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Salvação
O que livra alguém de uma situação que oferece perigo. – Dicionário Michaelis.
Magda disse não. Ela foi firme, forte e resistente ao dizer “não, não vou fazer parte disto”, mas agora ela estava se vendo no espelho do camarim com mais nove outras garotas se emperiquitando toda para conquistar o coração do príncipe Alan.
As meninas tagarelavam animadas, um misto de coleguismo e rivalidade que Magda não iria julgar, afinal, até o dia anterior, ela estava trabalhando junto a produção do programa, torcendo para que a audiência fosse grande e assim ela ganhasse um belo bônus ao final do quadro.
“É,” a maquiadora diz com uma careta de dúvida, “vai ter que dar pro gasto.” Magda podia dizer que estava odiando tudo, mas até que a maquiagem neutra estava lhe deixando menos sardenta, e o lápis envolta dos seus olhos deixavam o tom meio verde meio castanho com vivacidade - e não com aquela cor de que mais lembrava uma banana atropelada -; além disto o batom era bem hidratante e deixou os lábios dela macios. Tinha que lembrar de anotar o nome e a cor daquele batom.
“Está ótimo,” o elogio que Magda disse foi real, afinal, maquiadores sabem como deixar todo mundo incrivelmente belo.
“Bom, pelo menos você não está atrás do coração dele, né?” O sussurro no pé do ouvido de Magda vem da cabelereira, que conseguiu dar um jeito em seus cachos revoltados, os prendendo em uma mistura de trança e cascata na lateral de sua cabeça.
Ah, sim, era segredo que Magda tinha trabalhado na produção, afinal, havia uma clausula de que ninguém da equipe, ou familiares de até duas gerações, poderia participar do quadro.
Rasha, a apresentadora, nunca aceitaria que uma participante havia desistido de última hora, mesmo que a causa da desistência fosse por conta de um falecimento na família. Isto gerou uma bela bagunça em toda a equipe que escutou a explosão da apresentadora há quilômetros de distância.
“Como assim ela desistiu?” Rasha explodiu. O salto fino de seu sapato, desconfortável, reclamando junto com sua dona ao bater agudamente no chão de vinil. Diana se encolheu com a explosão, mesmo que ela fosse a diretora do programa era Rasha, a estrela internacionalmente premiada, que mandava em tudo por ali.
Enfiada em sua mesinha, no cantinho mais afastado da porta, Magda também se encolheu, tentando se concentrar na planilha de gastos que jogaram na sua mão. Os números que ela conferia vez ou outra insistiam em não bater com o previsto no PowerBi.
“Então,” Diana lambe os lábios para ganhar mais tempo e os dedos de Rasha ficam pálidos quando ela os afunda, um pouco mais, nos próprios braços cruzados. “A prima dela faleceu e…”
“Quem é que gosta de primo?” Rasha rosna, “Todo mundo sabe que primos só servem pra primeiras experiências sexuais!”
“Nojo.” Alguém murmurou, mantendo-se em segredo mesmo depois da ordem para repetir.
Magda achava que conseguia sentir o ódio de Rasha, mesmo com quase oito mesas entre elas. Silenciosamente, ela enfia a mão sob a cadeira e puxa a pequena alavanca que permite a cadeira levantar ou abaixar o estofado. A cadeira desceu lentamente, mas não sutilmente, apitando como um assovio de um velho tarado tentando chamar a atenção de uma garota na rua.
Foi assim que os olhos de Rasha Muniz caíram sobre a cabeleira ruiva escondida em um cantinho da mini sala administrativa em que estava.
“Você!” O dedo adornado apontou para Magda, que se encolheu um pouco mais. Até mesmo seus cachos pareceram murchar para tentar ajudar a esconder a moça; “quem é ela?” A pergunta se volta para Diana.
A diretora do programa olha, desesperadamente, pela sala em busca da pessoa que responde pelo setor.
“Magda.” Responde a coordenadora. “Ela...”
“Ninguém sabe quem é ela,” Rasha rola os olhos, “trabalha aqui há quanto tempo, garota?” Para Rasha, a menina era como um fósforo aceso e isto estava parecendo a solução perfeita para seu problema atual.
“Eu?” A ruiva aponta para si mesma. A cadeira não desce mais, mesmo que a alavanca esteja quase sendo arrancada.
“Sim, você ruiva. Tem o que, três meses trabalhando aqui?”
“Dois anos.” A ruiva responde sem tirar os olhos da tela e tentando, inutilmente, abaixar ainda mais a cadeira.
“Tá,” Rasha suspira como se estivesse trabalhando o dia todo e não apenas algumas horas.
Quando Rasha começou a trabalhar em uma emissora de TV, há mais anos do que ela jamais deixaria qualquer um contar, sua habilidade de encontrar talentos foi reconhecida prontamente por seus chefes. Ela sabia, só por passar dois minutos, ou menos, com alguém, se a pessoa daria boas audiências. Isto, somado com ótimas notas na faculdade e poucos amigos, lhe deram promoções constantes, até o dia em que ela cravou seu próprio programa.
A ruivinha chamada Magda ergueu os olhos. Óculos redondos protegiam os olhos castanhos esverdeados e as sardas pareciam brilhar na pele sem maquiagem. Ela tinha um rosto jovem, redondo e precisava fazer as sobrancelhas.
“Demite ela…” Rasha Muniz começou, precisava daquela garota no programa. Seria perfeita para ser excluída logo de cara.
Se tivesse tido tempo, a apresentadora ainda diria que pagariam todos os proventos que a CLT ordenava e mais alguns bônus pela participação dela no programa, mas há um grito, ou melhor, uma porção de gritos que surge na saleta.
“Quê?” Diana;
“Como?” Alguma garota qualquer;
“Nossa!” Outra garota qualquer;
“Bixa!” Alguém com o queixo caído;
“Cacete!” Um segundo cara usando paetê;
“Eu?” A ruiva sem graça sentada no fundo da sala.
Sim, a ruiva-sem-graça-sentada-no-fundo-da-sala é perfeita para o que Rasha precisava. “Levanta garota.” Ela exige.
“Estou demitida?” A garota rebate.
“Você ainda trabalha para mim.” Responde a apresentadora com um tom de voz que esconde o que ela está começando a perceber.
“Mas se vou ser demitida, por que vou lhe obedecer?”
O frio na espinha que escorrega pelas costas de Muniz a faz ter um insight que sempre vinha quando ela sabia que teria um sucesso aos seus pés. A aparência de Magda foge da que foi escolhida pelo participante do programa. Ela também tem aquela típica aparência de quem obedece a todo mundo, mas desafia a todos.
Qualquer um sabe que Rasha Muniz não deve ser desobedecida, que ela encantou a dona da emissora - na verdade, ela seduziu a socia majoritária e assim ganhou o estrelato, mas isto é outra história… - e ninguém quer perder o emprego ali. Emprego é algo escasso, ainda mais um que paga bem, direito e com benefícios ótimos. Se você carrega o nome daquela emissora no currículo, então pode ter certeza de que qualquer outra emissora vai tentar te ter - com exceção daquela concorrente hiper cristã... mas nesta ninguém, que não seja daquela igreja, quer trabalhar.
Só que Magda está ali, no cantinho, encolhida em uma cadeira velha, com os cabelos presos em um coque e fazendo a pergunta que deveria ser o mais óbvio para todo mundo, mas que ninguém, ali, jamais faria.
Aquilo empolga Rasha Muniz. Ela corre os olhos castanhos pela ruivinha enquanto as unhas alongadas alisam a pele negra e brilhosa de seu próprio braço. Magda era … bom, pequena, tem seios meio grande demais para ela e costas largas. O príncipe, por outro lado, o participante tem um metro e oitenta e três, gosta de se exercitar, daqueles que amam correr maratonas chatíssimas... tem uma empresa de arquitetura de médio porte, ama viajar, fala inglês e espanhol como se fosse português, cozinha e… é completamente incompatível com aquela menina. Alto, pele bronzeada e cabelos sedosos. Ele sempre se apresenta arrumado e tem um ótimo perfume.
“Vai dar pro gasto,” Rasha solta. “Vem comigo garota.”
Apesar disto, os pelos das costas da Muniz seguem arrepiados e ela sabe que não está sendo seguida.
“Vou ser demitida?”
“Demissão pode ser a salvação, sabia?” Muniz pergunta, então aponta seu dedo para a ruiva e depois para a porta, virando-se de costas de movendo os dedos de forma a mostrar que haverá dinheiro envolvido.







