levantou e disse séria:

- Não. Você vai me levar até a fazenda.

Donovan caiu no travesseiro e passou a mão esquerda na cabeça. Ele fechou os olhos. Sua vida tinha acabado.

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