Capítulo 2

Pensar

Desempenhar a capacidade de julgar ou de deduzir: Pensei que você não vinha. Meu irmão está pensando na melhor maneira de terminar o namoro. Infelizmente ela não pensa antes de agir. – Dicionário Michaelis.

Uma assistente entra no camarim. “Meninas,” ela diz de forma alta, fazendo a tagarelice terminar, “vocês vão entrar no programa em dez minutos. Vamos chamá-las na ordem do sorteio de mais cedo.”

Ah sim, Magda lembrava bem como é que vai funcionar o programa. As meninas vão ser apresentadas para a plateia, mas não vão ser chamadas por nome. Cada uma recebeu um número e este número vai estar sobre o nome delas, escrito em uma placa oval, feia e enorme que será pregada na roupa.

Cada uma levou um leque de roupas e sapatos, ideias de maquiagem e cabelo, menos Magda que… bom, que há dois dias não estava nem esperando ter que falar com o participante masculino e, agora, em menos de uma hora, estava com um contrato assinado, dinheiro na conta e uma pessoa escolhendo um vestido muito curto para ela usar.

Que terror… Pensou. E que glória, lembrou do dinheiro na conta.

“Então,” a auxiliar seguiu tagarelando, “vocês vão responder perguntas simples, idade, cidade, com o que trabalham e algum hobby ou qualquer outra coisa interessante que vocês pensarem...”

Quando pré-adolescente, Magda vivia vendo este tipo de programa, o que ela mais lembrava de ter visto se chamava Beija Sapo e ela adorava. Só que agora ela já tinha trinta e um anos, estava formada, trabalhando numa área que odiava - mas que talvez, em um sonho distante, poderia fazê-la trabalhar na produção de uma animação - e estava para participar de um programa bem machista, que dava mais audiência do que qualquer programa de conhecimentos gerais – rivalidade feminina, um prato cheio para as pessoas.

“Meninas, olá,” Muniz entrou na saleta onde as participantes se arrumavam. Ela torceu o nariz, o leque de meninas escolhidas era tão padronizado que a entediava, “eu sei que muitas de vocês nunca estiveram em um programa de TV, mas, só quero dizer que fotos comigo, só depois do programa e precisam pedir para a equipe agendar. Não estraguem meu reality, ok?”

Como um furacão, a apresentadora saiu da saleta deixando resmungos para trás.

Magda escutou a porta se fechando enquanto olhava, pela enésima vez, a conta bancária recheada. Caramba, televisão realmente tinha poder de conseguir muita grana. Muita grana mesmo. O que, ela já deveria saber, uma vez que lidava com centenas de pagamentos altos semanalmente.

Na sala das meninas, a maioria delas eram morenas. Gostavam de academia e tinham de 1,70 a 1,80. Os cabelos lisos tinham ondas formadas por babyliss.

“Sério, como você conseguiu entrar aqui?” Magda levantou os olhos do celular. Isis, uma grande amiga dela, perguntou. Isis tinha se inscrito no programa alegando que seria ótimo para ela namorar Alan, o príncipe. Mas Magda sabia que ela só queria conseguir divulgar-se como personal e modelo.

“Depois,” a ruiva resmunga. Estão puxando seus cachos para firmar a trança estranha e ela precisou segurar um xingamento no fundo da garganta.

A amiga deu dois tapinhas na coxa da ruiva e volta para seu lugar, dando uma última checada no visual antes de se preparar para entrar no palco.

Magda era a oitava a entrar. Ela era a ‘não escolhida,’, pelo menos é assim que seu nome está na papelada do programa.

As meninas não ligaram quando ela entrou e anunciaram que era uma opção extra, já que houve uma desistente, afinal, Magda não tinha as coxas grossas como Alan disse que gostava, nem tinha peitos durinhos e a bunda dela deveria ser mais mole que qualquer travesseiro que o príncipe já dormiu.

Ninguém, nem Magda, acreditava que ela era uma ameaça; muito pelo contrário, para todo mundo, ela era apenas uma pessoa a menos para brigar por uma vaga no fútil coração de Alan.

Contudo, havia uma pessoa que estava apostando uma ou duas fichas em Magda: Rasha Muniz.

“Alan e Magda…” Rasha sussurrou enquanto era microfonada.

“Senhora?” A assistente de palco queria saber se estava tudo certo.

“Nada,” Rasha responde, suas unhas impecáveis arranhando a bordinha do copo de vidro que manchou com seu batom vinho. “Nada.”

Obviamente, tinha sim algo na cabeça de Rasha e a coisa era: Alan era um rostinho bonitinho, nos moldes padronizados da sociedade, usando sua padronização para parecer alguém previsível – o que ele não era. Era um cara diferente, exigente e que só foi convencido a participar com um pouco de... permuta.

Alan, Alan, Alan, pensou Rasha.

Ele havia visto um leque enorme de pessoas antes de ir ao palco escolher as meninas dos vídeos. Ele viu aproximadamente cento e trinta e duas garotas e doze garotos. “Eu até escolheria este cara, mas não vamos arriscar, certo Rasha?” Ele alfinetou. Afiado e ciente de que o dinheiro entrava mais fácil quando se seguia os moldes dos investidores.

“Talvez naquela emissora cristã?” Ela devolve a piada. “Então, mulheres de coxas grossas?”

“Eu preciso dizer que gosto de algo né?” Ele sorri com ironia. Passa mais um vídeo para o lado e recruza as pernas. Há um jeito fofo na barba por fazer dele que combina muito bem com o cabelo volumoso.

Alan Laggato gosta de sentar de perna cruzada, tem os braços torneados, mas seu corpo não é definido. O cabelo cheio brilha mais do que os comerciais de shampoo poderiam tentar reproduzir e ele basicamente usava jeans claro e blusa branca.

“Você é um caso complicado, Alan.” Rasha o conheceu porque ela precisava redecorar sua casa e estava cansada de brincando de casinha de revista com o dinheiro dela. Ela queria algo… novo, expressivo, diferente. Sua vizinha, Joana, disse que a filha dela trabalhava em um prédio comercial onde o andar de cima pertencia a um tal de Alan Laggato, que estava começando a se tornar um queridinho na inovação de design de ambientes. Não havia nada a perder, havia?

Rasha adorou vê-lo porque ele era bem bonito e solteiro. Não, Alan não estava a fim de amarrar seu burro, mas ele queria expandir seus negócios. Expandir queria dizer que ele precisaria contratar mais gente e contratar mais gente lhe permitiria trazer pessoas da periferia e de outras bolhas sociais para aquele mundinho dominado por gente branca e rica.

“Vamos fazer um programa,” Rasha começou, os esboços que ele fez eram perfeitos. “Arrumar uma namorada para você.”

“Nem fodendo,” Alan respondeu, abrindo um lindo e encantador sorriso que Rasha quis partir em dois.

“Pense comigo…” Foi preciso uma semana pensando junto de Alan. Todo dia Rasha o chamava, perguntava de seu projeto, dava ideias sobre coisas que gostava e então voltava a insistir no programa de namoro. Ela ganhou por muita insistência - e por ter garantido que faria um programa de culinária e ele faria o cenário.

No anuncio do programa, que durou três semanas apresentando Alan em comerciais e nos próprios programas de Rasha, as pessoas puderam vê-lo melhor. Um cara de pele oliva, sorriso encantador e olhos de menino bonzinho criado com vó. A barba foi retirada, o que não deixou ele nem um pouco feliz, já que o rejuvenescia e ele detestava ser visto como um garoto novo.

Para Alan, só as aparições dele e ele dizendo que era dono de uma pequena empresa chamada Caixa Aberta, já rendeu vários orçamentos de projetos. O que nasceu como um hobby e se tornou o sustento de Alan, agora crescia por conta de um rostinho bonito e da ideia genial de Rasha em arrumar uma namorada para ele. 

O que mais se sabia sobre o negócio de Alan? Que a Caixa Aberta cresceu com as redes sociais; que virava e mexia Alan e seu amigo Mikael, brincavam de redecorar (virtualmente) cômodos de pessoas comuns, chegando a dar ideias que podiam ser feitas com os móveis que havia na casa.

Alan, o garoto criativo, soube que teria uma pessoa a mais na jogada no dia em que ele finalmente ia conhecer as meninas escolhidas. A participante de número oito saiu da corrida para o coração do príncipe e eles enfiaram uma garota que trabalhava lá no programa, mas que havia sido demitida para não quebrar a regra do contrato.

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