Capítulo 8

Donovan estava com a mente vazia por causa do láudano. Ele lembrava de tudo, mas não lembrava quando exatamente tinha perdido a mão direita, o punho e ficado apenas com o antebraço. Ele ainda os sentia, mas não teve coragem de olhar para a faixa de gaze transpassada no seu peito nu. Ele viu apenas de relance que a ponta do antebraço direito estava envolvida por um curativo extenso.

- Você ainda está aí?

- Sim, e eu não vou a lugar algum.

- Minha boca está mais seca do que o deserto onde Jesus passou quarenta dias.

Laura pegou a jarra de barro com água fresca e colocou no copo de vidro.

- Aqui.

Donovan abriu os olhos. Ao erguer o tórax, ele gemeu de dor. Prontamente, Laura colocou uma mão atrás da nuca dele para lhe dar apoio, e levou o copo com água até seus lábios ressecados.

- Eu posso fazer isso sozinho!

Donovan não teve escolha quando o copo foi colocado na boca dele à força. Ele engasgou no primeiro gole, e bebeu o resto sob o olhar firme de Laura.

- Você está fraco. Não é vergonha ser ajudado.

Donovan voltou a deitar, mas estreitou os olhos castanhos escuros.

- Eu não preciso de ajuda! Eu sinto a minha mão!

- Dores fantasmas são comuns no seu caso.

Desesperado para alguém lhe dizer que ele ainda era o mesmo homem de antes, Donovan perguntou irritado:

- Quem te trouxe?

- Cash. Ele salvou a sua vida e foi muito prestativo.

Era um pesadelo. Donovan não podia e não queria acreditar que após ter sido mutilado por Buffalo Bill, ainda teria que ver Cash ser o queridinho do mundo do rodeio. O ruivo podia não ter ganhado o prêmio, mas seria eternizado pela sua clemência e bravura na arena.

- Você me amaldiçoou, Laura.

A nova-iorquina cruzou os braços em sinal de desaprovação.

- Eu não me importo em cuidar de você até você se recuperar. Porém, eu não vou aceitar esse comportamento infantil.

- Infantil?! Eu perdi a porra da minha mão!

- Não teria perdido se tivesse saltado do touro depois dos oito segundos! Mas não, você quis fazer graça!

Donovan ficou desacreditado.

- Como você pode ser tão insensível?

Laura respirou fundo para se acalmar. Ela não era uma mulher que perdia a classe e elegância com facilidade. Mas dado a tudo o que tinha acontecido, ela estava agitada.

- Foi um acidente. Está bem assim?

- Não. Nada está bem. Eu não estou bem e jamais voltarei a ser o que era antes.

- Pode parecer o fim do mundo, mas você pode ter uma vida normal. Você pode até mesmo continuar a ser o que era antes. Um aproveitador.

Donovan quis continuar a discussão, mas ele ficou imóvel quando Laura se aproximou para ajeitar o travesseiro. Ela tinha chorado e estava cansada. Ele disse por entre os dentes:

- Você precisa tomar banho, comer e dormir.

- Farei isso depois que me prometer que vai me levar até a fazenda.

Donovan suspirou e arriscou um olhar sobre o seu peito.

- Eu não posso dirigir.

- Não seja mentiroso. Você dirigiu a maior parte do tempo com uma mão só.

- Não me chame de mentiroso. Como eu vou trocar de marcha e sacar o revólver com tanta rapidez?

Laura deu de ombros.

- Você ainda pode fazer tudo. Mas eu vou aprender a dirigir e atirar. Eu vou até aprender a língua dos Sioux.

Donovan engoliu em seco.

- Então, você não vai precisar de mim.

- Enquanto o médico cuidava de você, eu tive uma longa conversa com as duas mulheres que estavam comigo. Eu já sei que só você consegue passar pelos Sioux porque o seu avô era o chefe da reserva indígena.

Donovan esqueceu que tinha perdido mão e punho, e deu um sorriso torto.

- Meu avô morreu há dez anos. Ele me criou na reserva. Mas desde que saí de lá depois da morte dele, não sou visto com bons olhos. O cacique diz que eu me corrompi pelos brancos.

Laura assentiu. Era verdade.

- Entendo. E seus pais?

- Dois inúteis que só me colocaram no mundo.

Hesitante, Laura colocou a mão no ombro esquerdo de Donovan. A pele quente dele a queimou e ela abaixou a mão.

- Temos um acordo ainda?

- Você é uma filha da puta teimosa, sabia?

- Donovan!

O texano foi dar de ombros e encolheu de dor.

- Está bem! Eu te levo! Satisfeita?!

- Sim.

- Mulher teimosa dos infernos.

Laura sorriu vitoriosa. Donovan não tinha mais forças e voltou a dormir. Ao acordar ele viu os primeiros raios de sol da manhã e ficou incrêdulo ao olhar para o outro lado. Em pé ao lado da porta, Cash ergueu o troféu de ouro, deu um sorriso debochado e disse:

- Eu pensei que você iria querer ele.

- Sim. Eu vou colocar na estante junto com os outros para juntar pó. Me dê o cheque.

Cash tirou o cheque do bolso frontal da calça jeans e entregou para Donovan.

- Eu espero que você esteja de volta às selas bem depressa. Não tem graça competir se não for com o melhor.

Donovan franziu a testa.

- Isso foi um elogio?

Cash colocou o troféu sobre a mesa ao lado da cama e deu de ombros.

- Nossa rivalidade nunca deveria ter saído de dentro da arena, Donovan.

- E você nunca deveria ter me tirado de lá. Deveria ter me deixado morrer pisoteado.

Cash riu divertido.

- Seria uma morte gloriosa e você não merece se tornar um mártir. Tem uma multidão aí fora querendo te ver.

Donovan bufou irritado.

- Vai embora e me deixa em paz. Para de bancar o bom samaritano, caralho.

- Eu pensei que você gostaria de saber que a Laura passou a noite na casa da Jennifer.

Donovan ignorou a dor que irradiou da ponta do antebraço até o seu ombro direito. Ele colocou as pernas musculosas para fora da cama. Cash ficou cético.

- Você não pode sair do hospital.

- Eu quero ver quem vai ser homem pra me impedir.

Cash Baker nunca iria confessar, mas ele era muito fã de Daniel Donovan.

Descansada, de banho tomado e com a barriga cheia, Laura lavou a louça do café da manhã, e se preparou para voltar ao hospital. Uma das garotas, a morena risonha, tinha lhe oferecido pouso, e ela não recusou.

A casa grande era aconchegante, e Laura só soube que era uma espécie de bordel ao ver mulheres semi nuas, e homens entrando e saindo.

Alguns dias atrás, ela jamais entraria na casa de uma estranha para passar a noite, porém, a vida tem muito senso de humor, ela concluiu ao pegar a cesta de café da manhã que tinha feito para Donovan com pães, suco e frutas. Jennifer disse que ele não bebia leite em hipótese alguma.

Laura bateu na porta do quarto da morena risonha.

- Eu estou indo para o hospital.

- Volte para tomar banho, comer e dormir, querida. Mi casa es tu casa.

- Obrigada.

Laura ouviu um homem gemendo e se afastou pelo corredor estreito. Uma porta foi aberta, e ela se assustou com o velho gordo, peludo e barrigudo que saiu do outro quarto. Ele sorriu, exibindo os dentes amarelados e podres de quem mascava tabaco.

- Vai aonde, docinho?

Laura deu um passo para trás. Porém, ela empinou o nariz e disse séria:

- Eu estou de saída e não trabalho aqui. Por favor, deixe-me passar.

O velhote se aproximou sorrindo.

- Não, senhorita.

Sem pensar duas vezes, Laura chutou o velho entre as pernas. Ele se curvou para frente com uma careta de dor.

- Cadela desgraçada!

- Velho asqueroso!

Laura foi pega pela barra do vestido rosa e perdeu o equilíbrio ao ser puxada. Todas as portas foram abertas e as mulheres correram para ajuda-la. Contudo, o velho foi puxado pelos cabelos sebosos por uma mão grande e forte.

Em choque, Laura viu Donovan jogar o homem escada abaixo. Ele olhou sério para ela.

- Será que eu não posso tirar os olhos de você nem por um segundo?

Laura pensou em dizer que a culpa não tinha sido dela, mas ela pegou a mão esquerda de Donovan, que estava estendida em sua direção e ele a puxou para cima. As mulheres riram e voltaram para os seus afazeres.

Laura olhou para a manga da camisa social azul marinho que Donovan usava. A manga direita encobria todo seu antebraço, sobrando tecido onde era para estar o punho dele.

Ela balbuciou:

- Eu estava bem.

- Eu quis ter certeza. Vamos embora.

Laura olhou para a cesta de café da manhã perdida e seguiu Donovan escada abaixo. Ela teve que correr para alcança-lo. Cada passo dele eram três dela.

- Você tem que voltar para o hospital!

- Nós vamos para Louisiana. Quanto antes eu te deixar na fazenda, mais rápido me livro de você.

Laura gritou quando o velho gordo foi pra cima de Donovan e caiu no chão com um tiro na cabeça. O texano guardou o revólver na cintura da calça jeans preta.

Do lado de fora, Cash mascava tabaco encostado na sua picape vermelha.

- Eu fiz um acordo com Donovan, Laura. Eu levo vocês para Louisiana enquanto meu pai esfria a cabeça.

Laura estava atordoada. Donovan a pegou pelo braço e a colocou no banco de trás, onde sua mala estava. Ela viu a Ford dele do outro lado da rua. Ele sentou no banco do carona e Cash na direção. O ruivo desdenhou.

- Partiu Louisiana.

Donovan revirou os olhos.

- Eu sei muito bem o que você quer em Louisiana, Cash.

Confusa e curiosa, Laura perguntou:

- O que ele quer?

Donovan secou o suor da testa na manga da camisa. Ele estava a ponto de desmaiar de calor, dor e fraqueza.

- Ele quer Brooklyn, o seu vizinho. E vai me usar para passar pelos Sioux.

Cash ligou o som do carro. Donovan fez uma prece breve e silenciosa para o avô: "Que seu espírito me guie sem fronteiras."

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