Capítulo 3

Curiosidade

 Desejo forte de ver, conhecer ou desvendar alguma coisa. – Dicionário Michaelis

“Quem é a garota surpresa?”  ele perguntou à um assistente que o microfonava.  Alan sabia que estava fisicamente tranquilo, só que a verdade é que a cada segundo seu coração disparava ainda mais.

Era ótimo em conversar, jogar papo fora, seduzir clientes com projetos que eles iam adorar, mas detestava chamar atenção em grandes grupos. Sério, ele perdeu dois pontos em seu trabalho de conclusão de curso só por ter gaguejado em todas, absolutamente, todas as respostas que deu para as perguntas da banca.

“Qual a graça em revelá-la?” O cara diz. Uma resposta impecavelmente decorada, já que Rasha tinha lhe dito a mesma coisa momentos antes.

 Mistério e insistência seriam as palavras bordadas na bandeira dela, se Rasha Muniz fosse um país. “Testando…” Disse o assistente perto do microfone recém colocado.

Alan teve um bom pressentimento sobre a menina selecionada, afinal, foi bem difícil achar dez pessoas que fossem interessantes e não apenas um leque de corpinhos malhados e coxas grossas em centenas de micro vídeos.

“Quem arruma uma namorada desta forma?” Ele murmura ajeitando o relógio.

Teve uma semana para ver 242 meninas e selecionar trinta delas. Mal lembrava o nome de uma, quem diria de duzentas! Das que ele escolheu, o programa se encarregou de achar as mais interessantes e, bom, nesta parte, Alan não fazia ideia do que tinham usado para escolher quem faria parte daquele quadro.

“Você entra em seis minutos, vamos?” O assistente diz.

É o graaaande dia, Alan pensa com ironia, checando-se no espelho e ajeitando um fio de sua sobrancelha que resolveu desalinhar-se. Alan nunca estava desalinhado de verdade, ele sempre sabia como estava e gostava de sua beleza. De como sua pele oliva fica dourada depois de um banho de mar, como seus ternos sob medida se encaixam com perfeição e como a bota que usa lhe deixa com uma pegada de menino mal.

Ele solta um riso para si mesmo. O verdadeiro Alan nunca lembra de arrumar o cabelo, usa as mesmas roupas quase sempre, só compra roupa nova para natal e ano novo – e porque sua mãe e irmãs insistem nisto.

Mas, como lhe disseram quando construíram seu perfil para o programa: Todo mundo gosta de um cara que tem um pouco de bad boy, não?

Alan para no ponto que o assistente avisa, escuta o cara alertando que estão prontos enquanto se afasta para onde as câmeras não vão pegá-lo. Os segundos voam. A voz de Rasha inunda os ouvidos de Alan, o assistente sinaliza uma contagem com os dedos.

Dois

Um…

As portas se abrem lentamente, mas o sorriso levemente torto de Alan explode sob as luzes e as câmeras e ele caminha até Rasha, que está incrivelmente bela em seu vestido laranja que deixaria qualquer um feio, mas se mostra a combinação perfeita para a pele negra brilhosa dela.

“Olá, olá!” Alan diz enquanto acena para a plateia e as câmeras. Em sua primeira participação no palco, as pessoas explodiram nas redes sociais dizendo que ele parecia um lorde, alguém absurdamente educado e simpático. A filha de Sandra, a faxineira da Caixa Aberta, diz que ele realmente é a simpatia em pessoa, um verdadeiro príncipe.

Rasha guia o programa com maestria, ela gosta do que faz e gosta de fazer bem feito. Ela também é uma caixinha de surpresas, mas Alan sabe que suas intenções não são para destruí-lo e sim usá-lo para aumentar ainda mais os pontos de audiência, então ele não se preocupa com as surpresas que podem surgir no meio do programa.

“Hoje é um dia muito especial,” ela está dizendo. Seu corpo elegante se recosta na banqueta alta, mantendo uma perna alongada, equilibrando o corpo que não se apoia inteiramente no banquinho verde abacate.

Alan deixa o sorriso morrer um pouco, apenas um pouco, agora não mais mostrando os dentes, mas ainda com uma expressão suave de alegria, “o que teremos de tão especial?” Sua animação faz os olhos de Rasha brilharem como se fosse um pirata achando ouro.

“Você finalmente vai conhecer as meninas escolhidas na semana passada.” A plateia aplaude ansiosa, mas a explosão dura pouco, pois o programa precisa continuar, “bom, parte delas, pelo menos.”

“Parte delas?” Atuando com perfeição Alan ergue uma sobrancelha e entorta seu sorriso.

“Sim, mas tudo em seu tempo, certo?”

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